Encontro-me à porta do Café Central, em Viseu, ao cimo da Avenida António José de Almeida, vulgarmente dita Avenida da Estação, que fica lá ao fundo e lhe dá esse nome de guerra.
Aqui por cima, fica a Delegação de Saúde de Viseu, onde passei a tarde entretido com químicos, máquina de escrever e outro material de escritório.
Atrás de mim, ficam o Rossio, a Câmara Municipal e o centro da cidade.
Hesito: desço já a avenida rumo à Aguieira ou ainda dou um salto lá atrás, ao Lagarto, à papelaria em frente à Câmara e ao Jardim das Mães? Preciso de uma cartolina branca, mas decido agora que ficará para outro dia a compra.
Logo no primeiro quarteirão da avenida, antes mesmo de chegar ao cruzamento da rua onde fica a Escola da Avenida, há um enorme terreiro descampado, de terra batida, onde muitas tardes jogámos futebol, nós, os alunos da Escola da Avenida. Estamos no início dos anos 60 e, lá para o final da década de 70, início dos anos 80, neste mesmo terreiro, erguer-se-á o que virá a ser o “famoso” arranha-céus da Segurança Social — o Empire State Building da cidade de Viriato.
Já vou perto do rio, da ponte que não se percebe como tal, sobre o Pavia. Lameiros em baixo, à direita e à esquerda, milho, culturas que vão cariando com as estações do ano. A estrada ainda é estreita e facilmente passo de um lado para o outro para ver o rio e os campos, lá em baixo. Do lado direito, também vejo o terreiro da Feira de São Mateus, que ainda é uma Feira Franca, nesta altura.
Antevendo os tempos futuros, não errarei se disser que aqui mesmo, neste local onde vou agora, muito depois do ano 2000 — aquele de que sempre se disse “a 2000 chegarás mas de 2000 não passarás!” — será construída a central de camionagem de Viseu.
Confirmo agora que é verdade: fazer prognósticos depois do jogo acabado é a coisa mais fácil do mundo. Não dá para errar!
Parei agora, de escrever e quase de respirar. Apenas para pensar e constatar: é tão bom escrever! É tão bom ler, escrever, fantasiar, criar, imaginar, brincar!
Mais abaixo, à esquerda, a casa do Professor Reinaldo, ou do Primo Reinaldo, como em minha casa sempre se disse. E, perto, no bairro da Estação, a casa da Idília e da mãe, bisavó Otelinda, avó de minha mãe. A primeira pessoa a quem ouvi um ronco de estertor e estava perto na altura em que deixou a vida. A primeira vez que “ouvi” uma pessoa morrer, não vi.
À direita, os Aleixos, o Francisco Gonçalves — a oficina e a bomba de gasolina onde o meu pai sempre abasteceu e onde, daqui a uns anos, lá pelos meus 16 ou 17, serei eu a abastecer o VW do meu pai, carro em que farei o meu exame de condução. Trigo limpo !
Por cima dos “Aleixos”, vive a Ana Maria, que virá a ser minha amiga e colega de estudos, prima da Isabel Correia, que, como ela, também será minha colega e amiga no liceu. De aqui a uns anos vai escrever-me uma linda mensagem num livrinho de autógrafos que alguém me oferecerá pelo meu aniversário, com uma janelinha feita no papel, como aquelas dos furos dos chocolates, e que ao abrir terá dentro a fotografia dela. Muito imaginativo e bonito, gostei e lá pelos meus setenta anos, creio que ainda terei o livrinho de autógrafos, vai ser questão apenas de procurar bem.
A Isabel Correia mora ali ao lado da Delegação de Saúde. É filha de uma funcionária dos Correios, grande amiga da minha mãe.
Atrevo-me a dizer que nunca, mas nunca mais saberei da sua existência, nem pelos colegas de liceu em Viseu, nem por ninguém. Da Ana Maria, saberei um dia, lá para depois do 25 de Abril de 1974, que estará em Letras, em Lisboa, e irei encontrá-la numa baralhada qualquer de rua, ela do outro lado da barricada da vida e da política, ver que será nessa altura do MRPP, mas isso não será obstáculo a que venha ter comigo e saudar-me depois de tantos anos passados. Depois disso, nunca mais saberei nada dela, com toda a certeza.
Por agora, neste tempo em que estou e escrevo, aqui na Avenida António José de Almeida, a da Estação, não há muito mais a assinalar. Nem lojas de chineses, nem supermercados, nem oficinas de pneus. Mas um dia, de certeza que haverá. E uma enorme rotunda, com canteiros de flores bonitas durante todo o ano e um repuxo enorme, em frente a um café de esquina que, posso desde já anunciar, será o Café da Estação, como lhe viremos a chamar dentro de uns 60 anos.
