As sociedades, tal como se organizam no mundo de hoje, diferem todas dos tipos tradicionais que dominaram o mundo, o que distingue as sociedades modernas das sociedades arcaicas por via de uma energia ou força catalisadora de efeitos imparáveis. Daí o dinamismo da mudança (“tudo flui como um rio”), de que Heráclito (séc. VI-V a.C.) nos deixou o extraordinário testemunho: «Para quem entrar no mesmo rio, outras são as águas que correm por ele».
É por isso que, em meu entender, a defesa intransigente da tradição ancestral para reivindicar um acto que escapa, à partida, ao que se considera racional, conduz inevitavelmente a uma visão estática, inerte, da cultura, por oposição às culturas progressivas, até porque, quer se queira ou não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural humano. Insistir na tentativa, quase sempre folclórica e sem dúvida populista, de recuperar actos ou ritos distintivos do passado longínquo é uma prática que traduz uma ideologia conservadora, e o pior é quando a celebração irracional desses actos parte de organizações que se dizem progressistas. Ou como acertadamente já escreveu Rui Vieira Nery, a propósito da tradição musical alentejana: «Ao contrário da visão idealizada do folclorismo romântico do século XIX, em que o Estado Novo viria a beber para a política da “tipicidade” do SNI, as tradições populares não são nem estanques nem estáticas – transformam-se, contaminam-se umas às outras, têm um sentido profundo de que a sua perpetuação se faz tanto da continuidade que a identifica como da dinâmica constante de curiosidade pela diferença e de criatividade individual e colectiva que lhes dá energia vital» (“Os donos do Cante”, Público, 17/12/2018, p. 30).
Deste modo, e embora pareça um paradoxo, a tradição convoca-se evoluindo, o que significa que os actos acumulados pela sedimentação se tornam irrepetíveis, são sempre novos porque são outros, razão por que é errado pretender institucionalizar a mesma tradição. Esta avança com a evolução das mentalidades, das técnicas, da formação do gosto, o que põe em causa, por exemplo, a mania mais ou menos generalizada em meios onde a ruralidade persiste, da recuperação dita histórica da época medieval, inventando gastronomia, cortejos, modelos monárquicos (ao que se diz contratando empresas espanholas que se criaram para o efeito), tudo em nome da tradição, esquecendo-se que os objectos e os actos sociais se ”criam” para satisfazer as necessidades de uma determinada organização da sociedade e que a esta ficam irremediavelmente ligados. Repropor hoje um arremedo de ceias medievais ou a exaltação anacrónica e obsoleta do fausto monárquico não me parece uma boa maneira de fazer cultura, sobretudo porque não é possível inserir nestas acções o contexto em que se produziram. Como tudo na vida, os actos humanos propiciadores do progresso actualizam-se progredindo, inovando, sem ficarem agarrados à estratificação dos fósseis.
A tradição é assiduamente invocada como coisa genuína de âmbito regionalista, e portanto não é indicador, como querem fazer crer, da identidade do país. Mas a mera repetição de gestos, muitas vezes de mau gosto (ai!, as confrarias disto e daquilo, essas guardiãs da tradição, com suas conotações religiosas!), ignora a função e as práticas sociais que lhes deram origem, e daí o seu desajustamento em termos culturais, a não ser que se pretenda apenas produzir actos vistosos mas inibidores da participação criativa.
Há muito que sinto isto que aqui se analisa com grande perspicácia, sempre duvidando de tanta festa histórica, de tanta tradição sem fundamento, enfim, de tanta corporação encapada e pompa litúrgica de meter respeito, daquele respeitinho bolorento com que iam enganando o povo. E sentia-o mais por intuição do que por conclusão fundamentada como faz aqui Manuel Simões neste lúcido texto. Grato pela partilha. JG84
Há muito que sinto isto que aqui se analisa com grande perspicácia, sempre duvidando de tanta festa histórica, de tanta tradição sem fundamento, enfim, de tanta corporação encapada e pompa litúrgica de meter respeito, daquele respeitinho bolorento com que iam enganando o povo. E sentia-o mais por intuição do que por conclusão fundamentada como faz aqui Manuel Simões neste lúcido texto. Grato pela partilha. JG84