Hoje, quarta dia 14 de Maio, já a última Carta estava na base e alinhada para entrar, quando fui apanhado e amachucado por três notícias que me deixaram a pensar e, eventualmente, refazer o modo de encarar os tempos mais próximos e, por isso, decidi escrever esta para o próximo sábado, dia 17; três notícias a que junto um lamento do poeta Luís de Castro Mendes, no DN de hoje.
A primeira, dava-me a saber do luto no mundo progressista, por ter partido o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, figura e referência mundial. Um antigo guerrilheiro que decidiu viver com o mínimo e que, ao ser proclamado presidente do Uruguai, trocou o palácio presidencial por uma pequena casa em Montevidéu, onde viveu com sua companheira, Lucía; na última entrevista ao ‘El País’, disse da dedicação ‘em mudar o mundo para melhor e, assim, ter dado um sentido à sua vida. Vou morrer feliz, por uma vida gasta sonhando, lutando, batalhando’ e, a terminar, garantiu que deixaria este mundo ‘sem contas a acertar’.
Isto no mesmo dia em que o trumpa era o protagonista de exibição obscena de poder, onde misturou interesses públicos e os privados em muitas imagens de ostentação com os seus homólogos da Arábia Saudita, onde terá recebido um avião/palácio como presente, a troco de mais de uma centena de milhares de milhões em armamento.
O autocrata norte-americano foi também referido por Robert de Niro, quando recebeu a Palma Oro do Festival de Cannes, como prémio de carreira, respondendo com um agradecimento à organização, pela existência de um festival aberto a uma arte livre que procura o envolvimento e a inclusão, ‘Por isso a arte é uma ameaça, nós somos uma ameaça para os autocratas e fascistas de todo o mundo’, referindo o norte-americano como um presidente filisteu, criticando duramente a política de tarifas, que atinge também o cinema, acabando com um apelo à defesa da democracia.
E Juliette Binoche, que este ano presidiu ao Festival, deu uma narração minuciosa sobre a morte, num bombardeamento israelita, da fotojornalista palestina Fatima Hassouna e, ‘Fatma deveria ter estado connosco esta noite’, disse Binoche, juntando sua voz à carta de denúncia assinada por mais de trezentos artistas de todo o mundo, incluindo Richard Gere, Pedro Almodóvar, Ruben Ostlünd, Susan Sarandon e Javier Bardem.
E hoje ainda, a jornalista e escritora Maruja Torres, apelou à Europa, ‘Levanta-te ou picam-te o rabo’, a esta ‘Europa indiferente, sentada, que observa de poltrona, imperturbável, enquanto o mundo –o nosso mundo– está a mudar, e os países da União Europeia se inclinam para uma indiferença cada vez mais intolerável. Uma Europa que só ousa troçar de Putin, e permite que Israel faça tudo o que começa em ‘Geno’ e termina com ‘Cídio”.
Finalmente o lamento também de hoje, do poeta Luís de Castro Mendes, na crónica habitual no DN, com o título, ‘O que gostaria de ter ouvido’; não posso deixar de a citar, apesar referir o que amanhã (dia 18), vai estar em jogo neste país, sem lhe acrescentar qualquer apontamento ou comentário, ‘Gostaria de ter ouvido mais debate de ideias sobre o nosso modelo de sociedade (Estado Social ou Estado liberal?), de economia, bem como mais projectos e propostas concretos e definidos, em resposta às grandes angústias da vida (saúde, educação, poder de compra)’.
‘Gostaria que a educação, que ou nos digitaliza e robotiza ou não, e a cultura (sempre a parte de silêncio destas campanhas), tivessem sido objecto de debate, que nos permitisse averiguar a existência ou não de uma verdadeira defesa da cultura humanista, e não dominada por algoritmos, como única forma de defender as nossas liberdades e as nossas capacidades críticas e, já que até a calendarizaram, de verdadeira reflexão’.
É tudo o que hoje, quarta feira, dia 14 de um Maio enevoado e triste, tenho para dizer, mesmo sabendo que pouco ou nada podemos fazer, mas por tudo isto também, lembro o poeta Sebastião Alba, nalgum sítio e num dia qualquer nesta cidade de Braga, ‘Já não escrevo poesia lírica. Não gosto de papel higiénico cor-de-rosa!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor