DEIXA PASSAR A VIDA! por Luísa Lobão Moniz

ODE À PAZ
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia, in “Inéditos (1985/1990)”

Por tudo isto não nos podemos contentar com a indignação. É preciso dar um jeito como ouvimos no filme “Ainda estou aqui”.

Aprender a indignar-se faz parte da formação do Ser Humano, é o que sentimos quando nos queremos manifestar contra o que nos parece injusto, quando temos consciência de que fazemos parte de uma comunidade em que todos se devem respeitar e viver segundo a Declaração dos Direitos Humanos.

Segundo Piaget o Ser Humano, durante o seu crescimento, tem dificuldade em deixar o seu egocentrismo, enquanto criança, mas as relações que vão estabelecendo com o outro vão fazendo com que aceite as regras dos outros e que faça, também, as suas regras que partilha com os seus pares, surge, então, o respeito mútuo que torna as relações interpessoais, e a relação consigo próprio, mais autónoma e cooperativa, próprias numa sociedade a que chamamos democracia.
A indignação leva à descoberta criativa de formas de luta contra o que é injusto, contra as diversas violências sobre os diferentes, os que não têm voz, os que são explorados, sobre os pobres, exercidas pelos poderosos, pelos mandadores sem lei que declaram guerra aos mais fracos por motivos de anexação de território, por questões económicas, religiosas ou ideológicas…

O Ser Humano deve criticar sem discursos de ódio, sem mais armas, com informação séria e credível aqueles que perpetuam as violências físicas e psicológicas irreparáveis, as violências económicas e culturais, as violências ambientais.

Como, não sei, sei que ninguém sozinho conseguirá desviar o mundo para o caminho da Justiça e da Paz, mas sei que a sanção social, que o lado bom da Humanidade conseguirão mudar o mundo, pois sempre assim foi. Nunca se viveu em guerra permanentemente, há sempre alguém que diz não e que à volta desse alguém muitos outros se juntarão organizando e criando novas formas de luta.

Do Mal nasce o Bem, das guerras e das violências surgirão novas formas de sociedades democráticas. As sociedades foram-se transformando, sempre à procura da Paz e do Bem Viver, mas até o século XXI ainda não se conseguiu viver em sociedades perfeitas porque não as há.

Cada vez há mais conhecimento, há mais alfabetização, mais divulgação cultural, mais reflexões sobre a convivência entre culturas diferentes, mais saúde, (apesar de surgirem novas doenças devido à produção de produtos prejudiciais à saúde dos seres vivos). Não há sociedades perfeitas, não há só bondade ou só maldade e, por isso, o Ser Humano tem que ter a habilidade suficiente para ir equilibrando a relação entre todos.

Parece utopia? Talvez, mas as utopias passadas tornaram-se realidades presentes e será este o discurso que deve ser feito, sem medo, para combater o discurso do ódio, do poder opressor.

O Ser Humano nasce com a capacidade de desenvolver os seus sentimentos e emoções, mas para isso tem que ter consciência de que tem essa capacidade. Não se pode desaprender a sentir, é preciso criar o sonho com sentimentos de esperança…

E quando se fala em consciência fala-se em sentimentos.

Quando o Ser Humano está numa situação de medo, foge ou fica parado sem nada fazer senão deixar passar o tempo, pode ficar indignado, mas não passa à ação, e é preciso dar um jeito para continuar a estar aqui.

Só assim é possível levar a Humanidade a escolher o caminho da felicidade baseada na liberdade e na igualdade, sabendo sempre que a felicidade comporta em si a infelicidade e a liberdade a opressão.

Tanto as emoções como os sentimentos são importantes e decisivos nas tomadas de decisões, quer simples quer complexas.

Segundo António Damásio as emoções têm uma base neurológica com um papel importante no armazenamento das informações. Os influenciadores políticos, religiosos, culturais sabem bem como fazer vibrar as emoções, que na generalidade são inatas, dos seus públicos, com atitudes corporais, com sorrisos, com o tom de voz, com diversas expressões faciais…desafiando os sentimentos e as emoções dos outros para escolherem qual o caminho a seguir.

O que se escolhe é fruto das emoções e dos sentimentos aliados ao conhecimento e ao mundo que nos rodeia.

É preciso avisar a malta, é preciso dar poder à malta ( como canta Zeca Afonso).

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