CARTA DE BRAGA – “Hobbes, Rousseau e Ad-ega” por António Oliveira

Nestas tardes e noites de calor, quando, em muitos lugares, apetecia sair para tomar uma cerveja, juntar uns amigos em volta da mesa de uma esplanada e falar daquelas coisas que nos podem afastar das frustrações, dos ‘quefazeres’ que a vida impõe, há sempre uma notícia de um sarrabulho qualquer a envolver gente amiga ou conhecida, que às vezes até não é, mas alguém contou e, como ‘quem conta aumenta sempre um ponto’ acaba por transformar um serão tranquilo numa quantidade de ‘falares’ contra este ou contra aquele e, a maior parte das vezes, contra ‘este sítio que ainda há de ser um lugar decente’, disse alguém que agora não lembro.

Mas tudo isto só mostra que estamos quase todos separados por dois termos com enorme peso nestes tempos, o destino e a esperança, o primeiro próprio dos fatalistas, dos que não crêem nas pessoas que ocupam lugares onde foram ‘postos’ por manigâncias de toda a ordem, da autoria de outros que ocupam outros lugares de maior ou igual valia e, o segundo, a esperança, daqueles quase ingénuos que acreditam na justiça social, na dignidade e nos valores da humanidade, na cultura, que olham e discutem o aumento da desigualdade, de como uns aumentam o seu espólio, e outros vêm autarquias destruir cabanas de chapa e madeiras soltas, onde abrigam velhos e crianças, por não terem mais nenhum lugar onde os alojar, que o salário mínimo mal dá para comer!

Há sempre, atrás destas questões, as práticas e as teorias políticas onde se fundamentam, um debate iniciado no século dezoito e continuou depois e parece estar a renascer agora –para Hobbes, que marcou o século dezassete, o ser humano é naturalmente mau, necessitando uma autoridade que defina um contracto social para conseguir viver em paz; para Rousseau, no século dezoito, o homem é naturalmente bom, só corrompido por uma por uma sociedade onde impere a injustiça e a desigualdade.

Convido os meus eventuais leitores, se para isso houver um pouco de paciência, a consultar o dr. Google e outros especialistas do género, para olhar estes dois nomes grandes da História da humanidade, compararem os seus tempos com os tempos que hoje vivemos, para ver como os efeitos das guerras, as desigualdades brutais que as marcam, os sonhos imperiais de uns tantos, o apelo da sobrevivência dos que se lhes opõem, os favores de alguma Justiça e a indiferença ou a cumplicidade de organizações internacionais que me dispenso de nomear, nos levam a acreditar no destino ou na esperança, pedindo o fim de todos os doutores Esteves que, com ou sem legitimidade, nos impõem normas que passam por crivos que não somos capazes de descrever e, a maioria, nem sequer nomear.

E a terminar, uma pergunta e a resposta, que vi num dos blogs que costumo frequentar, o ‘Entre as brumas da memória’, num post assinado por João Costa, ‘AD-ega? Não é boa ideia’ e, acrescento uma parte da resposta – O Presidente da República ainda pode lembrar-se que é co-autor da Constituição, cabendo-lhe proteger os valores fundamentais do nosso país. As bases do PSD podem mostrar que não é esta a sua matriz. E continua noutro tema –Diz-se, muitas vezes, que André Ventura está empenhado em transformar o Parlamento numa tasca. A isso contraponho que as tascas têm muito mais dignidade e valor do que o populismo de Ventura. Ainda que as adegas tenham melhor reputação junto do ideário popular, que esta AD-ega não continue o seu caminho e que Luís Montenegro arrepie caminho.

Só não sei se o senhor doutor Luís Esteves concordará com isto porque, citando Aquilino em ‘Quando os lobos uivam’, ‘‘A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos é porque os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram uma quadrilha’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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