O Xadrez sem Mestre
por Eva Cruz
Quando, há três anos, soube da triste notícia da morte de Carlos Loures, escrevi sobre ele um texto para o blogue “A Viagem dos Argonautas”, do qual foi um dos fundadores e onde honrosamente fui incluída como colaboradora.
Acabei de ler, por mero acaso, numa altura tão significativa, um dos seus muitos livros, “O Xadrez sem Mestre”, cuja capa é uma réplica parcial de um quadro de meu irmão. Foi tal a riqueza de sentimentos, desde a fruição estética, às emoções ligadas a um especial passado, à revisitação da história não muito longínqua e às preocupações como pedagoga, que me impediram de resistir a escrever este pequeno apontamento sobre o livro.
Nunca me encontrei pessoalmente com Carlos Loures. Apenas o conhecia pelos seus textos, através de algumas conversas trocadas por escrito ou pelo telefone ou por intermédio do meu irmão que teve o privilégio de privar com ele. Foi pela sua mão que entrei na Viagem dos Argonautas. Respeitava-o muito, especialmente a sua crítica, pela qual sentia alguma timidez. Fazia sempre pequenos comentários aos meus textos e aos livros que fui publicando. De todos esses comentários retive um que guardei para sempre na memória.” Gosto muito do que escreve. Tenho pena que os seus livros não tenham mais corpo. Fico à espera de um grande romance.” Nunca me foi possível a aventura de um grande romance. Como lhe disse na altura, não tenho jeito nem talento para grandes enredos, dada a concisão do meu pensamento e a singeleza da minha escrita.
Carlos Loures foi um grande homem das Letras, um grande mestre da escrita poética, do romance, da crítica literária, um grande editor, um homem de causas. Este seu livro é uma grande obra não só pela qualidade literária da sua escrita, do realismo da linguagem, do rigor e mestria com que usa figuras de estilo e teorias ou técnicas de literatura como analepses e prolepses, mas essencialmente pela veracidade histórica dos factos, trazendo à luz do dia os verdadeiros nomes dos carrascos da PIDE e do sistema, relatando os métodos terríveis, cruéis, obscenos, sórdidos, aos olhos de hoje quase inacreditáveis, usados para com os detidos e presos políticos que foram torturados, muitos deles até à morte, nas prisões do regime. E foram milhares…
Mais do que nunca, é importante dar a conhecer aos jovens o que foi esse período negro da nossa História. Como me corre nas veias o sangue da pedagogia, queria pedir a quem de direito uma reflexão sobre este livro, de modo a que esta valiosa obra viesse a fazer parte do programa de Português. Sinto alguma legitimidade para o fazer, pois sendo professora, não de Português, tive muitas cadeiras de Literatura na Faculdade, incluindo a de Literatura Portuguesa, além de ser uma leitora de toda a vida. Por outro lado, sempre acompanhei o percurso dos estudos dos meus filhos e netos de idades muito diferentes, chegando à conclusão nos dias de hoje que, para além de pouco ou nada variarem ao longo dos anos, salvo algumas honrosas excepções, os programas são pouco aliciantes e pouco formativos.
Estou convencida, na minha modesta opinião, de que este livro seria uma leitura aliciante, um bom instrumento de análise literária, um rico manual da nossa história mais recente, uma fonte de análise de muitos problemas infelizmente ainda actuais, mas acima de tudo um bom meio de acender a luz do pensamento e atear a chama da Liberdade.


