A palavra Obrigado pode valer por uma vida mesmo em situações de desencontros pessoais
Nota prévia
Uma leitura rápida da minha afirmação – “esse fenómeno teve início nos anos sessenta e a minha impressão é que se foi rápido demais” – e face a um tom algo crítico de certos “desvios” poderia levar a pensar que eu seria contra a liberdade sexual, quando falo da revolução sexual silenciosa dos anos 60 e digo que uma revolução apressada. Mantenho o que disse, simplesmente qualquer de nós sabe que uma revolução deste tipo, ao nível de costumes enraizados de séculos, não pode ser programada: faz parte da interioridade dos cidadãos e o seu ritmo de evolução depende de múltiplas variáveis. Sendo assim o conceito de revolução apressada parece não ter nenhum sentido e não tem. Haverá sempre em qualquer revolução efeitos colaterais que são o contrário do espírito da revolução que os gera. O que deveria ter sublinhado. e faço-o agora, é que as autoridades públicas deveriam ter tido meios de apoios sociais e clínicos à altura de apoiar esses jovens face aos ditos efeitos colaterais, mas parece que toda a gente se esteve nas tintas, como se a sexualidade seja um tema que se aprende apenas por si mesmo!
Note-se que me refiro sobretudo a jovens na casa dos 17 aos 20 anos a viverem sozinhos, em quartos alugados. Era o que deveria estar em texto e isto é tanto mais importante quanto hoje já nos debatemos com enormes problemas neste campo e tão graves que parecem dar estranhamente sentido à ideia de que é preciso um curso superior para os jovens de hoje aprenderem a namorar, e isto para não falar também, para compreenderem as questões inerentes à sexualidade.
Júlio Mota, 05/03/2025
10 min de leitura
A relação homem mulher nos anos 60 – uma perspetiva
4 de Março de 2025
Este pequeno texto refere-se a uma época que não desejamos mais, a década de 60, agora vista pelo ângulo da precariedade absoluta. Um desaire num momento da vida era o passaporte para um inferno de vida, sobretudo para as gentes d’en bas.
Referido apenas de passagem, falo de uma revolução silenciosa, a revolução sexual, ou melhor, falo da libertação da mulher face aos tabus impostos pela Igreja Católica. Tanto quanto me foi dado presenciar, esse fenómeno teve início nos anos sessenta e a minha impressão é que se foi rápido demais. O peso dos costumes é terrível e a sua violação leva tempo a que se torne pacífica nos nossos equilíbrios mentais.
Como exemplo da moral clássica relato aqui uma atitude do meu pai. Naquela época, com ele a ser moleiro, ao sair da moagem, vê um par de jovens a sair de um palheiro. O rapaz era da sua família, a rapariga era filha de amigos seus. Apesar de não ser católico, a moralidade da Igreja estava-lhe bem enraizada na pele e na alma, um pormenor de que sociologicamente não nos podemos esquecer.
Chama-os pelos nomes e nem quero imaginar o ar de enrascados deste par de namorados e diz-lhes perentoriamente: quero ver-vos casados e o mais rapidamente possível. E antes que eles lhes dissessem que não havia dinheiro ele avança: para o casamento eu empresto o dinheiro. Pagam-no quando puderem. E o meu pai não tinha dinheiro, mas arranjá-lo-ia como arranjou para o Chico Lopes que emigrava para o Brasil e a quem à última hora faltava mil escudos. E os mil escudos arranjaram-se. No caso de agora, o casamento fez-se, estão vivos e mantêm-se casados, atualmente arrastados ambos pelo peso das doenças. A idade pesa sempre, embora mais para uns do que para outros, mas pesa sempre. Este exemplo mostra o que é, do meu ponto de vista, a moral do fundo dos palheiros.
Na mesma época eu estou já em Lisboa. No meu trajeto pessoal atravessei vários estratos sociais e várias tertúlias, para além dos cafés Nova Iorque e do Tatu, ainda passei pelo café Vavá, pela Brasileira do Chiado, pela frequência da casa da Natália Correia. Da casa desta ainda me lembro do Dórdio Guimarães, do Augusto Abelaira, autor de A Cidade das flores e este é um livro que terei lido ainda como marçano, do Nikias Skapinakis, o resto desapareceu-me da memória. Mas aquela era uma casa complicada para a minha cabeça, onde ainda restava alguma coisa da moral do fundo dos palheiros.
Depois de 1964 vivi sempre rodeado por universitários e intelectuais e, claramente, os saltos desta revolução silenciosa deixaram muitos estragos, sobretudo nas mulheres e nos homens culturalmente mais evoluídos e sensíveis. É nesse período, e isto não é por acaso, que se faz enorme utilização da psicanálise. Esta gente levou um enorme rombo quando o psicanalista Medina se suicidou. Nem imaginam os transtornos a que assisti. Felizmente nesta altura eu era já um marxista e pavloviano, escapava a esta tenaz de fragilidade afetiva. A Natália Correia no final dos anos 60 princípio dos anos da década de 70 caracterizava o seu bar, Botequim, da seguinte forma: era um sítio onde tropeçavam uns nos cornos dos outros. Nessa mesma altura era notícia dos jornais o editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Melo, a sua entrevista na banheira, era notícia em voz baixa as orgias da malta fina e intelectual de Lisboa e, segundo a descrição que me foi feita por uma participante, aquilo não era nada diferente do que relatava mais tarde Kubrick no filme OS OLHOS BEM FECHADOS. Apenas menos faustosa do que neste filme. Eu e uma amiga minha, médica psiquiatra, questionámos uma vez uma das mulheres participantes nessas orgias e ficámos impressionados: era o vale tudo. E a minha pergunta a essa mulher foi: o que é que lhe resta depois de tudo isso? E a resposta foi: o vazio total, a angústia.
Um ou dois anos depois, eu e a minha amiga Ana Dinis, a médica psiquiatra, voltámos a encontrá-la. Perguntámos-lhe pela vida, perguntámos-lhe se já tinha deixado o mundo daqueles malucos, disse-nos que sim, que estava casada com um engenheiro. Falou-nos também, já não sei bem como, de uma história à volta de um cinto de castidade. Não entendi, nem procurei entender. Forcei a conversa a mudar de tema.
Este foi um caminho que muita daquela malta, intelectualmente muito diferenciada, seguiu nessa altura, mas sublinho que estamos já próximos do libertador 25 de abril. Ao que li muito mais tarde, por volta do final da década de 90, sobre os intelectuais franceses, em França teria acontecido o mesmo. Veja-se o caso de Sartre e Simone de Beauvoir e a violência de uma relação triangular havida, veja-se o caso de Gide, de Jacques Prévert, etc., etc. Por contraponto a esta débâcle também temos exemplos em sentido oposto como Aragon e Elsa Triolet, entre outros. Mas também aí se estava perto do maio francês.
Eu que vinha do mundo da moral do fundo dos palheiros, um tipo de moral que, por razões de ordem filosófica, já tinha abandonado e colocado no baú das velharias inúteis, tive no princípio muita dificuldade em entender isto e ainda hoje não entendo muito do que vi, apesar de ter uma bagagem completamente diferente. O tempo terá passado e as feridas desse tempo com psicanalistas, com psiquiatras ou só com o tempo, terão sido cicatrizadas em muitas destas pessoas. Nem toda a gente era assim, como é obvio, mas note-se que estou a falar apenas dos estratos estudantis culturalmente mais evoluídos que, admitamo-lo, não corresponderiam a mais do que 10% do total dos estudantes e, destes, apenas de uma parte. Refira-se ainda que a educação sexual na época era absolutamente ZERO. o que nos diz que a moral do fundo dos palheiros ainda era reinante naqueles tempos e não só neles. Pessoalmente entrei por um outro campo no que diz respeito à sexualidade: a libertinagem levada a rigor, onde era absoluto o respeito pelo outro, em que os atos tinham de ser assumidos livremente e como sendo sem consequências no seu amanhã. Ironicamente, diria hoje, era um libertino de matriz cristã, onde o princípio de base era o respeito pelo outro.
Dou dois exemplos, numa matéria que é tão delicada quanto difícil de explicar:
- Fui uma vez almoçar com uma amiga de então e de agora, profissional de saúde já perto dos 90 anos e que ainda trabalha. Almoçámos fora de Lisboa, creio que para os lados de Alfragide. Estávamos no início dos anos 70. Era mais velha que eu cerca de 8 anos e já licenciada.
Na volta, já perto do Campo Grande onde ela morava e onde eu ia, pergunta-me se estaria disponível para ficar com ela nessa noite. Fiquei surpreendido com a proposta e disse-lhe: não, não estou disponível. Vou estar com alguém esta noite e não sei como é. Mas uma coisa eu sei: os corpos, as pessoas não se trocam, amam-se ou ignoram-se, mas nunca se trocam. Se o fizesse, estaria a falar de corpos como de mercadorias e não de pessoas. Portanto, não posso aceitar, mas agradeço o convite. O carro pára de repente e a ordem segue-se a esta paragem brusca. Sai, foi o que me foi dito. Saí, fiquei com um ar aparvalhado, e fui à minha vida. No dia seguinte de manhã, telefona-me quase a chorar e a pedir desculpa. Tinha percebido a mensagem: os corpos, as pessoas, não se trocam, respeitam-se, amando-se ou não. Ainda hoje sou amigo dessa mulher.
Vim para Coimbra depois de me casar, em 1975, e nunca mais a vi até ter necessitado de lhe pedir um favor; por volta do ano 2000, uma prima minha, em cuja casa eu vivi quando era operário, adoeceu gravemente. Precisou de apoio médico, recorri a esta minha amiga, uma vez que a doença era da sua especialidade. Foi impecável. A família ofereceu-lhe um caro ramo de flores por reconhecimento e eu fui a Lisboa oferecer-lhe uma lembrança, um disco de um compositor de quem eu tinha a certeza de que ela gostaria muito: um disco de Joaquín Nin-Culmell, Complete Works for Piano solo, irmão de uma escritora de que ela muito gostava, Anais Nin. Fomos jantar a um restaurante numa rua lateral à Avenida de Roma. Ao jantar relembramos o incidente havido há já muitas décadas. E pergunta-me: olha lá, alguma vez dormimos juntos? A minha resposta foi imediata: não, e olha, se calhar é por isso mesmo que conseguimos estar aqui como velhos amigos, décadas depois daquela tarde de tensão. Sabes, naquela tarde fiquei muito tensa, sou mulher, anedoticamente senti-me rejeitada no meu corpo, quando a tua posição era de respeito pela mulher em geral, portanto por mim também, foi o que me disse. Talvez, e com muito atraso, o que devo dizer-te é simplesmente OBRIGADA, acrescentou. Rimo-nos, e continuamos amigos ainda hoje: ajudou-me a precisar alguns dados sobre o meu texto dos 82 anos.
- Um outro exemplo, podemos dá-lo com uma grande amiga minha da altura. De novo, finais dos anos 60. Um amigo diz-me que a irmã vem para Ciências, gostaria que eu olhasse por ela e que ficasse na casa onde eu morava, ao pé da sede do Sporting nessa altura, numa travessa à Rua do Passadiço. Assim foi.
Ficámos a morar na mesma casa. Esta tinha três quartos, eu estava no da ponta, ela estava no quarto do meio, com janela para o meu quarto. Quando lavava o cabelo, se estivesse com pressa e se eu estivesse em casa, era eu que lhe secava o cabelo. A confiança era total. Era um tempo em que já se falava de liberdade sexual, de liberdade da mulher, de igualdade. As conversas sobre as conceções filosóficas quanto à relação homem-mulher eram entre nós banais.
Um dia convida-me para tomar café, no Largo do Rato, num café ao lado da Papelaria Fernandes que na altura aí havia. Falou-se de muita coisa, mas a meio da conversa coloca a questão: gostava de ir dormir contigo. Queres? Queres?
Com aquela proposta que era mais um pedido do que outra coisa vinda desta jovem, de 18-19 anos, de tez muito branca, mas ali de cara muito corada, pela emoção, eram séculos de constrangimentos sobre a condição feminina que voavam em estilhaços. O que estava aqui em jogo não era o cinismo marialva da dupla mentira, a mentira de alguém que dizia amar outro quando o que queria era a posição na horizontal do parceiro, a mentira de alguém que fingia acreditar no que ouvia porque também deseja a horizontal sem o querer assumir. Teria sido enganada(o), se não houvesse amanhã estável nessa relação. O que estava aqui em jogo também não era a sedução do libertino tão importante como prazer quanto o prazer de se estar na horizontal. Não, nada disso, o que estava aqui em jogo era algo já às portas do sublime, como diria Vinicius de Morais, era uma proposta de partilha de afetos entre um homem e uma mulher, que se poderiam amar, acariciar, compreender, onde não havia conquistado e conquistador, onde não havia engatador e engatada, onde havia uma partilha de afetos entre iguais. Mas não éramos iguais. Ela estava no fim de uma adolescência onde viveu protegida, eu era já um jovem adulto com uma vivência bem sofrida e dorida, com outra maturidade intelectual, com outra base cultural o que, no seu conjunto, implicava uma diferença de fundo em termos de capacidade de reflexão, de decisão, de perceção sobre o que devo ou não devo desejar, sobre o que devo ou não devo fazer. Esta é a grande diferença.
Imediatamente lembrei-me da “minha amiga pontual” numa relação sem amanhã da Rua de S. Paulo. Dois momentos do tempo diferentes, com semelhanças e diferenças entre as duas situações, a da rua de S. Paulo e a do café do Rato. Semelhanças em termos de situação: ambas têm profissão e em ambas é ocasional; numa é uma situação de estudante, estuda, na outra é a profissão de puta enquanto não refaz a vida, e como situação serve clientes. Semelhança enquanto condição estrutural: a jovem estudante quer assumir-se como mulher de corpo e alma e por inteiro, quer ser amada, acarinhada, compreendida, quer fazê-lo de forma segura, com alguém que muito estima, eu próprio, a outra, a da rua de S. Paulo quer manter a situação de mulher, de mulher que quer ser amada, acarinhada, compreendida, através do jovem em fim de adolescência que sou eu e que não toma como cliente. A diferença entre os dois casos parece ser de puro detalhe, mas é de uma importância fundamental na decisão a tomar no contexto da proposta feita no café do Rato: na rua de S. Paulo essa mulher sabia que não havia amanhã, que com o meu crescimento mental eu sumiria, tinha certa de 20 anos, mas enquanto estive ajudei-a a manter-se como mulher. A jovem daquele momento no café do Rato é muito diferente: não questiona o amanhã, como se o presente não tenha um antes e um depois. É jovem, é imatura, de resto é ganhar essa maturidade que ela quer alcançar, mas eu estou à distância de 6 anos depois da Rua de S. Paulo, eu sei que houve um antes, uma fraternidade de profundidade, eu sei que há um depois e que esse depois é semelhante ao da Rua de S. Paulo embora por uma outra razão e bem simples: eu venho de muito longe, venho do mundo dos sem-nada, só me quero fixar depois do curso feito, depois de ter emprego, de ter estabilidade, não quero arrastar ninguém para a precariedade se as coisas falham. Até lá, no plano afetivo seria por opção sólida apenas um homem livre e seria um homem livre sempre preocupado em afetivamente não magoar ninguém.
