E por querer não voltar a citar o tipo dos carros e satélites mais o afilhado, o que se meteu com a China e achou agora novos inimigos na EU e na África do Sul (agora espectacularmente zangados), volto a mais um conjunto daquelas pequenas estórias, para salientar que não é o mundo que está em perigo com a alarmante proximidade da guerra global, devido aos genocídios e a uma alteração climática galopante, porque o que parece estar em perigo é o género humano!
Há vários autores, das crónicas aos livros, além de ensaios diversos, que têm repetido uma pergunta, já com muitos anos – ‘O que cabe na palavra mundo?’. Na realidade, se contabilizarmos tudo, o que eles e as organizações mais ou menos humanitárias (da Caritas às Nações Unidas), têm divulgado, haverá, em todo este planeta, cerca de um bilião de pessoas ansiosas, no mínimo, por um prato de sopa.
Além dos genocídios sem razões para tal –e dos inventados no Salão Oval, mais a loucura dos mandantes, distúrbio sem qualquer fiscalização a sério– a que até podemos juntar a alteração climática, confirmada por analistas e especialistas, também devemos ter em conta a desigualdade, as fábricas de armamento, as farmacêuticas, os petróleos e até as inocentes vacas, por lhes quererem instalar contadores de traques nas vacarias (os lugares onde as instalam para produzir em série), isto sem falar nos aviões exclusivos para os que mandam e de outros que se sentam em potentes SUV´s e jactos privados, para ir às suas partidas de Monopólio.
Por isso não me parece que a cólera seja dos deuses, mas sim dos humanos, esses mesmos que muitas vezes se esquecem da sua pequenez, por quererem aceder a lugares que só um narcisismo lunático permitirá. Lembro, talvez a propósito de um ‘lambe botas’ sempre à volta do tirano Dionísio I de Siracusa (400 a. C), que ali reinou –porque será que estes tipos têm aqueles outros sempre à sua volta?
Um dia, o tal ‘lambe botas’, Damocles de seu nome, foi autorizado por Dionísio a trocar de lugar com ele, num grande banquete com as mulheres mais belas do reino, na parte oriental da Sicília. Tudo corria bem até Damocles olhar para cima, e dar conta de uma espada, segura por um pelo de crina de cavalo, exactamente em cima da sua cabeça. Voltou imediatamente para o seu lugar, ao imaginar o que o esperaria.
Regressemos a estes tempos para recordar um dos risíveis encabelados que têm destruído o significado da palavra política, aquele despenteadíssimo (pelo menos) Boris Johnson, que os ingleses até escolheram para primeiro ministro; colunista ainda do ‘The Telegraph’, revelou o conselho que lhe foi dado pelo australiano Lynton Crosby, o mentor da campanha que o levou a conquistar, em primeiro lugar, a câmara de Londres –Supõe que estás a perder uma discussão, que tudo está contra ti, e quanto mais gente pense na realidade, pior ainda. A melhor aposta é atirar um gato morto para cima da mesa– escreveu Boris Johnson. Simples e cruamente, o despenteado explicou assim, como pensava, quando se ‘dava’ a esse trabalho.
Não muito longe deste esquema, terá andado o seu amigo trumpolineiro do outro lado do charco, que chegou ao poder sem sequer ter um programa, mas com um slogan poderoso para os seus seguidores, ‘Make America great again’. O resto foi o que se viu e se vê, por ter contado (e de que maneira!) com a acção do tal padrinho, industrial da mentira, de carros e satélites.
O poder do dinheiro ou o dinheiro no poder, a fazer lembrar uma outra estória, a de Midas rei da Frígia, na península da Anatólia, hoje Turquia. Midas acolheu o sátiro Sileno, (um semideus com pernas e pés de bode), borguista, mas sábio e simpático, a quem Zeus tinha encarregado de educar o filho Dionísio. Quando ele cresceu entregou-o a Midas, onde se veio a tornar o deus do vinho, das festas e do teatro, e de cujo séquito também fazia parte Sileno, o tal sátiro, boémio, bom e farrista, mas incorrigível.
Dionísio grato por tudo o que Midas tinha feito por ele, concedeu-lhe a graça de cumprir um dos seus sonhos. Midas, apesar da sua já grande riqueza, pediu a Dionísio que tudo aquilo em que tocasse se transformasse em ouro. Dionísio tentou dissuadi-lo, mas o insaciável rei teimou. A partir desse dia Midas não conseguia comer, nem beber por tudo se converter em ouro, até suplicar a Dionísio que o devolvesse à condição anterior e, se calhar, até sem o sátiro Sileno! (pensem bem se não andará por aqui!)
Talvez essa tenha sido a razão que levou Oscar Wilde a escrever um dia, ‘Os deuses quando nos querem castigar, até escutam as nossas preces’. Estaremos em tempos assim, e rezar-se-á por aqui o suficiente, com gente ajoelhada ‘à maneira’?
E caberemos todos na palavra ‘mundo’, mesmo ajoelhados?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor