“Da Saúde ao Subterrâneo: um percurso político assinado com carimbo partidário” – por Carlos Pereira Martins

“Da Saúde ao Subterrâneo: um percurso político assinado com carimbo partidário”

por Carlos Pereira Martins

Na vida política portuguesa, há nomeações que não se explicam — revelam-se. E há carreiras que, longe de serem uma sequência lógica de mérito e competência, se desenrolam como novelas mal escritas, mas meticulosamente encenadas. O recente episódio da ex-Secretária de Estado da Saúde, agora nomeada Presidente do Metropolitano de Lisboa, é mais um capítulo dessa longa narrativa de favores cruzados, silêncios convenientes e recompensas discretas.

Recorde-se que a sua passagem pelo Ministério da Saúde não foi propriamente pautada pela excelência. Bem pelo contrário. Durante o seu exercício, multiplicaram-se os escândalos e as polémicas: atrasos no atendimento hospitalar, a crise nos serviços de urgência, greves sem resposta, falta de profissionais, falhas nos planos de contingência, e um progressivo colapso da confiança pública no sistema. Sob a sua tutela, a Saúde conheceu alguns dos momentos mais críticos da última década. Não admira, por isso, que tenha sido afastada. A sua saída foi exigida por múltiplas vozes — públicas, políticas e até internas ao próprio partido — como uma medida de contenção de danos. Mas, como tantas vezes acontece, o afastamento foi apenas uma manobra de superfície. Um corte estético para salvar o organismo mais profundo: a própria Ministra.

Hoje, passada a espuma dos dias e apagadas as memórias mais inflamadas pelo tempo e pelo ruído mediático, eis que surge o prémio — em forma de nomeação. Presidente do Metropolitano de Lisboa. Uma escolha que, no mínimo, levanta sobrancelhas. Que ligação há entre a gestão da saúde pública e a condução estratégica de uma empresa de transportes urbanos? Nenhuma que resista ao crivo da razão ou da competência técnica. Mas no xadrez da política nacional, as peças movem-se por outros critérios.

Perguntar-se-á, com legítima ironia: será para “lhe tratar da saúde”? Ou estará agora incumbida de “tratar” do Metropolitano da mesma forma que tratou do SNS? A nomeação, mais do que um insulto ao mérito, é uma afronta à memória dos que exigiram responsabilização. É também um sinal claro de que o sistema se protege a si mesmo. Afastada, sim, mas com almofada. Expurgada das luzes do escrutínio directo, mas promovida discretamente na sombra. Como se a punição política tivesse um prazo de validade — e passado o tempo certo, se transformasse em prémio.

O que está em causa aqui não é apenas um nome. É o princípio. É a forma como se governa e se nomeia em Portugal. Cada vez mais, os cargos de topo não são entregues a quem sabe, mas a quem serve. Não se nomeia pela competência, mas pela lealdade. Não se premeia o mérito, mas o silêncio cúmplice. Os cartões partidários, os alinhamentos internos, os serviços prestados (sobretudo os invisíveis) contam mais do que qualquer currículo.

Neste cenário, o cidadão comum vê-se novamente desprotegido. Olha à sua volta e constata que o mérito não basta. Que há uma elite política que se recicla, se protege e se promove mutuamente, indiferente à vontade popular, à memória colectiva e, sobretudo, ao princípio básico de responsabilidade. O resultado é um sistema cada vez mais descrente de si mesmo, onde a indignação já nem é surpresa, é rotina.

Assim, do Ministério da Saúde ao Metropolitano, vai um passo só: o da conveniência política. E, quem sabe, da promessa cumprida em silêncio.

Porque em Portugal, por vezes, o prémio pelos “bons serviços” não é dado a quem pelo país porfiou. É dado… aos amigos !

 

 

 

 

2 Comments

  1. Um simples caso de uma política geral claramente aplicada e a todos os níveis. Era costume (simples exemplo) os membros do governo serem escolhidos em função de provas dadas, do resultado de trabalhos efectuados. E hoje, quem seria o empresário que, em muitos casos, os empregaria para trabalhar e produzir? Mas empregam-se sempre e muito bem. Porquê e para quê? Será certamente muito difícil adivinhar!

  2. Mais um exemplo da prática das chamadas portas giratórias. Este particularmente escandaloso. Infelizmente, nestas práticas, Portugal está acompanhado pelos países ditos desenvolvidos. Mas nunca é demais denunciar os casos em concreto, como o faz agora Carlos Martins.

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