CARTA DE BRAGA – “de apetites a bonés” por António Oliveira

Tenho as minhas pastas de apontamentos repletas de nomes, personagens, medias, notas, escritos, ligados, desencontrados, isolados, associáveis, de ontem, anteontem, tresantontem, verificados, verificáveis, absurdos, dolorosos, ridículos e nem sei que dizer mais, mas não me apetece escrever qualquer coisa onde os possa aproveitar!

Só me apetece escrever uma Carta sobre coisa nenhuma. Mas não acho bem, não posso pôr os meus eventuais leitores a carregar com as minhas apetências ou as minhas indecisões, que isto de escrever para outrem tem responsabilidade, cria amizades, inimizades e também gera indiferentes, ou pessoas, que ao olhar a foto que têm à frente, logo carregam na tecla para ler o próximo, olham para o aparelho de tv, ou lembram da urgência que tinham esquecido.

Mas hoje recebi um escrito a falar de escritores que têm ou tiveram gatos, desde um que passava os tempos livres em casa, a correr atrás de um inquieto bichano, até Jorge Luis Borges a dizer o seu gato tão anarquista que ‘Faz o que quer, exactamente como eu’, ou Alexandre Dumas que tinha dois, mas o favorito era um que lhe comeu, de uma só vez, todos os pássaros exóticos de que o escritor tinha em casa.

E, esta manhã, ao ‘folhear na net’ um dos jornais lá de fora, que fazem parte da minha rotina de cada dia, um título chamou-me a atenção por estar na primeira página, mas a referir as melancias num supermercado, por ser comum vê-las já fatiadas e embaladas em plástico transparente, em todos os tamanhos, metades, quartos e até fatias individuais, com um adesivo que informa preço por quilo, a data e a hora do corte. E terminava com uma sentença para pensar ‘Talvez seja por isso que quase ninguém compra melancias inteiras, estamos a aprender a viver em porções’.

Obviamente que este meu passeio por coisa nenhuma, não poderia durar muito, pois um outro cronista, do jornal que abri e passei a seguir, logo me chamou a atenção para o lado humano da realidade em que estamos quase atolados, ‘agora que o ancião da tribo é um homem de chapéu imprudente que se dedica a incendiar o mundo’, com dizeres logo seguidos de ‘aparições oficiais triunfantes exaltando a perfeição das armas’.

Penso ser o que acontece quando as instituições estão a perder, rapidamente, um hipotético símbolo exemplar, submetidas por interesses diversos, muitas vezes ocultos, outras vezes corporativos ou mesmo individuais. Aliás Victor Hugo, o grande autor de ‘Os Miseráveis’, deixou escrita uma sentença que parece ter resistido ao passar dos tempos ‘É fácil ser bom, mas difícil ser justo’, até por me parecer também que, neste momento, a bondade e a justiça não têm qualquer valor, perante um anafado debaixo de um boné ‘made in China’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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