AS PALAVRAS VOAM, MAS OS CRAVOS FICAM por Luísa Lobão Moniz

Era bonita a decoração do café, uma jovem rapariga entrou com o seu cravo vermelho, com alegria e orgulho, como quem diz a Revolução dos Cravos está viva.

Sentou-se, sozinha, a empregada brasileira, bom dia e ela um café, por favor.

Enquanto o café fazia o seu caminho, palavras voavam entre as cabeças dos clientes. Ela ouviu sons, palavras, frases desgarradas do contexto, mas houve uma que sobressaiu e tocou a sua sensibilidade Dor e Alegria…

Não olhou para trás para que Dor e Alegria não se esfumasse por pudor e continuou atenta, ouviu quando a dor nos abraça, fá-lo com tanta força que nos tolhe os movimentos, que nos turva a visão, a nossa jovem do Cravo Vermelho pensava, mas que dor é essa que nos confunde os pensamentos, que emoções e sentimentos serão esses de que a voz sem cara dizia?

Que dor pára o momento não havendo o antes, o agora ou o depois?

A jovem do Cravo Vermelho ficou perplexa, ficou paralisada, não quis perguntar nada, a voz continuava e dizia não me conformo, só me quero libertar daquele abraço amigo ou traiçoeiro, amigo porque me diz que estou a sofrer por algo que desconheço, traiçoeiro porque de feliz me tornou numa mágoa que se espalha, que extravasa o meu ser. A linguagem do corpo não me engana, dá-me a informação de que algo está mal e o abraço torna-se mais forte não deixando que me escape, a Dor quer alojar-se não deixando que o meu Eu sobreviva, que o meu Eu solte as amarras, mas as informações, que me são dadas pela Dor, dão-me a resposta.

A rapariga do Cravo Vermelho pensa, recorre às tuas forças interiores que a vida te deu, reconhece que as decisões são tomadas com os sentimentos, com as emoções. As emoções e os sentimentos devem ser entendidos como se fossem frágeis flores, vivem agarradas ao cérebro, aos neurónios e dão-nos a capacidade, a sabedoria suficiente para tomar decisões.

Só sobrevive à Dor quem conhece a não-Dor.

Os sentimentos de dor ou de alegria são os alicerces que nos tornam capazes de decidir e de mudar. (António Damásio)A rapariga do Cravo Vermelho, um folhado de carne, por favor, com certeza, volto já.

O Cravo parecia ter cada vez mais brilho e a voz tornou-se mais macia e sedutora, não é quem cai que se magoa é quem não se levanta.

Afinal a voz revelava a sua indignação com a realidade que a rodeia, abre os braços e repele aquele abraço traiçoeiro, a liberdade vale mais do que mil indignações e outra e mais outra voz se levantam e, com ou sem medo, vêm pedir um Cravo Vermelho.

Em “A Estranha Ordem das Coisas”, António Damásio diz-nos que os sentimentos – de dor, sofrimento ou prazer antecipado – foram as forças motrizes primordiais do empreendimento cultural, os mecanismos que impulsionaram o intelecto humano.

A interação favorável e desfavorável de sentimento e razão deve ser reconhecida se quisermos compreender os conflitos e as contradições que afligem a condição humana, desde os dramas humanos pessoais até às crises políticas. O autor defende que os sentimentos foram as principais forças que moveram a humanidade na construção de culturas.

As nossas decisões também estão condicionadas pelas realidades interiores, que por vezes desconhecemos, mas que os influenciadores e líderes políticos sabem usar para fins políticos durante as campanhas eleitorais.

Quem sabe olhar para o parceiro de debates, porque olham para as câmaras das televisões quando querem ter mais influência, porque esboçam um sorriso quando o adversário está “sob ataque”?

É claro que isto não se aplica a quem tem cultura política, a quem tem a sua ideologia e acredita que se pode mudar as sociedades com medidas adequadas para uma sociedade mais justa e livre, aplica-se a quem não sabe em quem há-de votar e que se deixa influenciar pelo que vê e pelo que o ouve, e se o que ouve é algo que apela à ordem pela ordem, que promete, apesar de saberem que nada vai ser cumprido, prometem uma vida sem estranhos, melhores salários e reformas, os políticos são todos iguais, o que querem é roubar, e assim deixam-se ficar sentados a reclamar indignados, ficam no chão e não se levantam!

Os Cravos Vermelhos têm que ser cuidados com a verdade, a transparência, a revolta, com as emoções e com os sentimentos positivos de Paz e Liberdade.

Vamos fazer deste ano 12 meses de Abril de mãos dadas com 12 meses de Maio.

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