Nota de editor:
Dada a extensão do presente texto, o mesmo é editado em oito partes, hoje a quarta.
Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade (4/8)
Coimbra, 26 de março de 2025
Índice
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- Introdução
- De uma estranha exclusão a uma estranha inclusão
- O poder absoluto conferido por um título
- Sobre os tempos de desprezo pelos docentes, pela docência, nas Universidades de agora
- A Universidade, entre a vista curta da Rua da Betesga ou a visão larga da Praça D, Pedro IV, escolhe a rua da Betesga
- Anexo 1. Capitalismo da finitude
- Anexo 2. A propósito de um concurso para catedrático, um olhar para dentro da Universidade
- Anexo 3- A importância da história
10 min de leitura
(continuação)
4. Sobre os tempos de desprezo pelos docentes, pela docência, nas Universidades de agora
Pelo que foi dito é-se levado a pensar que alcançado o doutoramento e conseguido um curriculum para entrar na carreira docente, chegado a esse posto o professor poderia assumir as funções de docência a tempo inteiro e não a 20 ou 30% como agora se diz. Mas não é assim, os marcadores estão feitos e tanto para subir de escalão no mesmo posto, seja-se professor auxiliar, associado ou catedrático, a dita “subida horizontal”, como para subir de posto, e depois de escalão, é exigido que se continue com a mesma obsessão, publicar, publicar, ou seja, por contratempo, ignorar, ignorar, aqueles que são a alma da docência: os alunos, o corpo estudantil, e ignorá-los tanto quanto for possível. Se o não fizer, aumenta ao máximo a sua precariedade e esta passa pela atribuição e instabilidade do serviço docente a realizar anualmente. O exemplo da insegurança quanto às disciplinas a lecionar anualmente representa isso mesmo.
Imagine-se o exemplo seguinte: um professor com o título de professor associado levou anos a preparar com elevado nível uma certa disciplina. Se até chegar a professor associado, foi um professor igual a todos os outros, procurando como todos eles, exercer a profissão de publicar, publicar, e onde a atividade docente funcionou como um estorvo, anos depois percebeu que a vida era bem mais do que isso, era mais do que publicar para ser lido por aqueles que precisavam de o citar para se validarem a si-mesmos, vivendo-se assim em círculo fechado. Inverteu a marcha e dedicou-se à atividade docente, desprezando as penalizações financeiras, como a mudança de escalão ou até a eventual subida a catedrático.
Anos depois de tomar esta posição, eis que, de repente, a Faculdade decidiu abrir um concurso interno, ou internacional, para a área a que pertence e para o posto de catedrático. Este professor, cansado da lógica de publicar, publicar, decide não arriscar em ir a concurso. Não vai. Um jovem colega seu, de uma outra área, ganha o lugar, o lugar de catedrático, um exemplo parecido com o de Pedro Godinho ou de Pedro Cerqueira na FEUC. No ano seguinte estabelece-se quem é quem vai ensinar o quê: a afetação de serviço. E para este afetação o jovem catedrático prefere a cadeira até aí lecionada pelo “velho professor” que não quis entrar em competição para catedrático e as suas razões poderiam ser muitas, entre as quais, por exemplo, não querer alimentar ainda mais a forte concorrência interna da sua faculdade, onde a maioria dos candidatos a concurso já não falam sequer uns com os outros: o efeito benéfico da concorrência. Sendo “forçado” a mudar de disciplina, este “velho” e experiente professor daquela disciplina vê todo o seu trabalho de uma vida a desfazer-se, ali, na ambição de um jovem falcão.
Este nosso “velho” professor percebeu que afinal estar na carreira significa ou estar na luta contra os outros ou fazer o que que os outros não querem fazer e decidiu ir-se embora. Estava a um ano da reforma, preferiu sofrer a penalização da sua passagem à reforma que não era tão grande como é agora. Atualmente, com essa opção de não querer estar em luta contra ninguém teria que aguentar a humilhação, ou perder muito dinheiro para sair. O sistema não deixa saídas, blinda-as, para que seja altamente custoso escapar às suas regras. No caso presente, ganhou a concorrência, dir-se-á., perdeu o país, perdeu a Universidade, direi eu.
Poder-se-á pensar que estou a delirar, mas para falar disto nem preciso de me referir aos tempos de hoje, basta-me olhar para as minhas circunstâncias, para os últimos anos que lecionei e em que pedi a revogação do meu contrato porque já não aguentava o clima de ignorância que se estava a criar e que hoje salta aos olhos de toda a gente.
Nesse tempo, um jovem falcão vindo da Covilhã, António Marques Mendes, um acérrimo defensor das teses de Ayn Rand e já doutorado, propôs ao Conselho Científico a criação de uma disciplina com o MESMO nome de uma disciplina que eu lecionava há anos: Finanças Internacionais. E o Conselho Científico aprovou. Anos depois soube da história e dirigi-me ao Presidente do Conselho Científico, Professor Doutor Alfredo Marques. Fiquei pasmado com a resposta, que foi mais ou menos a seguinte (estou a citar de memória): era uma coisa sã a concorrência entre professores e que essa concorrência se manifestasse entre matérias iguais. Percebi: com Ayn Rand ou sem ela, eu estava a bater contra um muro do poder, Marques Mendes era doutorado e eu não, e terei mais ou menos respondido o seguinte: fica-te com a tua opinião que eu fico com a minha e com uma certeza: está-se a concorrer não pela forma como as mesmas matérias seriam lecionadas, essa é a tua absurda ideia pelos vistos, mas sim com matérias diferentes e se são diferentes teriam então nomes diferentes e entrariam no plano de curso como duas disciplinas opcionais diferentes. Com o mesmo nome, está-se também a concorrer pela maior ou menor facilidade com que se passa em cada uma das disciplinas. Virei-lhe as costas e fui-me embora. E a disciplina de Finanças Internacionais que eu lecionava como opcional, foi-se mantendo e sempre com o mesmo nível de exigência.
Teve sempre um número de alunos razoável, apesar de exigente, mas esse número a assinalar a degradação que Bolonha impôs, começou a decrescer e na parte final terei terminado com 13 alunos, inscritos e com presença regular na sala de aulas. Hoje tomariam muitas disciplinas de Mestrado ter este número de alunos; no entanto, imagine-se, houve algumas tentativas de a encerrar na altura. Não vingaram, e a acreditar na tese do José Reis, dita sobre Economia Internacional por mim lecionada ao longo de décadas, não terão vingado porque eu estaria blindado por certa áurea de competência científica. É a sua tese, não a minha.
Imaginemos, porém, que se reduzia drasticamente o número de alunos inscritos, o que seria natural dada a complexidade relativa da disciplina e o nível de exigência por mim assumido. Estamos a ver o que poderia acontecer: seria chamado ao coordenador do núcleo e este dir-me-ia: esta disciplina não tem alunos suficientes para se justificar a sua existência. Compare-se com o número de alunos na disciplina alternativa. Temos muita pena, vamos encerrá-la, é o que me poderiam dizer. Mas o número de alunos não desceu tanto que justificasse esta posição.
A disciplina não morreu ali. Era um tempo em que a Faculdade ainda era um pequeno laboratório onde se fabricava inteligência. A maioria dos melhores alunos, apesar de ser uma disciplina de opção e de grau de dificuldade acima da média não deixavam de a escolher. À medida que os efeitos negativos, de Bolonha e não só de Bolonha, se acentuavam, esse número foi decrescendo e não era por acaso, acompanhava a baixa de qualidade do ensino em geral que se passou a praticar na FEUC. Fiquei-me no número de 13 alunos, o que face a outras disciplinas opcionais não era nada mau, e assim se foi defendendo a permanência da disciplina.
Tratava-se de uma disciplina que admitia confronto com os melhores manuais internacionais da época. Esta é uma afirmação que pode parecer estranha, mas justificá-la é fácil, muito fácil mesmo. Permitia-me ler todos estes manuais, pensar no melhor que tinha cada um deles, adicionar matérias que tinham a ver com a nossa estrutura de ensino e mais do isso, permitia-se injetar no programa, no que se ensina e na forma como se ensina, a minha própria alma como professor e como cidadão. Um dos meus alunos de referência, Pedro Pinto, hoje ilustre empresário em Coimbra, disse-me anos depois de ter sido meu aluno que o mais importante das minhas aulas eram os primeiros cinco minutos, onde parecia não estar a dizer nada que tivesse a ver com a respetiva aula, mas estava, o resto, com mais ou menos dificuldade vinha nos seus textos ou nos manuais, concluía ele. Pergunte-se a um professor como Boaventura de Sousa Santos como é que ele enchia o anfiteatro com alunos do primeiro ano. É certo que os alunos eram melhores que os de agora, com mais apetência pelo saber, mas ele era único e porquê. Dou a minha explicação: o anfiteatro enchia-se porque o que Boaventura expunha nas suas aulas, não era a matéria, era o que ele sentia sobre essa mesma matéria, o que ele expunha era o que lhe dizia a sua alma naquele espaço e naquele tempo sobre a matéria em análise.
Mas aqueles tempos ainda não eram os tempos de hoje, onde o conhecimento para quem o queira adquirir está agora à distância de um clique de computador. A disciplina de Finanças Internacionais (e posteriormente até mesmo a de Macroeconomia da Economia Aberta – uma disciplina de mestrado) foi feita através de consulta intensiva às disponibilidades bibliográficas existentes naquela que era para mim e naquela época a melhor biblioteca em Economia do País, melhor mesmo que a do ISEG neste aspeto específico que eu queria, que era a Biblioteca do Banco de Portugal. A disciplina foi pensada e estruturada com muitas idas ao Banco de Portugal e com alguns livros desviados temporariamente dos olhares de lince do Governador de então, Vítor Constâncio, livros cuja compra tinha sido por ele solicitada [9]. Uma amabilidade que não posso esquecer da parte da Bibliotecária de então, uma mulher que primava pela sua extrema amabilidade e cortesia para com os outros e que possivelmente me sentia como um tipo estranho, deslocado naquele lugar, e cujas preferências em termos de livros incidiam muitas das vezes sobre os livros requisitados pelo Governador, Vítor Constâncio, o que para ela talvez não fosse entendível, suponho eu. Possivelmente acharia que estaria perante uma estranha coincidência.
Tratava-se, pois, de uma coincidência que não escapou à análise da bibliotecária do Banco de Portugal e que ela própria me sinalizou, o que nos mostrava que era uma mulher atenta sobre quem entrava no seu gabinete. Mas tratava-se de uma coincidência que ela não entendia nem podia entender. E porquê? Porque Vítor Constâncio terá sido o primeiro Governador do Banco de Portugal situado à esquerda [10], mesmo que não passasse do centro-esquerda, com uma preferência de autores que aparentemente não seriam comuns no Banco de Portugal até então e agora, aparecia-lhe um sujeito atípico pelo meio, a solicitar o mesmo tipo de livros que o Governador. Estranha coincidência. Um outro dado que ela desconhecia e que distinguia Vítor Constâncio dos governadores anteriores, era o facto de Vítor Constâncio ser um homem de grande cultura [11], muito distante dos outros governadores. Vítor Constâncio não teria tido um passado de docente muito ligado às questões monetárias, conheci-o como colega no ISEG, pelo que estaria ele próprio a fazer intensamente a sua atualização nestas matérias, com grande espírito de abertura e a partir de autores bem selecionados. Nada disto seria do conhecimento da bibliotecária, penso eu. Pelo meu lado, eu também era um tipo de esquerda, mais à esquerda ainda que Vítor Constâncio, e portanto com um nível de seleção com muitos pontos comuns com a seleção feita pelo Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, o que a bibliotecária também não sabia. O que a bibliotecária desconhecia, é que havia aqui uma grande interseção ao nível da teoria económica e da cultura em geral, advinda de sermos ambos de esquerda, da esquerda não dogmática, saliente-se, e ambos interessados em perceber os fenómenos monetários na sua articulação e interdependência com o que se chamava a economia real, em vez de as considerar como entidades disjuntas [12]. Adicionalmente a esta coincidência e para o nível de livros solicitados, eu não andava de fato e gravata, o que ali seria estranho para o nível intelectual em que nos estamos a situar, e mais estranho ainda era o facto de não apresentar nenhum sinal de arrogância típica dos jovens falcões que a visitariam no seu gabinete: naquele ambiente eu era um tipo atípico em tudo ou, como agora se diz, um tipo fora da caixa. Talvez por isso, criou-se entre nós uma relação de forte empatia e cheguei mesmo a levantar livros antes de chegarem às mãos do Governador, com a condição bem explicita que não demorasse na sua devolução, o que sempre respeitei [13].
O tempo passou, e o que relato neste tipo de texto é fácil de provar, mas o que é importante neste caso é que ele mostra também uma outra realidade: muito do trabalho que permitiu à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra ser o que foi durante décadas era feito de muitas solidariedades pessoais, mas também de solidariedades institucionais [14], criadas a partir das primeiras: a minha relação com as gentes do Banco de Portugal, situava-se nestas duas óticas e creio que ainda me lembro do funcionário que me ajudava nas pesquisas, se a memória não me falha, era o senhor Basílio, mas o meu colega Carlos do Carmo, de alcunha o Mosca pode bem confirmá-lo!
As tentativas de eliminar a disciplina não vingaram na época, e não vingaram porque os estudantes nela inscritos e sem o saberem estavam com a sua presença a defendê-la, mas tentativas equivalentes vingaram depois, em 2023, pela mão de um outro falcão, Tiago Sequeira, vindo ele também da Covilhã, uma Faculdade que nasceu torta e mal-amanhada, e que eu vi e acompanhei em dado momento do tempo o seu crescimento. Sublinhe-se que esta, tal como a FEUC, nasceu sem meios humanos e sem meios financeiros adequados. As tentativas de eliminação vingaram agora, porque intelectualmente o tipo de professores no Conselho Científico já não é o mesmo de então e a apetência dos estudantes pelo conhecimento, claramente, é hoje muito menor do que o era quando saí da FEUC, em 2012. Os falcões da FEUC em vez de se questionarem sobre as razões da redução de frequência na disciplina, como o deveriam fazer, até porque o lugar dela deveria ser mesmo o de fazer parte das disciplinas obrigatórias, preferiram optar pela solução mais simples: esconder esse problema, assassinando a respetiva disciplina que desapareceu assim, silenciosamente, do plano de curso. Não se tratou de morte natural de uma disciplina, por se ter tornado desinteressante ou deslocada no tempo, não, não foi nada disso, tratou-.se de puro assassinato intelectual. Sublinhe-se ainda que com esta eliminação da disciplina foram décadas de trabalho, minhas e depois de Margarida Antunes, que se esfumaram, para prazer dos falcões da FEUC e para ignorância de muitos que sairão da FEUC licenciados e sem o conhecimento de matérias que julgo fundamentais para um licenciado a sério em Economia.
A desvalorização do acervo imaterial que comporta cada docente na sua história profissional e que tenho vindo aqui a referir é, como mostrei, um mal que vem de longe, mas é um mal que ganhou agora uma outra dimensão com a presença dos catedráticos de aviário, reis e senhores entronizados pelo poder conferido pela hierarquia e sem a espessura moral e maturidade emocional que o tempo longo de formação científica e pedagógica confere às decisões tomadas. Quando uma Faculdade se dá ao luxo de menosprezar o acervo cultural e técnico dos seus docentes algo estará muito podre neste reino da Dinamarca, tão podre que só pode corresponder a uma extraordinária degradação das competências científicas e pedagógicas de quem é responsável por este magnânimo desprezo.
O crescimento da Faculdade de Economia da Covilhã foi claramente muito mais complicado que o da FEUC que também nasceu sem meios humanos e financeiros, mas esta contou com um conjunto de homens com alma e que na sua construção se empenharam e até ao limite do possível. Refiro-me a um período que poderíamos situar entre 1974 e final da década 80. De entre todos eles, sublinhemos os já desaparecidos, Romero de Magalhães e Joaquim Feio, e dos outros sublinhemos o José Veiga Torres e o Boaventura Sousa Santos, e estes fizeram-no num tempo em que não se colocavam os professores uns contra os outros, como o Alfredo Marques mais tarde defendia. Mas esta é uma história da FEUC que o volumoso livro publicado por Álvaro Garrido pela comemoração dos 50 anos da FEUC não conta.
Este encerramento da disciplina de Macroeconomia Internacional, nome agora dado a Finanças Internacionais, confirma tudo o que disse atrás: que a instabilidade na docência não depende apenas de se ser doutorado ou não. Isso só por si já não é guarda-chuva para nenhum tipo de precariedade, como se mostrou acima. Hoje, já nem se entra na Universidade sem doutoramento. A disciplina de Macroeconomia Internacional quando encerrada estava a ser ensinada por uma professora doutorada e com largos anos de experiência nessas matérias, pelo que sou levado a pensar que a disciplina foi encerrada pela mão de um catedrático, para afirmação de poder, de hierarquia. E isto é comum a muitas das mudanças na afetação de docência nas Universidades de hoje, sendo certo que em cada mudança são anos de trabalho que se anulam de um lado e do outro, o trabalho das pessoas que mudam de disciplina.
Somos levados a concluir que, portanto, só se adquire estabilidade na carreira ao longo dos anos se entrarmos na concorrência de uns contra os outros e essa concorrência nem sequer é feita pela dedicação ao ensino, no sentido de o melhorar, mas sim pela dedicação sem alma à investigação, publicando, publicando e deixando para trás quase todos aqueles que foram para a Universidade para se tornarem, cidadãos por direito e por formação, isto é, os nossos estudantes. E a precariedade dos profissionais do ensino na Universidade intensifica-se ainda mais a este nível, o da investigação e sem alma [15]. Este é um outro dos dramas da Universidade de hoje assente toda ela na precariedade criada e cada vez mais intensificada, tanto na docência como na investigação sem alma, o que é confirmável tanto pela pobreza [16] das formações dos nossos licenciados como pela pobreza teórica da maioria das publicações dos nossos doutorados de agora [17].
Em suma, nestas contradições é a própria ideia de Universidade como coletivo dos que nela estudam, ensinam, investigam, que se esfuma. O que o sistema assim gerado prefere é ter professores e investigadores, sem alma, os que a têm são para abater pelas múltiplas formas coercivas que o sistema tem à sua disposição, é ter estudantes que não levantem ondas [18], e o preço a pagar por tudo isto está ser bem alto para o país: a morte da Universidade no curto prazo, a morte da investigação a médio prazo, com a criação consequente de uma enorme massa de gente amorfa e sem capacidade crítica seja do que for, podendo-se dizer, como me dizia um alto quadro do nosso serviço de saúde, que os estudantes de hoje são bons, isso é verdade, desde que seja apenas para fazer curricula de apresentação elegante.
(continua)
Notas
[9] Na FEUC trabalhei em conjunto na elaboração do programa de várias disciplinas e em termos individuais fui responsável pelo programa de Economia Marxista, Economia Internacional, Finanças Internacionais e Macroeconomia da Economia Aberta, esta última como cadeira de Mestrado em Economia Europeia. Criar uma disciplina de raiz e dar-lhe estabilidade e coerência científica levava muito tempo, dava muito trabalho e tanto mais quanto nunca se tomou ou copiou qualquer manual como programa, por melhor que cada um deles fosse. Refira-se que esta prática é o contrário do que lamentavelmente hoje é comum fazer-se porque os professores têm outras coisas a fazer para lá de ensinar, como disse um catedrático falcão na Assembleia da República. Um programa de disciplina assim estabelecido surgia, portanto, como o produto da leitura atenta de muitos desses manuais de alta qualidade, mas era também o resultado da cultura geral e da sensibilidade do respetivo professor e eram estas caraterísticas que definiam “a alma” da disciplina e a tornavam especifica. É nesta lógica que aparecem depois publicados textos de apoio à disciplina elaborados por mim, pela Ana Neto e Margarida Antunes, assistentes com quem trabalhei durante anos. Como claramente se percebe, isto era um processo lento, ao longo do qual também se estava a ganhar capacidade pedagógica para a correspondente lecionação. Este tipo de trabalha passou-se em todas as disciplinas que à partida estiveram sob a minha responsabilidade.
[10] Curiosamente, eu aderi ao PS quando ele era Secretário-Geral do PS.
[11] Como exemplo da sua ampla cultura, refiro aqui uma conferência dada por Vítor Constâncio em Atenas, por volta de 2013 – cito de memória – onde escalpelizou como um grande teórico as falhas da construção da UEM e simultaneamente mostrou as suas próprias falhas como político centrista ao afirmar que não era possível mudar de rumo. A propósito desta intervenção de Vítor Constância em Atenas, Randall Wray considerava que Constâncio tinha ido ao limite possível da crítica enquanto vice-governador do BCE (cito de memória).
[12] Foi exatamente por esta sua maneira de pensar a economia, que eu conhecia desde os tempos de colega dele no ISE, que o convidei a arguir a primeira tese de Mestrado que foi defendida na FEUC no mestrado de Economia Europeia, no caso, a arguir a tese de Margarida Antunes.
[13] Um desses livros tratava exclusivamente da relação entre taxas de câmbio e competitividade, tinha acabado de chegar às mãos da Bibliotecária. Abri-o, entusiasmei-me com a sua estrutura, solicitei-lhe o especial o favor de mo dispensar, mesmo que por curto intervalo de tempo. Disse-me que sim, levantei-o, trabalhei-o rapidamente para devolução e este, depois, serviu de base a um longo texto meu destinado aos estudantes sobre a relação entre taxas de câmbio efetivas ou multilaterais, nominais e reais, e a competitividade.
[14] Citemos algumas destas solidariedades institucionais: ISEG (nas pessoas de Simões Lopes e Rómulo de Carvalho), INE (Dr Catarino), FEP (Carlos Tavares e um colega seu), GEBEI (na pessoa de João Cravinho e grande parte da equipa do GEBEI), Banco de Portugal (na pessoa de Álvaro Ramos Pereira) Faculdade de Economia da Universidade Nova (na pessoa de António Rebelo de Sousa, que foi meu aluno no ISEG). Refiro que estou a citar de memória.
[15] Sem me querer meter em seara alheia, não sei se um dos problemas do CES e também do Boaventura Sousa Santos, não passa por esta intensificação da concorrência dentro do mesmo corpo de profissionais com os efeitos colaterais sobre os comportamentos das pessoas que dessa feroz concorrência resultam.
[16] Um exemplo simples: num concurso para uma bolsa de emprego criada pelo governo português e para mil lugares, concorreram perto de 15 mil licenciados. A primeira ronda de prova levaria a selecionar os 3 mil candidatos que passariam à segunda ronda de provas. Destes três mil não se conseguiram arranjar mil candidatos: ficou-se pelos 900 aprovados. Dito de forma cruel: 14.000 eram no plano técnico apenas “lixo”! Este é, para mim, o melhor espelho da crise que atravessa a Universidade e de que nossa juventude é a primeira vítima.
[17] Quanto a estes últimos, veja-se, por exemplo, a pobreza de publicações e de debates naquele violento período que foram respetivamente publicadas ou realizados em Portugal sobre a Grande Crise Financeira que a União Europeia e Portugal, em especial, atravessaram.
[18] Isto não quer dizer que não haja estudantes de qualidade na Universidade. Há, mas são poucos, um pequeno conjunto de árvores não faz uma floresta, e muitos deles são mais o produto de matriz genética do que fruto do trabalho criativo realizado nas Universidades.


