As sílabas marginais/Eis o que se diz sobre a coloração do tempo/Nelson Ferraz

 

 

eis o que se diz sobre os mistérios do tempo

e das coisas que eram leves e já não.

e de tudo o que é uma inclinação para o lado de fora

das mãos e da circulação do silêncio:

 

carrega-se uma porta cheia de ruas e caminha-se

enquanto o canto dos pássaros tenta apagar o cansaço.

procura-se uma janela com a memória de um útero.

um palmo de água fresca onde se possa erguer uma jangada.

 

 

escolhe-se um verbo sossegado para pensar.

recorda-se o que foi. esquece-se o que é.

perde-se a importância do nome que alguém diz

e dos nomes que alguém chama.

 

as ausências insuportáveis doem.

as presenças insuportáveis magoam.

 

fica-se só como nunca antes. e gosta-se.

ao redor há pessoas acesas que são olhos e línguas

que apontam as falhas das coisas que perderam a cor.

não são coração a sério.

nem perguntam pela mudez triste das coisas velhas

que se escondem nos alpendres do rosto.

 

ah se alguém perguntasse o que é a mudez triste.

 

a mudez triste é um ruído que brota

de um grito incapaz de pronúncia.

pólen a estragar-se.

eis o que se diz.

 

 

 

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