Tal e qual!
Cheguei ao fim da avenida. A estação da CP fica mesmo em frente, com táxis à espera de passageiros. Na esquina à esquerda, a taberna do pai do Zé António, meu bom condiscípulo na escola, na classe e aulas da Senhora Dona Júlia, a nossa professora, que nos parece já muito velhinha, sempre vestida de preto na rua, na sua condição de viúva, e de bata preta na sala de aulas, na sua condição de professora.
Entro no cais da estação. Vagões descarregam, e um cheiro requentado e pouco agradável sobe do chão, das poças de água parada e dos lixos que ali apodrecem com o passar dos dias. Um cheiro a cais de estação que, sessenta anos mais tarde, ainda consigo encontrar nas narinas, se fizer um pequeno esforço.
Poderia ter seguido por dentro, pelo cais de embarque. O Revisor de guarda conhece quem ali passa todos os dias e não exigiria bilhete de apeadeiro. Mas, indo pelo lado, junto às mercadorias e armazéns, é mais recatado. Sempre se encontra alguém conhecido que vem em sentido contrário e logo uns “Bons dias” saltam das bocas, muitas vezes adornados com um sorriso que os torna mais simpáticos e comunicativos.
Agora, sigo pelo meio da linha férrea ou pelo lado dos carris. Por vezes, é preciso equilíbrio — não vá um pé perder o apoio no carril, a queda ser inevitável e a roupa ficar estragada. No chão, junto às madeiras das travessas que aguentam os carris, junto aos parafusos enormes, há muita pasta oleosa, gordurosa e, se encosta à roupa, estraga em definitivo.
Muitas vezes com a pasta da escola na mão. Outras, com a pasta a balançar para a frente e para trás, ajudando a caminhada. O balanço da pasta dá mais andamento e alonga a passada.
Oiço um silvo. Vem aí uma automotora da linha do Vouga. Vem de São Pedro do Sul, Bodiosa, Campo, Abraveses, e aqui chega. Altura de sair da linha. Volto à esquerda e subo o morro em direcção à Casa Queimada, aos armazéns velhos e abandonados da Resineira. Logo ali, o terreiro descampado, e, à frente dos meus olhos, vejo a cidade e a Sé Catedral. Ainda lá não está o edifício da Segurança Social. Um lindo postal ilustrado visto do cimo da Aguieira. Um postal pobre, sem adornos de impressão que lhe subam o preço. Não — este é completamente oferecido, real, verdadeiro, ao dispor de quem o quiser ver e sentir.
Anos virão em que, ali mais abaixo, se construirá o Bairro dos CTT, também chamado dos Carteiros. Fora da Quinta da Aguieira, paredes meias com os muros da quinta. Vários blocos de dois ou três andares cada. O acesso será pelo morro, por um caminho de cabras de terra batida, mas, para a época, muito saudado.
Recordo um amigo das futeboladas e das brincadeiras na quinta, mais velho que todos nós. Mora no Bairro dos Correios. E, por isso, já namora, coisa que nos parece um mundo distante. Tem encontros de namoro avançado num dos barracos desactivados da Resineira, ao cimo do morro. Todos o sabemos, todos comentamos, mas ninguém, nunca, ousará espreitar. Por muito que a curiosidade nos tente.
Recordo os nomes e os rostos do casal de pinga amores. Mas guardo-os entre dentes e jamais os direi ou escreverei. O respeito é sagrado. Ou, pelo menos, eu entendo-o como muito bonito.
Foi um abrir e fechar de olhos.
Vim do centro da cidade até à Aguieira num instante. A pé, como tantas vezes.
Quando tiver doze anos, serei crescido e, à noite, farei este caminho em sentido contrário para ir ao cinema no Cine Rossio. No final do filme, sempre apanharei um conhecido — o Vasco, a Zirinha, ou mesmo o meu Tito Silvério ou um dos “Pintos”, família amiga ali da Ribeira, do Engenheiro Pinto, anos mais tarde — e regresso com ele.
Final da viagem. Mas vejo que vem mesmo ali o Paulito, o meu grande e bom amigo Paulo Galveias, ele, como todos os meus colegas e amigos da Aguieira, são tal qual meus irmãos, os irmãos que não tenho, sou filho único.
Mas, isso, não impede que os sinta como tal.
Gente tão boa! Somos colegas da escola primária, da Dona Júlia, na Escola da Avenida. O Paulo tem problemas numa perna, que em criança ficou muito queimada. Mas, mesmo sempre coxeando, joga connosco à bola, corre a tremelicar a perna, mas corre e ganha.
É companhia, é muito são e sempre foi aquilo que se cantava: