Um olhar para a sociedade portuguesa em tempo de eleições . Por Júlio Marques Mota

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Um olhar para a sociedade portuguesa em tempo de eleições

 Reflexões em torno de uma viagem incómoda

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 14 de Maio de 2025

 

Na quarta-feira, primeiro dia de greve, desloco-me à estação de Faro para obter informações sobre eventuais comboios nos dias seguintes face à greve total decretada pelos sindicatos. Contava partir na quarta-feira para Coimbra e fui apanhado de surpresa, na terça-feira à noite, quando soube que a greve era total, dias 7 e 8, a que acrescia a greve dos maquinistas a 9 de maio. Diremos que a culpa é minha, por não estar informado. Aceitemos o argumento, mesmo discordando dele.

Na quarta-feira fico espantado com o que vi, ou melhor, com o que não via: não via nenhum funcionário da CP. Guichets fechados, ninguém, portanto, para me informar fosse do que fosse. E na plataforma da estação, algumas dezenas de pessoas, na sua quase totalidade estrangeiros sem saber o que fazer, pois de nada sabiam. Sou eu, que ia à procura de informações que lhes digo o que se estava a passar. Isto foi assim e face ao que vi direi que a CP não esteve à altura das suas responsabilidades. No mínimo deveria ter colocado cartazes em três línguas, português, francês e inglês, para que as pessoas ficassem informadas. Ora os trabalhadores respondem diretamente perante a entidade patronal, indiretamente perante o país, e a CP responde diretamente face aos seus utilizadores e, como empresa pública, ao Governo também. Deveria esgotar os seus canais de informação e o mínimo era ter afixado cartazes na véspera a anunciar o que se iria passar. Era o mínimo de respeito pelos cidadãos, sejam eles nacionais ou estrangeiros e a CP não esteve à altura desse mínimo. Lamentável, portanto.

Na sexta-feira, procuro via telefónica comprar dois bilhetes para o Alfa e com destino a Coimbra. Sábado, estão esgotados, domingo ainda havia bilhetes para o Alfa. Compro então dois bilhetes. Os meus amigos gozaram comigo sábado e domingo por eu não confirmar o que não era para mim confirmável: se havia comboio. Ainda sou crente nas Instituições, sobretudo, nas organizações sindicais organizadas e, portanto, se os trabalhadores estipularam que estavam disponíveis para assegurar o comboio Faro – Porto na tarde de domingo seria então certo que este comboio estaria disponível para efetuar esse percurso.

Vivo num país estranho e de férias numa cidade estranha. Na cidade de Faro procurar e conseguir um táxi, neste caso para apanhar um comboio, é um gesto com um resultado enormemente incerto, e muitas das vezes apanha-o por sorte, por milagre se o taxista em vez de estar no aeroporto estiver a caminho de casa para almoçar ou jantar. Salvo nestas condições, dificilmente se consegue assegurar que tenha táxi à hora pretendida. Os táxis procuram o aeroporto, procuram os estrangeiros, procuram as viagens de longo curso e “abandonam” a cidade. Sobre este tema, em tempos fiz uma reclamação nos serviços de Turismo e na Câmara, mas está tudo na mesma. A minha solução é ter amigos que me levem à estação! Poderia utilizar a linha Uber mas recuso por princípio entrar no jogo da precariedade de quem trabalha e o exemplo máximo dessa precariedade é exatamente os carros Uber. Garantido o transporte privado, nesse domingo fui almoçar com o amigo que me levava á estação. Comemos bem, comemos um prato bem especial, uma feijoada de lingueirão.

Com estas garantias todas, às 15h e 15 min levaram-me à estação. Dirigi-me ao balcão a perguntar qual era a linha do Alfa e para meu espanto o funcionário da CP diz-me: não há Alfa. Não há Alfa? Não, a greve é parcial e um dos comboios que não circula hoje é este em que quer viajar. Mostro os bilhetes, e questiono: mas venderam-mos, porque o comboio estava escalado para sair de Faro às 16 horas. Agora dizem-me que não há comboio? Não lhe posso dizer mais nada, diz o funcionário e acrescenta: tem um comboio intercidades às 18 horas para Lisboa e um outro comboio intercidades de Lisboa para Coimbra. Chega a Coimbra cerca da meia- noite. Quer dois bilhetes ? Disse que sim.

Irritei-me com a situação e, digo, sem estar a gritar, mas muito irritado mesmo, e sem falar especificamente para ninguém, a falar emocionalmente alto e em voz baixa mas que o empregado da bilheteira ouviu, disse: para que isto mude será necessário que se vote no Chega? Esta pergunta estúpida feita para ninguém, e veremos a seguir porque é estúpida, teve como reação a seguinte resposta: “é onde eu voto”, diz-me o funcionário. Este, era um jovem adulto na casa dos 25-30 anos e di-lo de forma polida e com alegria, a denotar uma certa educação.

Quanto ao jovem funcionário da CP, trata-se de jovem que descontente da vida espera que o Chega lhe traga alguma satisfação, mas tudo me leva a crer que bem pode esperar sentado, o que irá acontecer igualmente com muitos que votam neste Partido e, mais ainda, irá acontecer com muitos jovens que pelas mesmas razões votam Iniciativa Liberal, porque são levados pela lógica de que o que o país precisa é de menos impostos, menos Estado, mais liberdade de mercados e de empreendedorismo.

Consideremos, pois, irrelevante a reação do funcionário da CP. O que aqui me deixou preocupado foi a minha interrogação: para que isto mude será necessário que se vote no Chega?

Pelo que disse no parágrafo anterior nunca será de esperar da minha parte que o Chega contribua para solucionar qualquer conflito laboral. Por aqui a frase não tem nenhum sentido, é um absurdo nos seus próprios termos e note-se que esta afirmação se insere no contexto de uma situação que me foi muito desagradável criada por uma greve. Não entendi o que me ia na alma para me exprimir com uma referência ao Chega face ao funcionário da CP e de uma forma que eu próprio não conseguia perceber. Isto incomodou-me e mesmo muito. O funcionário não conseguiu entrar no sistema informático para entrar na dedução dos dois bilhetes que já tinha comprado, os do comboio Alfa, mas isso não era problema para mim, mas poderia ser para muita gente e, neste caso, mais uma vez a CP não estava à altura [1]. Podemos ainda acrescentar: a CP tinha o meu email, tinha o meu número de telemóvel, poder-me-ia ter avisado por uma destas duas vias de que a composição não iria circular a partir de Faro. Seria o mínimo, mas nem esse mínimo foi feito. Se o fosse, eu teria procurado outras vias ou teria mais uma vez modificado a minha vida, minimizando os transtornos da greve. Hoje, os meios informáticos permitem fazer isso com relativa facilidade.

Duas horas de espera e entramos no comboio. Tínhamos bilhetes de primeira classe e fiquei agradado com a qualidade da carruagem, com cadeiras novas, e a carruagem parecia ela própria nova em folha. Via-se que não era nova porque era muito espaçosa em comparação com as carruagens modernas e, se as compararmos com as do Alfa, garantidamente estas carruagens ficavam a ganhar às do Alfa. Aqui lembrei-me de duas coisas que sem querer me aparecem à frente dos olhos como estando totalmente interligadas:

  1. As carruagens novas deste comboio e os modelos de política praticados
  2. A questão do Chega e as eleições

 

Vejamos cada um destes itens:

  1. As carruagens novas deste comboio e os modelos de política praticados

As carruagens são recuperadas, presumo eu, nas oficinas da EME em Guifões. Aqui lembro a política assassina de Pedro Marques, ministro da Presidência do primeiro governo de António Costa, que ficou prisioneiro da lógica neoliberal de Bruxelas e estava com a sua política a levar à destruição desta unidade industrial. Os neoliberais de meia tigela que abundavam (e ainda abundam?) no PS pensam que um profissional de calibre se substitui facilmente indo ao mercado. Esquecem-se estes senhores encartados pelas Universidades de que fazer um bom profissional seja para que profissão for, a partir de um adolescente aprendiz criado num sistema de ensino que prima pela incompetência é uma tarefa que leva anos de formação no terreno, no trabalho e sob uma sólida orientação. São anos a preparar o cérebro, a criar e a formar as sinapses que estruturam as nossas capacidades intelectuais, fundamentais para a cognição e a aprendizagem, são anos a preparar as mãos para o trabalho, são anos a preparar o corpo e a alma para se considerar que o trabalho deve ser encarado como extensão da nossa sociabilidade, do nosso comportamento como cidadãos. Há também uma ética do trabalho, sejamos francos nisso, que hoje não vemos nos nossos jovens aprendizes, apesar de múltiplas variantes de cursos de formação. Isto implica não uma outra juventude, isso seria absurdo, significa sim uma outra política de ensino/formação, significa uma outra dignificação da condição de trabalhador, mas em nenhuma destas duas coisas se quer pensar.

Os franceses resumem estas condições numa frase simples: o ensino tem como função ensinar a aprender, a formação na empresa tem como função ensinar a fazer. São níveis complementares da transformação do adolescente em jovem adulto e de jovem adulto em cidadão e profissional de corpo inteiro. Mas isto escapava, como se viu, à logica do governo António Costa. Ambas as coisas de ensino/formação custam dinheiro e exigem uma política de dignificação do que é ser cidadão, do que é ser trabalhador também, o que é incompatível com a opção de política austeritária, meio escondida, que foi a opção de Costa-Centeno. No caso em questão por cada trabalhador que saísse da EME pelas más condições de trabalho e de remuneração da empresa ou por passagem à reforma, seriam necessários anos de formação, e a substituição de cada trabalhador saído pelos seus elevados custos não era compatível com a política de austeridade meio escondida que era defendida por Pedro Marques, Mário Centeno e António Costa. E a empresa foi definhando.

 

Já com este texto acabado, aqui vos relato um diálogo havido entre mim e uma senhora que é caixa no Pingo Doce e com quem me dou muito bem. Estávamos numa paragem do autocarro e entrei primeiro que ela no autocarro. Já sentado no meu lugar vi-a entrar e sentou-se ao meu lado, do outro lado da coxia. Vinha carregada de sacos.

No Pingo Doce, e se a encontro no final do turno de serviço na caixa com ar de cansada de muitas horas parada e concentrada, costumo dizer-lhe: a vermelhão dos seus olhos e o rosado das suas maçãs do rosto dizem-me que já está a precisar de relaxar em casa. Rimo-nos e continuamos o paleio. Hoje, no autocarro foi diferente: pegando no tema disse-lhe: ah, hoje parece outra! Parece mesmo que roubou tempo ao tempo. E não foi pouco o tempo que roubou ao tempo. Talvez 10 anos! Obrigada pelo elogio, foi a resposta acompanhada de um largo sorriso. E continuamos a conversar. Digo-lhe que tinha ido a um outro Pingo Doce: uma verdadeira grande superfície. E olhe, quis comprar bacalhau com natas, para duas pessoas. O que havia era apenas um resto e nem para uma pessoa dava. Disse à empregada sua colega: precisava de bacalhau para duas pessoas. Assim, não, obrigado.

No Pingo Doce pequeno onde nos vemos diariamente há também as doses individuais, já embaladas. E ali não havia doses individuais. Há, há, respondeu. Estão é junto à fruta, do outro lado onde o senhor estava. Bom, então a obrigação da sua colega era dizer-me que não tinha mais bacalhau com natas em quantidade avulsa, mas havia doses individuais e não o disse. Ah, sabe, os empregados de hoje não sabem nada. Não sabem, nem querem saber. Espere lá, eles não têm formação para estarem aos balcões, pergunto eu? Têm, isso têm, mas sabe, não sabem nada e também não querem saber de nada para além daquilo que especificamente têm à sua frente para fazer, acrescentou. E rematei este diálogo da seguinte forma: a explicação não está na formação, que pode ser bem feita, a explicação está algures, está em quem a recebe, porque a sociedade ter-se-á esquecido de lhes fazer a cabeça de forma apropriada para essa gente ser capaz de receber a formação necessária, de a interpretar, de a interiorizar, de a relacionar. A formação objetivamente passa-lhe ao lado. É um pouco como fazer uma casa sem portas e sem janelas para se entrar, para se estar, para a casa arejar.

E entretanto, o autocarro parou, a senhora saiu e eu continuei. Mas tudo isto é esclarecedor do que andamos a fazer e é aterrador quanto às consequências no futuro do que andamos a fazer com os nossos jovens.

 

Esta realidade percebeu-a e bem o ministro que se seguiu a Pedro Marques, e falo agora de Pedro Nuno Santos, o ministro que evitou a “crise dos camionistas dos combustíveis pesados”, contra a vontade dos senhores da Antram, falo do ministro que salvou as oficinas da EME em Guifões. Eu estaria, portanto, a usufruir da obra deste ministro e este ministro é agora o candidato contra a AD mais Iniciativa Liberal ao cargo de primeiro-ministro, nas eleições de 14 de maio.

 

  1. A questão do Chega e as eleições

Chegámos à gare do Oriente. Mudámos para outro comboio intercidades. Este correspondia aos nossos velhos intercidades, nada a ver com as carruagens da composição anterior vinda de Faro até Lisboa que eram carruagens completamente remodeladas e a brilharem de novas. Neste comboio, o de Lisboa-Coimbra, cruzaram-se dois funcionários da CP e por acaso eram dois sindicalistas. E cruzaram-se ao pé de mim. Ao ouvir falar da greve pedi licença para lhes colocar algumas questões sobre o que estavam a falar. Aceitaram e com ar de satisfeitos pela passagem a uma conversa a três. Falei-lhes da falta de informação pública sobre a greve e disse-lhes que os trabalhadores da CP respondem diretamente perante a CP e respondem indiretamente perante o povo português, dada a importância do serviço público prestado. Ora, há uma falta brutal de esclarecimento da população sobre esta greve e contei o que vi em Faro. Explicam-me que a comunicação pública é da responsabilidade pura da CP e, como é empresa publica, ela é, em última instância, da responsabilidade do governo. Quanto à falta de cartazes dizem-me que nada poderiam fazer, a colocação de cartazes no espaço de que a CP é “dona” é da responsabilidade da direção e não nossa, acrescentam. Dizem ainda que a empresa sabia há cerca de 15 dias que haveria greve.

Contam-me que os trabalhadores foram enganados com a vinda do Papa pois assinaram um acordo que a direção da CP, depois, se recusou a cumprir. Argumentam-me em sua defesa que a greve não era política. Aí protestei eu, pois, uma greve sendo um exercício de cidadania é, por si mesma, um ato político. Podemos é dizer que a greve é levada a cabo sem nenhuma interferência partidária e suponho que é isso que queriam dizer. Confirmaram-no. Perguntei-lhes sobre o caso do Alfa que não circulou a partir de Faro, mas circulou apenas a partir de Lisboa no seu horário, quando estava na escala que sairia de Faro. Disseram-me que sobre isso nada sabiam.

Quanto à questão política, diremos que se houve um tratamento político da greve, e houve, esse foi feito pelo governo com um claro objetivo de colocar a população contra os grevistas da CP. Isso dar-lhe-ia votos da gente do Chega porque, afinal, a AD seria tão dura contra quem trabalha quanto o Chega. Adicionalmente, a AD aproveitaria o descontentamento popular pelo caos esperado com a greve e acusaria a esquerda (PS+Livre) e a extrema-esquerda (PC+BE) [2] de estar a querer arruinar a economia portuguesa. Também aqui ganharia votos, agora a toda a esquerda, se a estratégia resultasse, mas para isso precisava também de dividir a classe de trabalhadores da CP, o que não conseguiu, porque precisava de colocar os trabalhadores uns contra os outros e precisava de minimizar os pesados custos da greve. Assim se percebe o avançar do Governo para negociações e o seu posterior recuo porque eram um governo de gestão! E é este governo que quer ser reeleito. Sobre esta matéria da greve e do comportamento desonesto do governo de Luís Montenegro, vale a pena referir aqui o que nos not1iciou o jornal Público:

“Greve da CP: Governo alega que está impedido de executar reivindicações dos trabalhadores

O ministro das Infra-Estruturas, Miguel Pinto Luz, diz que está de acordo com as reivindicações dos trabalhadores da CP – Comboios de Portugal, cujos sindicatos se preparam esta quarta-feira para iniciar uma greve de vários dias, mas que está impedido de as executar nesta altura “porque o Governo se encontra com poderes legalmente limitados”. Por isso, considera que a greve dos ferroviários “estrategicamente marcada para plena campanha eleitoral” tem um objectivo “estéril”, acusando os sindicatos de motivações políticas na sua prossecução. (o sublinhado é nosso)

Na Fertagus não se prevêem perturbações devendo a circulação dos comboios operar normalmente. Esta empresa já tinha fechado em Janeiro a actualização salarial com os seus trabalhadores, num valor superior ao da CP.

Os sindicatos tinham negociado um acordo durante o primeiro trimestre do ano e julgavam que a paz laboral se iria manter na empresa, mas foram confrontados com um volte-face por parte do ministro Miguel Pinto Luz. “A tutela reverteu o que tinha sido acordado com a CP com o conhecimento dela própria. Esperemos que o conselho de administração da CP tire ilações desta desautorização”, diz António Domingues.

“Em gestão para umas coisas, mas não para outras”

António Domingues, do SMAQ (Sindicato dos Maquinistas) nega qualquer objectivo político a esta greve, “até porque a maioria dos sindicatos nela envolvidos nem estão inscritos em nenhuma central sindical”. A razão pela qual esta paralisação ocorre neste período eleitoral “deve-se ao conselho de administração da CP, que demorou a mandar para tutela o acordo a que já tinha chegado connosco e que agora foi recusado pelo Governo”.

O presidente do SMAQ diz que “o Governo está em gestão para umas coisas, mas não está para outras”, rejeitando que haja qualquer impossibilidade jurídica deste poder assumir agora as actualizações salariais. E dá o exemplo do Plano Ferroviário Nacional, “um documento estruturante que envolve milhões de euros, que foi publicado após 11 de Março já com o governo em gestão”. E dispara contra Pinto Luz: “em 2015, durante o governo mais curto da democracia portuguesa – só durou 27 dias – o ministro era secretário de Estado e, sem Orçamento do Estado aprovado e com o governo em gestão, foi decidida a privatização da TAP”.

O calendário da greve, explica, “é apenas uma coincidência” porque foi entre 24 e 26 de abril que o Governo rejeitou o acordo obtido entre os sindicatos e a CP.” Fim de citação

Daqui somos levados a inferir que esta greve era também uma greve intencionalmente consentida pela CP e pelo Governo, isto é, avança-se para negociações, recua-se nas negociações, e o ministro da tutela diz que concorda com as pretensões dos trabalhadores, provoca-se a ira dos trabalhadores, leva-se estes a declararem greve e acusa-se a esquerda de manipular a greve. Entretanto, esperariam pela tradicional divisão entre os trabalhadores e era isso que esperavam no primeiro dia de greve. Por curiosidade, o primeiro dia de greve, foi o dia do grande apagão. Imagine-se o que seria esse dia com comboios parados e cheios de gente, horas e horas, por todo o lado e com um governo de gente incompetente como se viu na gestão do apagão!

Segundo os dois funcionários com quem conversei, o que a CP e o Governo não esperavam era que a adesão fosse total. E foi. Na estação de Faro não havia um só funcionário da CP. Terão errado na jogada e digo jogada porque não vi até hoje seriedade neste governo, nem sequer daquele que eu consideraria o mais sério deles todos, o meu antigo aluno Fernando Alexandre, ministro da Educação

É aqui que situo o sentido daquela frase dita junto à bilheteira como se estivesse especificamente a falar para alguém e não estava, nem sequer me dirigia ao funcionário que me responde como se estivesse a falar com ele.

Estamos à beira das eleições, com um governo que provou, e bem, ser perito em desgovernar, em manipular. Veja-se o caso Spinumviva, sobre o qual Luís Montenegro diz nada ter a esclarecer, enquanto Pedro Nuno Santos, representa o governo alternativo, é o candidato contra a AD+ IL mas que significa isto? Significa que em termos eleitorais o PS está a apostar no apelo ao voto útil? A este nível lembrei-me de uma conversa tida na véspera do início da greve com um grupo de amigos em Monsaraz. Ao sabor de um café agradavelmente bebido no alto de Monsaraz, conversámos sobre as eleições e sobre a dificuldade em saber em quem votar, desde que nos assumamos à esquerda. A explicação que dei na altura foi mais ou menos a seguinte:

Nas eleições de 2015 a coligação PSD/CDS ganhou as eleições para a Assembleia da República, mas apenas com maioria relativa. Curiosamente a campanha desta coligação foi apoiada por tudo o que é instância neoliberal internacional, FMI, Banco Mundial, BCE, BEI, Comissão Europeia, na defesa da política austeritária imposta a Portugal pela Troika. Apesar disso, globalmente a esquerda ganhou e a partir desse dado e da consequente não passagem do governo de direita na Assembleia, criou-se a chamada geringonça, um acordo com incidência parlamentar estabelecido e assinado entre. entre PC, BE e PS, acordo este com que se governou o país entre 2015 e 2019.

A geringonça foi uma construção que se deveu sobretudo a Pedro Nuno Santos, ao PC e ao Bloco de Esquerda. Relembremos que a Direita e a direita do PS reagiram contra esta plataforma de acordo político.

Da mesma forma direi que as carruagens a luzirem de novas são um produto da capacidade de intervenção política de Pedro Nuno Santos ao intervir na empresa EME, empresa que inclusive está a refazer as carruagens compradas em segunda mão a Espanha. Terei vindo de Faro numa destas carruagens.

A história do claro declínio da EME sob a gestão do ministro Pedro Marques passa-se neste período de geringonça em que o Bloco de Esquerda e PC ter-se-ão fartado de engolir sapos dada a política de compromissos com a direita praticada por António Costa; por isso o seu governo cai.

Nas eleições de 2019 o PS ganha a maioria relativa e a relação com os partidos que em 2015 tinham assinado um acordo escrito passou a ser apenas tácita e o governo cai em 2022. Diríamos que em 2019, o PS ganha a maioria relativa, mas já não consegue um apoio tão sólido dos até então parceiros, apenas um apoio tácito, sem ter garantida a aprovação dos orçamentos e sem excluir entendimentos à direita. É o começo do fim da “geringonça”. E o governo cai por perda de apoio do PC e do BE, mais uma vez cansados de andar a engolir sapos pela política do PS e a perderem eleitores. Esta foi uma experiência amarga, a destes partidos e em nome de evitar o assalto da direita ao poder. Sem que o PS o queira assumir, criaram-se as condições para o assalto posterior e é com essas condições que Montenegro chega mais tarde ao poder.

Em 2022, há eleições e na campanha eleitoral houve o apelo de António Costa ao voto útil, porque votar nele era votar na derrota da direita, sendo certo que a direita dura com Passos Coelho estava à espreita. E nesta lógica, António Costa recusa claramente a hipótese de repetir a geringonça. Dão-se as eleições e António Costa ganhou a maioria absoluta, logicamente com os votos também das gentes do Bloco de Esquerda, do PC e do Livre. As pessoas de esquerda estavam cansadas da política austeritária e assassina de Passos Coelho e votaram em massa no PS, prova de que se temia, e muito, a direita.

O efeito colateral desta opção foi que os eleitores situados politicamente à esquerda do PS, ao votarem contra o principal adversário, o PSD/CDS estiveram também a votar contra o seu próprio partido, fosse este o BE ou o PCP, por perda de atratividade, o que é importante, e por perda de subsídios atribuídos aos partidos, por lei, em cada período eleitoral, que depende do número de votos também. O caso das funcionárias do BE “despedidas” deve talvez ser consequência desta quebra de subsídios. A experiência mostrou, com António Costa, o perigo dessa opção de voto útil que deu a maioria absoluta ao PS e que levou à quase aniquilação dos partidos à esquerda, Bloco de Esquerda e PC, com o Livre a ganhar perto do equivalente dos votos perdidos pelo PAN.

Na base da maioria absoluta alcançada, o PS de António Costa, Medina, Assis, Brilhante Dias e outros, mandou a seguir às urtigas qualquer ideia de coligação de esquerda, quando foi esta que de facto o levou ao poder e basicamente passou a fazer a política que as gentes do PSD já deixaram de saber fazer há muito tempo, desde Durão Barroso, para sermos mais precisos.

Vejamos como é que António Costa caracterizou a sua vitória:

“Uma maioria absoluta não é poder absoluto, não é governar sozinho. É governar com e para todos os portugueses. Esta maioria será uma maioria de diálogo com todas as forças políticas que representam os portugueses na sua pluralidade”, afirmou o líder socialista, no discurso de vitória, logo na madrugada de 31 de janeiro.

 

O governo da maioria absoluta PS cai, com Montenegro a exigir a demissão de Costa, acusando de falta de transparência o governo PS. E com esta queda vai-se para eleições e das quais resulta a tomada de poder por Luís Montenegro. Este que tanto falava em transparência para atacar o PS, mostra-se que com o caso Spunimviva é ele que manda às urtigas a transparência. Só há falta de transparência quando se trata de criticar os outros, é o que se pode concluir quanto à dignidade política da AD.

Com esta queda de Costa ficámos todos a perder e Luís Montenegro chega assim ao poder, pela mão, assinale-se, de António Costa e da política por ele seguida de querer agradar a toda a gente e em que o resultado foi o de não conseguir agradar a ninguém.

E, penso eu, tal como nos Estados Unidos (Trumpismo) ou em França (União Nacional), muita gente em desalinhamento político com o seu próprio partido nessas eleições, desloca-se para os populismos de direita, a Iniciativa Liberal e, sobretudo, para o Chega, com este último partido a crescer estrondosamente.

Chegados aqui, chegamos à minha frase de completa irritação quando me interrogo, na estação de Faro, sem me dirigir a ninguém em especial a não ser a mim-mesmo, SE será preciso votar no Chega para que a esquerda se assuste e pense em alcançar uma plataforma de entendimento político que salvaguarde as especificidades de cada um dos partidos e nos defenda ao mesmo tempo do adversário principal, a direita?

A conceção de voto útil de agora corre o mesmo risco que no tempo de António Costa. É certo que Pedro Nuno Santos nos oferece uma muito maior confiança que António Costa, mas não vivemos num mundo de fé, e a direita do PS que espreita agora a sua queda é a mesma que se posicionou contra a geringonça que Pedro Nuno Santos ajudou a criar.

Votar contra o adversário principal, a direita, sem estar a votar contra o partido a que pertence, é o grande drama de muitos eleitores de esquerda e é este drama que expressei em Monsaraz e também junto à bilheteira da estação dos caminhos-de-ferro de Faro quando afirmei: para que isto mude será necessário que se vote no Chega? Um drama que as gentes do PS altivamente querem ignorar.

A lógica do que comentei em Monsaraz estava afinal sintetizada naquela minha irritação junto à bilheteira da CP e no que com ela afirmei: para que isto mude será necessário que se vote no Chega? Naturalmente assim, a cabeça que elaborou e expôs estas ideias era a mesma, o coração que estas ideias sentiu era também o mesmo. Tudo explicado, afinal, não tinha de me irritar pela expressão dita num grito quase silencioso junto do funcionário da CP, quando esta expressão era a síntese do que se discutiu numa serena tarde no pico de Monsaraz.

Não ir votar ou votar em branco não tira votos à direita e aumenta a sua taxa de votação, é quase a mesma coisa que estar a votar na direita porque diminui o número de votos no denominador e sobe a taxa de votação da direita.

Pessoalmente, neste contexto ainda não decidi em quem vou votar, mas uma coisa é certa, irei votar e não será em branco. Sendo-se de esquerda, não ir votar ou votar em branco não tira votos à direita e aumenta a sua taxa de votação, é quase a mesma coisa que estar a votar na direita porque diminui o número de votos no denominador e sobe a taxa de votação da direita. Neste leque, isto é, à esquerda, poder-se votar PS, BE, PC ou Livre. Se por acaso não quer votar PS, pelas razões acima apontadas. vote num dos restantes, porque está a votar à esquerda, porque está a alimentar o imaginário de esquerda e isto é importante, porque se está a dizer: não quero que a ideia de esquerda morra às mãos seja de quem for.

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Notas

[1] Ainda não consegui regularizar a questão do retorno do dinheiro dos bilhetes. Num contacto feito com a CP para conseguir essa regularização questiono o funcionário sobre a venda de bilhetes para comboios que não circularam. A resposta foi mais ou menos a seguinte: se lhe venderam os bilhetes é porque a composição estava em escala de circulação. Se depois a composição foi suprimida é porque alguém decidiu fazer greve à última hora. Como é evidente esta resposta não agrada em qualquer das suas alternativas. Com efeito se a explicação é falsa, os sindicatos devem protestar contra a difamação de que estariam então a ser alvo. Se a informação é verdadeira, a questão é, do meu ponto de vista, mais grave ainda: a greve é uma coisa série, é um respeito da classe e pela classe e não pode estar sujeita a humores, anarquismos ou oportunismos de ninguém e, assim, deveriam ser alvo de forte critica os trabalhadores que à última hora decidiram fazer greve.

[2] Longe de mim pensar que o PC e BE são partidos de extrema-esquerda mas é assim que a AD os considera. Por favor, não sejamos míopes,

 

1 Comment

  1. Subscrevo e revejo-me facilmente na ideia vertida no seu texto: votarei naqueles que se opuseram à guerra (na Ucrânia e na Palestina), defendendo a Paz. Mas, cansado de oportunismos à esquerda, cada vez mais reflito na “proposta” de José Saramago em “Ensaio Sobre a Lucidez”.

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