Por me sentir bem longe da ‘cultura’ que se vai praticando agora por estas terras, esta Carta tem mais umas achegas para tentar ir para a frente, na corrida contra o triunfo da ignorância que dá força e ajuda a reinar tal ‘cultura’, chamando a atenção para algumas ideias simples e modestas, mas enormes, vindas de gente com nome grande, ideias que ultrapassam sempre os limites locais das organizações temporais das organizações administrativas sem memórias nem horizontes plurais.
Assim,
Jean Reno, actor bem conhecido de quem gosta do cinema francês, por ter protagonizado filmes como ‘Ronin’, ‘O profissional’ e ‘O Código Da Vinci’, publicou agora o seu primeiro romance, ‘Emma’, uma ficção a que ele chamou ‘uma aventura literária’, para, de alguma forma manter a ligação com os filmes que interpretou.
Não estou nem quero fazer qualquer apelo à leitura por ainda nem o ter lido, quero antes salientar o poder das pequenas coisas, daquelas que acabam por nos dar sentido à vida, tiradas da entrevista que Reno deu a um jornalista, numa das apresentações feita numa cidade europeia. E comenta ele para o jornalista, ‘Ontem, no lançamento do meu livro, perguntou-me uma rapariga loira, como poderia ser mais feliz.
– Que pergunta difícil
– Não sou um guru, e só lhe disse, ‘Tente viver com os outros’ e ela respondeu apenas ‘Obrigada’.
– O que é que vale a pena na vida?
– Vivo num povoado com menos de 400 habitantes e, para mim, é muito importante ouvir ‘Pegue na sua capa de chuva, parece que vai chover’. Só por isso, vale a pena a vida!
Como também vale a pena esta outra pequena estória. Há uns tempos, perguntaram a uma escritora, cujo nome já nem recordo,
– ‘Qual é exactamente o seu conceito de lar?
Mas recordo bem a sua resposta, ‘A minha casa é onde fica quem me quer bem, a minha secretária e a minha biblioteca!’.
Terá sido por questões como estas que J. R. Tolkien, o autor de ‘O Senhor dos Anéis’, escreveu um dia ‘Não podemos escolher o tempo em que temos de viver, a única coisa que podemos é decidir o que fazer com o tempo que nos deram’.
Mas a vida ‘corre’ tão depressa que as pequenas coisas vão desaparecendo de todo o lado, especialmente dos contactos e das relações entre as pessoas, por não lhes darmos atenção, por serem muito pequenas, por só pensarmos ‘em grande’, pela meritocracia ou por outra aldrabice qualquer que nos enfiaram entre as orelhas, de tal maneira que, já dizia Steinbeck, ‘Na sua solidão, um escritor tenta apenas explicar o inexplicável e, noutras ocasiões, a realidade angustia de tal maneira o jornalista, que a palavra acaba por ser insuficiente’.
E estas pequenas coisas são aquelas que não nos levam ao ‘julgamento’ de pessoas, aquele avaliar de atitudes e comportamentos para os quais nem sequer estamos qualificados, a ver pelo abandono das Humanidades no ensino, por até podermos cair facilmente naquela sentença de Alexis de Tocqueville, político e historiados francês do séc. XIX, ‘À medida que o passado deixou de projectar luz sobre o futuro, também a mente do homem erra na obscuridade’.
Mas esse domínio da fascinação e da velocidade do presente, leva a ultrapassar, sem consideração nem recato, todas as barreiras ligadas a valores pessoais e comunitários, seja onde for, sejam quais forem as origens dos povos e das culturas, a ver por um provérbio dos índios sioux, do continente americano, ‘Antes de julgares algum dos demais, caminha durante três luas, calçado com os seus mocassins’.
Está aí, nesse caminhar entre (e na) singeleza dos valores sociais e comunitários, bem como na aprendizagem que infalivelmente arrasta, o modo como poderemos ultrapassar a ‘quase maldição’ que Georges Orwell lançou sobre estes tempos, ‘A massa mantém a marca, a marca mantém os media e os media controlam a massa’, e ainda nem havia telemóveis naquele tempo!
Não podemos, nunca, facilitar as ‘manhas’ para o esquecimento dos caminhos passados, qualquer que tenha sido o calcante em volta dos pés, nem dos problemas achados em todas as curvas, nas serras ou nas vagas. Se assim for, corremos o perigoso risco de vir a legitimar todos os ‘falares’ e discursos, por muito manhosos e aldrabões que tenham sido ou venham a ser.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, professor da Universidade de Belas Artes em Berlim, na sua obra ‘A sociedade do cansaço’, resume tudo isto com uma frase bem pequena e simples, ‘Acreditamos que somos livres, mas somos apenas os órgãos sexuais do capital’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


