DEBAIXO DOS ESCOMBROS IRÃO NASCER ROSAS por Luísa Lobão Moniz

As suas pequenas pernas fazem-na correr sem se afastar depressa do horror.

Mãe!

Pai!

Ninguém responde.

Apenas os prédios a cair, depois de um assustador estrondo, se fazem ouvir. Tudo cai como um baralho de cartas. Tudo se esboroa fazendo um fumo negro, ou mesmo preto, cor da morte que a criança já presenciou vezes demais, sem nunca perceber porquê.

Parecia um não-presente embrulhado num pó sufocante que a fazia tossir até ficar exausta, já sem conseguir gritar:

Mãe!

Pai!

O não-presente vinha muito bem-apresentado, pois não se via o que escondia, tinha fitas vermelhas da cor do sangue, não, não era da cor do sangue, era mesmo sangue de quem vivia no seu prédio e nos outros à volta…

A poalha que enchia aquele espaço sem gente turvava-lhe a vista e nada via com nitidez. Será que a sua família estava ali perto e ela não sabia, será que o pai e a mãe não respondiam porque tinham ficado debaixo das pedras, do cimento, dos vidros, dos móveis, da roupa, da vida?

E se houvesse mais crianças como ela, sozinhas?

Não sabe dizer o que sentia, ainda haveria mundo? Porque nos querem matar? Porque morremos de fome?

O meu corpo está tão cansado…não consigo correr mais…e ficou sentada no chão à espera de que alguma fada a viesse buscar. A verdade é que não apareceu nenhuma fada, mas sim mais crianças sozinhas que valiam mais do que uma fada.

Olharam-se em silêncio e perceberam que estavam por sua conta e não tinham nada para levar, nada não, tinham um pequeno peluche, um cãozinho castanho.

Ainda bem que não era cinzento como o ar que respiravam.

Eram sete crianças e um cãozinho que cada um levava, à vez, ao colo, durante a caminhada que faziam sem saberem para onde, fazendo-lhe festinhas como se fosse o seu cão verdadeiro que ficou debaixo das pedras…

Um chamava-se Bolinhas, outro Barão, outro Banzé, Búgui, outro Boneco, outro Pateta e outro Bonito.

A criança, que levava o peluche, fazia festinhas e uma lágrima descia-lhe devagarinho da fantasia, do mundo mágico, até chegar ao pó que envolvia a carinha do sua nova dona.

As crianças olhavam umas para as outras sem nada perguntar, apenas queriam saber o que deviam fazer. Talvez andar, andar sempre em frente até que o caminho chegasse a algum sítio com prédios e pessoas.

Que grande ilusão, estava tudo destruído, muitas mães choravam à procura dos filhos, dos pais, dos maridos e perguntavam porquê tanto sofrimento.

As nossas crianças perderam tudo, a esperança e as suas infâncias, mas não o peluche.

 Naquele momento eram os meninos lobos da II Guerra Mundial, eram as crianças soldados, as crianças desprotegidas de adultos transtornados que fariam delas os seus objetos sexuais, moedas de troca por falsas promessas de que alguém os iria salvar. Eram homens sozinhos, cheios de raiva, com vontade de magoar fosse quem fosse…batiam, violavam, vendiam seres humanos e, as nossas crianças continuavam sem saber porquê, elas até eram crianças boazinhas, apesar de algumas traquinices que tinham feito.

Por vezes, alguns destes homens também choravam e olhavam para as crianças querendo, no fundo, dar-lhes um colinho carinhoso, mas como? Já se tinham esquecido como se pegava numa criança viva…

Agora, as crianças já não querem fazer traquinices, querem carinho, querem comer e beber, mas quem as pode ajudar?

A exposição à violência, a perda de familiares e de amigos, a instabilidade da vida durante a guerra, o barulho da destruição, as lágrimas derramadas, o medo da escuridão da noite podem causar traumas profundos quando começarem a ter consciência dos seus EU.

 O impacto da guerra na infância não acaba no fim do caminho que percorrem, sozinhas, à espera que aconteça alguma coisa boa.

As crianças sem infância memorizam o que de pior lhes aconteceu e isso ficou-lhes agarrado à pele, não há água nem sabonete que lhes “limpe” a memória, a consciência do Eu.

O desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças ficam afetados até que consigam recuperar segurança, bem-estar, amor. Mas quando e como se o mundo está cada vez mais violento?

O medo e a ansiedade vão ser suas companheiras para sempre.

E eu aqui sentada em frente ao computador a escrever sobre esta realidade com o coração apertado sem saber como se trava esta bárbara violência.

Como diz António Damásio “Sim, é verdade que a memória tende a reter mais facilmente experiências negativas do que positivas. Isso ocorre devido à forma como o cérebro processa e armazena diferentes tipos de informações, com emoções fortes, especialmente as negativas, tendo um impacto maior na consolidação da memória.

Essa tendência da memória pode afetar a perceção da realidade, levando a focarmo-nos mais nos aspetos negativos do que nos positivos, mesmo quando a maioria das experiências tenha sido neutra ou boa. No entanto, é importante lembrar que o cérebro também tem capacidade de aprender e superar experiências traumáticas, há técnicas de processamento emocional e terapias que podem auxiliar nesse processo.”

Podem, poderão?

As emoções fortes, a relevância para a sobrevivência são factores que contribuem para a fixação de memórias negativas.

 Como diz o Principezinho “É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou.” 

 

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