Agarrei-lhe nas mãos, acariciei-as e disse-lhe: sou muito amigo do teu irmão, sou muito teu amigo, e sei, sei por experiência, que quando assim é acontece uma de duas coisas:
- A coisa corre mal e então um de nós fica a odiar o outro.
- A coisa corre bem e então um de nós quer tomar posse do outro.
Ora não quero que haja ódio entre nós, quero manter-te como amiga, como também não quero ver-te como minha ou que tu me vejas como teu, irredutível nesta matéria, como é irredutível que entre a alegria de ir contigo ou a alegria de ter a certeza de te ter como amiga, prefiro esta última certeza. Prefiro manter-me sem compromissos e sem o risco de magoar seja quem for. Além do mais, a hipótese de me fixar em alguém é, por agora, uma hipótese liminarmente a rejeitar porque enquanto não me licenciar, não tiver um emprego, não tiver o mínimo de estabilidade de vida, não pensarei em constituir família e, consequentemente, recuso, por princípio de vida, fixar-me em alguém. Esta é uma hipótese que não cabe no meu sistema de vida atual. No teu caso prefiro ver-te e considerar-te como minha irmã. Não vou para além disso e aqui conta comigo. E contou.
É evidente que aquela jovem de 18-19 anos, naquele momento furou séculos de civilização passada, a sua tez rosada e a tremura das mãos quentes expressavam a montanha de sentimentos que lhe percorriam a alma e o corpo. Do ponto de vista afetivo era um momento civilizacional sublime, nela pela sua afirmação de afetos, em mim, no respeito por esses afetos, e era em nome desse respeito que eu dizia NÃO. Separavam-nos maturidades intelectuais muito diferentes, ela teria 19 anos, eu teria 25-26 e com experiências e trajetórias de vida muito diferentes, logo não estávamos numa relação de iguais. À saída do café dei-lhe um grande abraço, apertado, apertadíssimo e diz-me: apesar do teu NÃO, digo-te OBRIGADA. Distraio-me, dá-me um beijo rápido e vira-me as costas.
Neste contexto não estávamos, pois, em situação de igualdade para considerar as possíveis consequências que um ato daqueles e com aquela solenidade poderia trazer. Ela poderia pensar que seria um ato sem consequências, mas isso seria totalmente absurdo, foi o que aprendi com algumas amigas minhas universitárias, e eu tinha também aprendido com Hegel que um ato é o que são as suas consequências, e esta noção hegeliana condicionou e determinou, portanto, naquele momento todo o meu comportamento. Foi a Hegel que me agarrei para a resposta e não era fácil de dar até porque se não fosse bem dada poderia ser tomado como uma humilhação, a rejeição de um corpo, em vez de um ato de um enorme respeito, de um enorme afeto. Nada fácil ter dito o que aqui escrevo, nem agora, com 82 é fácil escrever isto.
Mantivemo-nos como amigos. Mais tarde encontrou parceiro e pediu-me apoio porque ele em dada altura teria medo de vir a ser um preso político. Dei-lhe o apoio possível, com casas emprestadas, mas algumas semanas mais tarde eu fiquei com a sensação de que ela e eu tínhamos sido enganados. A ideia de poder ser apanhado pela PIDE terá sido uma pura manipulação e teria sido feita sobretudo como um meio para a conseguir possuir, é o que me é dito da casa que serviu de abrigo. Marialvismo puro, libertinagem pura, venha o diabo e escolha, mas o que para mim é claro é que, do ponto de vista intelectual, ela terá sido também vítima de uma liberalização sexual apressada da sua parte, vítima de um vigarista. Afastei-me por tudo isso e por um certo engano de contas com a Dona Ema Oliveira na casa de quem ela continuava a viver e onde eu vivi com ela. Pelo que soube mais tarde dela, penso que recuperou bem deste seu mau parceiro.
Anos depois vejo um estudo crítico de Roger Vaillant sobre a libertinagem, onde ele dizia, e cito de memória: o libertino, no seu modo de libertinagem, isto é, na sua prática de reduzir o outro ao seu corpo, em que o mais importante é a conquista e em que tudo se justifica para desse corpo se apropriar, aproxima-se então do comportamento dos nazis, pois o parceiro ou parceira é reduzido à natureza de objeto e pretensamente fica-se à disposição do libertino, como estava o judeu às mãos da Gestapo. Curiosamente, resisti sempre a este tipo de comportamento, mas era exatamente este tipo de comportamento que era habitual nas elites intelectuais da época e que era depois gerador de muitos problemas de ordem emocional, daí o recurso aos psicanalistas.
Deste mundo e desse tempo houve alguém que resistiu a este modo de vida, alguém que resistiu e disse não, como se canta em Trova do Vento que Passa do Adriano Correia de Oliveira, mas mantendo-se na relação à espera que as coisas mudassem. E mudaram. No fundo, isto significa que houve alguém que me diz não, mas arriscando em ficar comigo. Arriscou e ficou apenas ela. Uma jovem de 20 anos, era a minha namorada de então, a minha mulher depois, depois de eu ter emprego, que me trouxe a segurança, que me trouxe a estabilidade afetiva, eu vinha do mundo dos d’en bas e, não o esqueçamos, passou a ser a minha mulher desde aí e até um amanhã que ainda há de vir. E faço este ano 50 anos de casado.
O que é para mim curioso, neste descortinar da paisagem da época sobre as questões de sexualidade, é o respeito que eu tive por aquela mulher com quem ia para o quarto na Rua de S. Paulo e a diferença entre o que eu vivi e o que eu vi na década de sessenta, é exatamente o meu respeito extremo pela pessoa humana, antes de saber sequer o que era libertinagem: de novo, estava subjacente a ideia de dignidade humana que recebi na infância com a ideia de Cristo. Hoje, quando escrevo estas linhas, direi que isto só era possível, não por genialidade minha, não sei o que isso é, mas por efeito da duríssima vida levada e da perceção da mesma dureza na vida dos outros, só era possível por uma formação cultural adquirida, endogeneizada, nas condições já referidas, isto só era possível por uma sólida formação no plano da lógica, daí a referência à frieza de Hegel, só era possível porque, inconscientemente primeiro, conscientemente depois, pela fusão feita do humanismo cristão com a visão coletiva do marxismo. Foi isso que me levou a passar esta década incólume às muitas feridas de ordem emocional que vi nos outros, homens ou mulheres, foi isso que me levou ao cuidado havido quando frequentava a rua de São Paulo, em Lisboa. Simples de explicar.
E a terminar esta nota deixem-me citar uma análise feita sobre André Gide, prémio Nobel da Literatura:
“Gide procura no comunismo aquilo que não conseguiu encontrar no cristianismo, isto é, um cristianismo entendido como religião de Justiça e de Fraternidade. Para ele, de facto, “o comunismo não teria razão de existir se o cristianismo não tivesse falhado”. Ele afirma, assim, em julho de 1932: “mas devo dizer que o que me leva ao comunismo não é Marx, é o evangelho.”
Diferentemente de Gide em que o ponto de partida é o mesmo, o cristianismo, o ponto de chegada para ele e naquela altura foi o comunismo, para mim foi o marxismo. Uma grande diferença, meu Deus!



Texto foi hoje atualizado com uma pequena correção. Na frase “E o meu pai não tinha dinheiro, mas arranjá-lo-ia como arranjou para o Chico Lopes que emigrava para o Brasil e a quem à última hora faltava mil escudos.”, o nome que estava na publicação inicial era “Chico Amaro”. Efetivamente era “Chico Lopes”.