25 de Abril, Sempre! – Um Chamamento à Consciência e à Luta
por Carlos Pereira Martins
A forma, o tom, o modo e as palavras da Vereadora de Loures, que se apresentou perante as câmaras com um protagonismo frio e impiedoso durante a recente acção de demolições, são absolutamente alheios ao espírito, aos valores e à herança viva do 25 de Abril de 1974.
Aquilo que vimos não foi coragem institucional nem firmeza democrática — foi a exibição pública de uma insensibilidade brutal, despida de humanidade, que fere a memória de Abril e trai os seus princípios fundamentais.
Perante tamanha exibição de dureza e desprezo social, os mais temerosos poderão mesmo ter pensado: “O nosso 25 de Abril… acabou.” Mas não. Não acabou — e não acabará — se estivermos à altura da responsabilidade de o defender, todos os dias, em cada gesto, em cada palavra, em cada denúncia. Para que Abril não morra, para que o seu legado não seja triturado por discursos higienistas disfarçados de legalidade, há que enfrentar, com firmeza e sem medo, as palavras que se querem impor como verdades absolutas.
Porque não, não é aceitável repetir o argumento de que aquelas pessoas sabiam que as construções eram ilegais e, por isso, “nunca ali deveriam ter ido”. Esse discurso, tão limpo e tão conveniente, pretende apagar uma realidade que incomoda: a dessas famílias que procuram apenas o mais básico dos direitos humanos — um tecto. Pessoas que trabalham, que contribuem, que lutam diariamente pela sobrevivência, mas cujo esforço não chega para pagar uma renda num mercado capturado pela especulação e pelo desprezo social.
Abril, e o que nos legou, não é isto. Não pode ser confundido com esta brutalidade fria e televisiva. Abril deu-nos o direito ao trabalho, à educação, ao pão — sim — mas também o direito a uma casa, a um abrigo, a uma vida digna. Levar-nos a esquecer essa verdade, é desfigurar Abril. É apagar do nosso imaginário colectivo o projecto social e solidário que nasceu naquela madrugada.
O renascimento de uma cidadania digna.
Rejeitar com raiva, com frieza, com desumanidade, os dramas de tantas famílias, é trair esse projecto. É consentir que a política se faça sem alma, sem ética, sem compaixão. E isso, sejamos claros, é namorar com o fascismo.
Perante a lei, para realizar um despejo é necessário verificar que os despojados têm um tecto ou condições alternativas, ainda que piores, para viver com o mínimo de dignidade. Se assim não acontecer, há que fazer actuar, previamente, os poderes autárquicos ou a Segurança Social ou meios de ministérios alternativos. Sendo o despejo justificado por lei. Não foi ele o caso nem o procedimento.
Não podemos assistir de braços cruzados. Não há espaço para o conforto contemplativo perante estas atitudes e estas palavras. Não se pode compreender a raiva de quem tem poder contra quem nada tem. A isso chama-se conivência. A isso chama-se traição a Abril.
Igualmente preocupante é o segundo fenómeno: a deriva acomodada de comentadores outrora identificados com a esquerda, agora travestidos de mediadores serenos, que nos painéis televisivos relativizam tudo e todos. Como se a democracia se reduzisse a um formalismo onde “todos foram eleitos”, logo todos são iguais. Mas não são. Uns querem garantir os direitos, defender os mais frágeis, fortalecer o Estado Social e a cidadania. Outros querem corroer tudo isso por dentro, desde dentro, onde se instalaram. Querem substituir a solidariedade pelo medo, a justiça pela exclusão, a esperança pela repressão.
Atitudes contemplativas, compreensivas e como tal colaboracionistas de cada vez mais comentadores até aqui ditos de esquerda, nos painéis televisivos. Custa ver e ouvir, antigos ministros de governos com a esquerda identificados, protagonizarem agora tempos de meditação em directo nesses painéis para concluírem que há que tratar de igual modo, dialogar e talvez negociar soluções “com todos”.
E sim, é bom lembrar: foi exactamente assim que o fascismo subiu ao poder. Usou os instrumentos da democracia para a destruir. Mais uma vez por dentro, claro! Para se legitimar. Para anestesiar consciências. Para se apresentar como “alternativa”. Por isso, quando escutamos essas vozes suaves que nos convidam ao diálogo “com todos”, é necessário gritar, com clareza: não com quem quer destruir Abril.
Há que parar para pensar. Há que rejeitar as falácias e os truques retóricos que a extrema-direita usa para nos adormecer. Abril não é uma data no calendário. É uma exigência viva. É um compromisso diário.
Abril, sempre. Com todos os que não desistem. Com todos os que continuam a acreditar que uma sociedade justa, fraterna e solidária não é utopia — é urgência.


Subscrevo inteiramente. É vergonhoso, impiedoso e atroz, desumanidade de um quarto mundo. Nem o Dr. Salazar teve coragem de alguma vez actuar daquela maneira e nunca acabou com as barracas que expandiam Lisboa. Isto e muitas coisas que vemos todos os dias lembram Hitler e Staline, que são potenciados pelos sucessivos desgovernos que cada vez mais nos desgovernam.
Não posso estar mais de acordo.
Há que lutar contra a memória curta… dos povos.