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A palavra Obrigado pode valer por uma vida – História de encontros com uma prostituta, uma mulher de corpo inteiro, uma mulher digna.
Coimbra, 1 de Março de 2025
Uma amiga minha pediu-me, nos anos setenta, umas notas sobre a minha vida. Pensava escrever um romance em torno desse jovem que eu fui e do jovem que era, assim como da “malta” com quem andava. Há dias, e não sabendo que eu estava a escrever um texto sobre algumas circunstâncias da minha vida telefona-me e o diálogo foi mais ou menos este: Júlio, estás sentado? Sim, estou. Olha, descobri uma notas escritas por ti e que escreveste porque eu queria fazer um romance tomando-te como exemplo para a criação do personagem principal. O título era este: um vulcão no sopé da montanha. Que raio de título, disse-lhe. Júlio, sabes porquê esse título? Não, não imagino, retorqui. A minha amiga diz-me: tu falas de teres andado a namoriscar uma rapariga ao fundo da escada de serviço quando ias entregar as mercearias. Deviam ser uns beijos de fogo. É por isso o título. Manda-me isso, atalhei.
E mandou-me as notas, mas não todas, porque o relato era parcialmente verdadeiro, teria namoriscado uma empregada interna de um dos meus clientes, nascida lá para os lados de Almeirim. Mas isso não consta das notas que recebi. Mas nestas há uma outra história por contar.
Nas notas escritas para o tal romance de Joana Ruas está escrito e reproduzo a série de pontos que seriam para desenvolver para o seu trabalho:
Nestes lê-se o caso da prostituta e do livro de poemas. Penso que vale a pena falar disso e da minha solidão dos fins de semana na época.
Aliás, há dias num programa de televisão, a Fátima Campos Ferreira no programa “Na primeira pessoa” entrevistou um fotógrafo que teve uma infância com alguns paralelos com a minha vida, da mesma idade, e um dos problemas era a solidão dos fins de semana: os meus fins de semana eram passados nos bancos dos jardins normalmente a ler e algumas tardes num ou noutro bordel como voyeur. De vez em quando não era assim, ia mesmo às putas. Mas fora do bordel ter-me-ei um dia cruzado com alguém que terá começado a calcorrear os dias da vida tendo como profissão, a profissão mais velha do mundo. Ela uma mulher na casa dos 30-35 anos, eu na casa dos 20 anos. Nada de especial nisto, aparentemente. Ao ler esta nota, horas depois veio-me tudo à memória. Teremos ido para a cama, numa casa particular em que ela teria alugado um quarto na Rua de S. Paulo para exercer a sua profissão. Estava no fim da minha vida como marçano ou no princípio da minha vida como operário, penso eu.
Não terei sigo agressivo sexualmente com ela e conversou-se sobre a sua vida e sobre a minha: duas vidas a quem o destino não tinha sorrido. Ela tinha uma filha na casa dos 10 anos, estava separada e tinha caído no desemprego, precisava de sobreviver e de imediato: a fome não espera por amanhã. Não esqueçamos que naquele tempo não havia mecanismos de apoio social: uma vez caídos na desgraça, se não houver apoios da família dificilmente se saía dessa situação. Era a precariedade na sua expressão mais absoluta que eu conheço. Curiosamente a situação é diferente da minha amiga com as postas de salmão. Esta, tinha dois filhos, estava igualmente separada, tinha emprego e tinha ouro para se desfazer quando necessário e foi necessário. Com muito afeto o digo, mas o português é o que é, a minha puta cheia de dignidade tinha apenas o ouro do seu corpo para vender e algum para dar. Ouro que no fim me quis dar e que eu soube recusar. Possivelmente diria à filha ao sair de casa que ia para o emprego, um pouco a fazer-me lembrar hoje o filme de Laurent Cantet, de 2001, “L’emploi du temps”, onde um desempregado saía todos os dias para o trabalho, um trabalho que já não tinha. Cito de memória.
Ela e a filha precisavam de sobreviver e na urgência, daí o ter entrado naquela vida, eu precisava sobretudo de aprender a ser sexualmente homem. E, do meu ponto de vista eu estava a pagar essa lição. Falou-se da vida de um e de outro, da porca da vida que se levava e veio à baila a literatura. Emprestei-lhe livros e um deles seria de poesia pelo que diz a nota acima. De poesia, penso que terá sido de José Gomes Ferreira , um poeta de que gostava muito e cujo nome terei aprendido na casa do Augusto Costa Dias. Um ou outro livro era de ficção. Na cama também se falava de livros, das personagens de que gostava ou não gostava, não havia outro lugar para se conversar. Por fim, levava-me um preço ridículo para a ajuda do quarto a pagar. Ganhei-lhe amizade, ganhei-lhe respeito e, por isso, naquela época desisti de me encontrar com ela. E a razão era uma situação de conflito de interesses: senti-la como amiga, seria contraditória com estar a pagar-lhe, não lhe pagar seria estar a explorá-la e não ser seu amigo. Sem solução para este conflito só havia uma solução: afastar-me. Foi que fiz, afastei-me.
