CARTA DE BRAGA – “para maiores de…” por António Oliveira

Ainda não havia esta classificação ou, se havia, o meu pai interpretava-a à sua maneira, não lhes dando grande atenção! É o que penso, porque ele, sábado ou domingo logo de manhã, me dizia para ir ter com ele ao cinema ‘um pouco antes das três’.

Arredondava o salário do lugar onde trabalhava, fazendo a bilheteira no cinema da cidade, um grande armazém próximo do Montepio, muito bem-adaptado para isso e, quando ele o dizia nalgumas tardes de sábado ou domingo, tinha um lugar na última cadeira da segunda fila da frente na plateia, para ali passar uma hora e tal descansado. E lembro-me de ter visto o Douglas Fairbanks, o Rodolfo Valentino, o Charlie Chaplin, o Buster Keaton, outros mais e uma senhora que nunca esqueci, talvez pelo nome, Pola Negri, e uma brasileira que afinal era portuguesa, a Carmen Miranda.

Vi muitos mais (nem saía do lugar ao intervalo!), mas são estes os que recordo agora, vistos então com entusiasmo, mais os caramelos que também me dava, ‘não faças barulho a desembrulhá-los para não incomodares ninguém’, recomendação que nunca esqueci e está na origem de ter deixado de ir ao cinema já há alguns anos, depois da ‘invenção’ das pipocas e do sorver da cola, por assim não conseguir ver um filme descansado!

Um dia levou-me a ver a salinha minúscula onde estava a máquina e os rolos de fitas que se mudavam ao intervalo e ali fiquei, a ver um dramalhão na companhia do senhor que mandava naquilo tudo, com o barulho da máquina por fundo e, se a memória não me trai, o actor principal era Bela Lugosi que assustava toda a gente (até o senhor da máquina!) e usava uma grande capa preta, mas já não sei o nome do filme!

Uns anos mais tarde fui para Angola e o dono do único cinema que havia naquela cidade era uma simpatia, mas era necessário levar a cadeira de casa, por só ali haver bancadas de cimento, todas de lado, com o espaço para as cadeiras no meio do salão (um campo de jogos!), aproveitado para se poder ver cinema.

Quando abriu uma nova sala de cinema na cidade, para o permitir ver com comodidade, também fiz uma incursão à sala de projecção, não para ver algum filme, mas para assistir dali a uma noite espantosa com o inolvidável João Villaret, por a lotação estar completamente esgotada havia semanas, e eu ser amigo do senhor que mandava naquilo tudo e, dali, sentado nas caixas de rolos de fitas do próximo filme, ouvi e vi João Villaret, como nunca mais tornei a ver.

Isto tudo para dizer que a minha estória, como a História da humanidade, não está mal de todo, por ser apenas um somatório de pequenas estórias, mesmo por todas elas não serem grande coisa, de pedir bandas de música e bandeiras, por dependerem só da maneira como se vejam e, acima de tudo, do modo como acaba cada ‘episódio’.

Dizia o filósofo e ensaísta Javier Gomá, ‘Se olharmos apenas o período mesquinho de uma vida individual, a aprendizagem é nula ou muito lenta. Mas se levantarmos um pouco o olhar, veremos como é a humanidade e, até desajeitadamente e com contratempos, desvios e decadências, acabamos mesmo aprendendo’.

A contrapé, só para amenizar a leitura e sintetizar muito do que vou ouvindo em meios variados, recordo uma das sentenças de Groucho Marx, um dos artistas que vi na altura, à boleia do meu pai, sentenças em que o Grouxo era também muito bom, ‘Dê-me um sofá confortável, um cachorro, um bom livro e uma mulher. Então, se você conseguir que o cachorro vá a algum lugar e leia o livro, talvez eu me divirta um pouco’.

Mas, depois deste ‘intervalo’, lembro o enorme poeta Jorge Luis Borges, por ter escrito numa das suas obras, que imaginava o paraíso como uma biblioteca, onde poderia falar com os seus autores favoritos e conhecer os outros, por a leitura ser um acto de amor e liberdade, por ensinar a compreender, aceitar e amar o outro pois, ‘na essência, é só mais um outro eu’.

A chave para esta dualidade, na realidade um enorme problema, de acordo com o que se discute hoje pelo mundo inteiro, ‘Estranho é que os homens devam admitir a validade dos argumentos para a liberdade de expressão, mas objectar que sejam levados ao extremo, não vendo que, a menos que sejam boas as razões para um caso extremo, eles não são bons em nenhum caso’, afirma John Stuart Mill no ensaio ‘A liberdade’.

E disse, melhor, deixou escrito ‘ad aeternum’!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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