Kátia Guerreiro: 25 Anos de Fado, Ciência e Açoreanite Aguda
por Carlos Pereira Martins
Dedico este meu texto de hoje, à amiga, médica e fadista
que tanto admiro ouvir e ver cantar, Kátia Guerreiro
Kátia Guerreiro e Carlos Pereira Martins
Há carreiras longas e há carreiras profundas. E depois há aquelas raras, como a de Kátia Guerreiro, que conseguem ser ambas — longas no tempo e fundas na alma. Ao celebrar 25 anos de uma jornada que atravessa o fado, a medicina, os palcos do mundo incluindo o mítico L’ Olimpya, em Paris, e os versos dos poetas, a médica-fadista, ou será fadista-médica?, ergue-se como uma figura singular na cultura portuguesa: uma mulher que canta com o coração de um povo e cura com a alma de uma artista.
Nascida na África do Sul, mas cedo enraizada no verde húmido dos Açores, Kátia cedo percebeu que o destino gosta de brincar com os rótulos. Ainda jovem, trocou a ilha pela cidade, os silêncios vulcânicos pelas salas de aula e os corredores de hospital. Mas jamais trocou — nem por um segundo — o mar interior que a acompanhava. “Sofro de açoreanite crónica”, confessaria mais tarde o diagnóstico que o médico e poeta lhe fez um dia, com aquele humor de quem sabe que a saudade, quando bem temperada, também é um remédio. E repetiu isso mesmo a noite passada no grande concerto comemorativo dos vinte e cinco anos de carreira, no CCB.
A sua terra está-lhe nos olhos, nos modos, no modo como se emociona com o que canta e no modo como ouve. Porque sim: Kátia Guerreiro é das que ainda escutam antes de falar, sentem antes de cantar, engolem um soluço sempre que se emocionam e não têm vergonha de deixar cair lágrimas, mesmo em palco.
Formou-se em medicina, uma ciência quase exacta — mas o fado, esse, não se deixa medir em pulsações por minuto. Com a mesma mão que já segurou um estetoscópio, segura hoje o microfone como quem segura um segredo antigo. E assim, entre a bata branca e o xaile ou vestido preto, foi construindo uma carreira em que nunca precisou de escolher entre ser médica ou fadista. Foi as duas, com igual entrega, provando que o coração humano cabe em muitos ritmos — e pode bater ao som de Amália tanto quanto ao som de um diagnóstico certeiro ou de uma Inquietação do Mestre José Mário Branco.
Nestes 25 anos de fado, Kátia Guerreiro percorreu palcos de todo o mundo: Paris, Tóquio, Istambul, Luanda, Rio de Janeiro, Madrid, Maputo… Mas mesmo quando os aplausos vinham em outras línguas, a sua voz falava sempre português. E não qualquer português: falava o português dos poetas, dos mestres, dos que sabem que cada palavra tem peso e temperatura. Kátia não canta versos: dá-lhes sangue, ossos e vida. Disse Camões, disse Pessoa, disse Florbela, disse David Mourão-Ferreira — e cada vez que os diz, parece que é a primeira. E disse Natália, sua irmã do meio do oceano. E, por fim, criou as Natálias, que esta noite levou ao palco, todas e entre elas, Amélia Muge, Áurea, Rita Redshoes, Maria João, para citar as que fazem o favor de também, por vezes, me aturar.
Teve a sorte — ou a coragem — de se rodear dos melhores. Ao longo do tempo, partilhou música com figuras como Mário Pacheco, Pedro de Castro, Ricardo Rocha, José Mário Branco, Tiago Bettencourt, ou Custódio Castelo. Com mil desculpas para tantos outros mas não sou capaz de ser exaustivo! Mas, a sua história de vida, começou e anda por lá guardada no Embuçado.
E há que dizê-lo: estar entre músicos tão distintos e manter voz própria é coisa que poucos conseguem. Mas Kátia não se perdeu — cresceu. Aprendeu com cada um, devolvendo em cada disco a prova de que o fado, mesmo quando muda, continua a ser casa.
A sua discografia é espelho disso mesmo. Desde Fado Maior, em 2001, passando por Nas Mãos do Fado, Tudo ou Nada, Até ao Fim, Sempre e tantos outros, Kátia construiu uma obra coerente, mas surpreendente, onde o respeito pela tradição convive com uma saudável inquietação estética. Não há em Kátia a rigidez do dogma, mas sim a firmeza da raiz. Ela não canta “como se fazia antigamente” nem “como se faz agora”: canta como ela sente. E isso, no fado, é tudo.
E se por vezes parece séria, é só porque leva o fado — e a vida — a sério. Mas por detrás da elegância e da contenção, esconde-se um sentido de humor que só os bons conhecem. Ri-se em palco quando um microfone falha, brinca com o público quando o ambiente pede leveza, e nunca se esquece que o fado, sendo dor, também é riso. Afinal, não é essa a complexidade portuguesa? Sofremos, mas com estilo. Choramos, mas de xaile. E Kátia, com os seus modos discretos, sabe disso como poucos.
O seu amor pelos Açores nunca foi decorativo. É, aliás, constitutivo. É ilha em cada sílaba, é mar em cada vogal, é bruma em cada pausa. Quando canta “açoresmente”, tudo muda. O mundo ouve, mas é a ilha que fala. E talvez seja essa a sua maior originalidade: a de ser, sempre, fiel a si mesma. Fiel ao que aprendeu nos bancos da universidade, fiel ao que escutou nos discos de Amália, fiel ao que o mar lhe disse em criança, quando o olhava como quem olha um mistério. Fiel como hoje só poucos conseguem ser. E, para o ilustrar, tenho de falar em Tiago Bettencourt.
Celebrar 25 anos de carreira é, no caso de Kátia Guerreiro, celebrar um percurso que não se mede apenas em discos ou concertos — mas em encontros, em emoções, em palavras que ficaram, em lágrimas que foram partilhadas com o público. É celebrar uma mulher que se deu por inteiro à arte, mas sem nunca abandonar a ciência. Que se fez gente inteira, entre os afectos do hospital e as dores do palco.
E se lhe perguntarem como tudo começou, talvez sorria com aquele jeito meio açoriano de quem já viu tempestades e arco-íris no mesmo dia. Talvez diga que foi o fado que a escolheu. Ou talvez, com aquele humor que a salva da solenidade excessiva, confessou mesmo em palco e na presença do amigo Zeca Medeiros: “Isto, foi a açoreanite. Quando se instala, não há cura.”
Mas nós bem sabemos que, nesse caso, ainda bem que certos vírus se instalam.



This gave me a lot to think about. Thanks for sharing.