CARTA DE BRAGA – “e se eu, homem vulgar…?” por António Oliveira

Usando uma expressão que se foi vulgarizando e impondo, apesar de todos a saberem incorrecta, ‘vamos a um suponhamos!’ e, assim, poderei começar com alguns ‘E se…?’

E se eu chegasse aos Deuses, aos do Olimpo, da Suméria ou da Babilónia, aos deuses anónimos dos Celtiberos, aos desconhecidos dos Astecas, aos do Hinduísmo com formas a representar a sua manifestação imortal, aos da mitologia nórdica, aos orixás do Umbanda, ou aos Guias Espirituais do Budismo e de todos os outros cultos, seguidos por milhões de pessoas por todo esse mundo?

E se conseguisse falar com Eles, Eles deuses e eu tão só um humano vaidoso por me julgar capaz de o fazer, o que lhes iria dizer, quando Eles que tudo vêm e tudo sabem, além de um rosário de tantas anomalias e outras coisas antinaturais e anti-humanas, que se passam por aqui, que só de pensar nelas me arrepio, e não será do frio, mas da dimensão do seus efeitos?

E se me conseguisse exprimir, lhana e simplesmente, sem nunca me colocar no centro da narrativa, seria capaz de descrever ou fantasiar um futuro ridente e comum para todos, perante o cenário de cores bem escuras que nos rodeia, e seria capaz de não me deixar envolver pela impotência e pela raiva que ela arrasta, ao nomear sistemas, mas não nomes, mesmo que os soubesse todos?

E se conseguisse escapar aos dedos apontados, às câmaras dos telemóveis, de todas as redes, maiores ou menores, de todas as sinecuras e tachos bem pagos e distribuídos por gente moldada pelos sistemas, pela intolerância do número e do compadrio, mas nunca da racionalidade, o que conseguiria eu?

E se por lá, entre Eles, até houvesse um procurador ou um delegado, um avisador dos ‘manhas de todas as manhãs’ para as ‘fotos na hora’, e todas queixas tivessem obsolescência programada?

E, Eles, deuses, aceitariam esquemas destes? Mas Eles, que são deuses, porque as aceitam entre nós? E se já me estiver a meter em assuntos que não me dizem respeito, por serem só d’Eles?

E, contrariamente ao poema de Kipling, o mundo nunca será meu, por ser apenas um homem vulgar, sem ouro, nem balas, nem poder, as únicas coisas que têm valor aqui e agora!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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