Mais tarde terei contado esta história a uma amiga minha, bibliotecária de profissão chamada Natália que teria sido aluna ou amiga ou as duas coisas da Rosário Pericão, bibliotecária de uma vida na FEUC, que como reação a esta história me conta a história de um amigo que em Amesterdão teria ido às putas e que lhe disse depois: olha Natália, a meio do caminho tocou o despertador e a prostituta diz-me : acabou o seu tempo. Ah, Natália, tu nem imaginas as saudades que eu tive das nossas putas do Cais do Sodré. Os meus encontros também se davam na rua de S. Paulo, uma longa rua que tem uma das suas extremidades a dar para o Cais do Sodré, mas ficávamos longe do ruído desta zona, em encontros que já nada tinham de bordel, eram diferentes, muito diferentes, apesar de tudo.
Estamos em meados dos anos 60, não esqueçamos que é o tempo de entrada da calça de ganga como peça de roupa de mulher, exceto na função pública, onde era proibida a sua utilização. Mais tarde o regime cede. Era também o tempo em que se fala da libertação sexual da mulher. Esta libertação constituiu uma pequena revolução e, como em todas revoluções sejam elas pequenas ou grandes, houve aqui os seus estragos, de raparigas ainda sem maturidade para tal ou de alguns oportunismos de matriz sexual pela parte sobretudo do género masculino, mas isso era inevitável. Foi tempo que passou e essas feridas o tempo terá curado, de certeza, a maioria delas.
Anos depois, de ter deixado de frequentar a rua de S. Paulo, já comigo na Faculdade de Ciências, já um jovem adulto batido em leituras de Roger Vaillant, cardeal de Retz, Laclos, Stendhal e outros, cito de memória, vivendo numa conceção muito especial do que era libertinagem, e esta assentava no respeito pelo corpo e pela alma da mulher com quem andasse, cruzo-me com esta prostituta, minto, com esta mulher de corpo inteiro, à entrada de uma estação de metro, perto da loja Pestana e Brito. Estava bem vestida, de saia e casaco cinzento, numa tarde primaveril, a julgar pela imagem que tenho do céu nessa altura. Tinha um ar fino, elegante, dirijo-me a ela e ela quando me reconhece, me vê dirigir-me a ela, para, espera que chegue ao pé dela. E, antes que eu dissesse alguma coisa, diz-me com um ar tenso, talvez com medo de que eu quisesse outra coisa: estou casada, sou feliz. Obrigado por me ter respeitado, por me ter ajudado a ser mulher. Deixe-me ir e mais uma vez obrigado, são estas as palavras que me diz com voz segura e carregada de emoção, enquanto me olhava com carinho.
A expressão deixe-me ir, quando ninguém a estava a impedir fosse do que fosse, dizia-me que havia aqui, nestas palavras, múltiplos sentidos, e eu entendi-as de imediato como se quisessem dizer: não me atrapalhe a vida, como se desejasse que não nos aproximássemos mais ainda, que ficássemos distantes, contidos e no sentido até mesmo de eu não retorquir. Foram segundos de chumbo, foram lembranças de um passado que ela não queria, eu também não, eram lembranças de um desejo de futuro melhor então desejado e agora ali presente, eu na Universidade, ela casada e feliz, um presente que não poderia ser estragado. .
Não nos tocámos, penso que ela o temia, por uma razão bem simples: vindo do fundo da vida, vindo de onde veio, ela sabia que já não chegava ser séria, era preciso parecê-lo também, uma realidade que ela sabia e que naquele sublime momento parecia que eu me esquecia, mas isso não era verdade. Percebi-o de imediato com aquele deixe-me ir. Ouvi, fiquei calado, um pouco aterrado pela tensão que sentia no ar, pela voz em tom grave ouvida, mas devia ter-lhe dito: eu também lhe agradeço. Lamentavelmente, não fui capaz de dizer nada, nada de nada.
Fixa-me intensa e ternamente, uma questão de segundos, vira-me as costas e desce as escadas de acesso ao metro. Deixe-me ir, não me diga nada. Assim foi e vejo-a desaparecer. Fui à minha vida.
Quando Joana Ruas me manda o conjunto de notas e leio este apontamento, em mim o que ressoa é este obrigado, obrigado, como se tenha vindo das entranhas da terra, mas destas não veio, veio das profundezas da alma, isto é, da minha. Penso que este último seu olhar significava que lhe terei servido efetiva e afetivamente de algum conforto na vida e se isto é verdade, direi que isso foi não só um produto da minha forma de estar com os outros, direi antes que isso foi também um produto real da poesia não menos real de José Gomes Ferreira e eventualmente de outros mais.
Hoje que escrevo estas linhas questiono-me sobre aquele último e fugaz olhar e gostava também de lhe ter dito que se libertasse dos anos de chumbo que passou, não tinha nada de que se arrepender, porque também como diz o poeta Chico Buarque não existe pecado do lado de baixo do equador. Teria de olhar em frente, olhar por si, pela filha, por quem ela vivia. Esta história fez-me lembrar uma outra relativamente a uma pessoa que conheci e que era amiga da escritora Joana Ruas.
Esta amiga de Joana Ruas era fisicamente, diria eu, uma matrona, uma mulher fisicamente pesada, mas com uma jovialidade de espantar. Era locutora de rádio, Emissora Nacional, creio. Tinha uma voz espantosa, aliás, isso era comum aos locutores e locutoras da Emissora Nacional. Um ouvinte do seu programa, um jovem na casa dos 25-30 anos, consegue contactá-la e diz-lhe que gostava muito de a conhecer. Ela avisa-o de que vai ter uma desilusão com o seu aspeto físico e ter-lhe-á mesmo dito que fisicamente era uma matrona. O jovem ter-lhe-á respondido que a voz não tem corpo, tem alma. Encontraram-se e, depois, amaram-se e por anos. O curioso nesta história, ela era casada, o marido vivia à espera da morte com os pulmões todos estourados, sexualmente os dois já não existiam, não porque não se amassem, mas porque os corpos no seu conjunto já não respondiam a esse amor. E esse amor pelo marido, verdadeiro como tudo, só desapareceu com a morte deste, e nesse entretempo, uma outra via em paralelo se lhe abriu, a de viver em paixão com outro. Depois, perdi-os de vista, mas garantidamente a relação durou anos e anos, pelo menos até os ter perdido. Aqui lembrei-me de um livro lido há seculos, o Amante de Lady Chaterley, mas a literatura está cheia de casos destes. De novo, aqui, direi que se confirma a voz do poeta Chico: “não existe pecado do lado de baixo do equador”.
Tudo isto se passou nos anos sessenta e princípio de 70. Ao escrever estas linhas lembro-me de uma história, a história de Isabelle K, uma história em que a realidade ultrapassa a ficção, publicada pelo jornal Le Monde, editada por mim em português no blog Estrolábio ou em A Viagem dos Argonautas, já não sei, e reproduzida parcialmente pelo Diário das Beiras em Coimbra. Trata-se da história de uma mulher da média burguesia francesa que tinha um gabinete de advogados onde usufruía um rendimento médio de 15 000 euros mensais. Veio a crise, veio a perda de clientes, de privados e de empresas, veio o despedimento dos seus trabalhadores até que, por fim despediu-se, ela de si própria, fechou as portas do seu consultório de advogados. Já não ganhava para a renda do gabinete de advogados. Até aqui direi que aconteceu o mesmo com gabinetes de advogados ou de arquitetos em Portugal, no tempo de Passos Coelho. Depois, Isabelle ficou sem nada. Vivia numa sociedade onde o dinheiro escorria facilmente e, por isso, não acautelou o futuro. E veio a pobreza, veio até o roubo nas grandes superfícies, era preciso comer, também tinha uma filha de 10-12 anos era preciso cuidar dela e confessou que foi ao ponto de ter de roubar um condicionador de cabelo – meia dúzia de euros. A partir daqui é fácil de imaginar que terá feito o trottoir tal como a prostituta de que falo da rua de S. Paulo. Ao escrever estas linhas espero que tenha tido depois a mesma sorte que a minha parceira da rua de S. Paulo e que esse período duro, muito duro que Isabelle viveu não deixe sequelas, mas se as tiver, elas são as sequelas de uma Europa que desprezou os seus cidadãos para salvar os bancos alemães. Não os esqueçamos.



