eis o que se diz sobre os mistérios do tempo
e das coisas que eram leves e já não.
e de tudo o que é uma inclinação para o lado de fora
das mãos e da circulação do silêncio:
carrega-se uma porta cheia de ruas e caminha-se
enquanto o canto dos pássaros tenta apagar o cansaço.
procura-se uma janela com a memória de um útero.
um palmo de água fresca onde se possa erguer uma jangada.
escolhe-se um verbo sossegado para pensar.
recorda-se o que foi. esquece-se o que é.
perde-se a importância do nome que alguém diz
e dos nomes que alguém chama.
as ausências insuportáveis doem.
as presenças insuportáveis magoam.
fica-se só como nunca antes. e gosta-se.
ao redor há pessoas acesas que são olhos e línguas
que apontam as falhas das coisas que perderam a cor.
não são coração a sério.
nem perguntam pela mudez triste das coisas velhas
que se escondem nos alpendres do rosto.
ah se alguém perguntasse o que é a mudez triste.
a mudez triste é um ruído que brota
de um grito incapaz de pronúncia.
pólen a estragar-se.
eis o que se diz.

