Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Síria: o conflito por procuração entre a Turquia e Israel
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em 18 de Julho de 2025 (original aqui)
Os confrontos registados na Síria – com epicentro na zona da cidade de Sweida habitada pelos drusos – provocaram mais de 500 vítimas com a ameaça de um aumento acentuado, à medida que o frágil cessar-fogo, alcançado com dificuldade, vacila.
Tudo decorre do caos que seguiu a queda de Assad, que viu o terrorista de confiança do Ocidente ascender ao trono de Damasco, Ahmed Al-Sharaa, antes Mohammad Al Golani, líder primeiro de uma facção do Isis e depois de al Nusra, secção síria da al Qaeda, terrorista formado, como o líder do ISIS al Baghdadi e tantos outros, nas prisões americanas, das quais foi libertado em 2011, isto é, no início da mudança de regime sírio.
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Após a queda de Assad, Ahmed Al-Sharaa, assistido por Ancara, que o teletransportou em nome do Ocidente durante a mudança de regime, lutou para juntar os fragmentos da Síria, em grande parte causados pelos estragos provocados por ele mesmo. Mas pouco a pouco, graças precisamente a Ancara, ele conseguiu restabelecer uma aparência de Estado, mesmo que muitos não confiassem no terrorista de casaco e gravata, ao ponto de desobedecerem ao pedido de entrega das armas.
Isso deu origem aos pogroms de Latakia e Tartus em março passado, quando mais de mil alauitas, ramos destacados do xiismo, cujos expoentes ajudaram o presidente Assad, foram barbaramente massacrados pelos terroristas que tomaram o poder.
Mesmo uma parte da comunidade drusa, uma minoria que tem uma religião muito particular, recusou o pedido de entrega de armas, mas a sua insubordinação foi parcialmente tolerada, uma vez que esta comunidade gozava do guarda-chuva de protecção israelita, que, com a queda de Assad, alargou a sua influência nos Golãs e nas regiões vizinhas, declaradas unilateralmente zonas desmilitarizadas.
Não que todos os drusos estejam satisfeitos com esta protecção interessada, na verdade muitos deles rejeitaram-na como uma interferência indevida, mas para os objectivos expansionistas de Telavive, determinado a tornar-se uma potência global graças ao seu domínio sobre o Médio Oriente, é um detalhe secundário.
Então, chegamos aos últimos acontecimentos, isto é, ao que desencadeou o caos atual que, aliás, começou em outro fatal 11, sexta-feira, 11 de julho, quando um jovem druso foi sequestrado a caminho de Damasco. Um acontecimento bastante habitual nessas regiões, uma vez que há algum tempo se verificavam atritos e confrontos entre drusos e beduínos locais.
Desta vez, no entanto, os confrontos foram de maior alcance, forçando Damasco a intervir em força. Mas, em vez de reprimir o surto de fogo, a intervenção fez com que se intensificasse, com os drusos acusando as forças de Damasco de protegerem os seus correligionários beduínos, também os islamitas sunitas, e o início de confrontos mais amplos entre os drusos e o exército sírio, que produziram mais de 100 vítimas.
Um conflito desigual, com os drusos destinados a sofrer. Mas aqui, como era óbvio, Telavive envia as suas forças para defender os drusos, que também representam uma minoria bem integrada no Estado israelita.
E aqui a situação vira de cabeça para baixo, uma vez que o exército sírio não podia fazer nada contra a força aérea israelita que não só martelou os soldados de Damasco, mas também lançou ataques à capital, atingindo o Ministério da Defesa, como um aviso aos atuais chefes da Síria.
Uma intervenção que viu desmoronar a rede meticulosamente tecida por Washington nos últimos meses, que esperava fazer da Síria uma espécie de traço de união entre a Turquia e Israel, consolidando o domínio de Ancara sobre o país e, ao mesmo tempo, o de Israel sobre os Golãs, com a adesão de Damasco aos acordos de Abraão como mais um presente a Telavive. Todos temperados com dinheiro do Catar e de outras monarquias sunitas às quais Washington confiou a reconstrução do país, da qual se beneficiariam turcos e israelitas.
Todos felizes e contentes para sempre, em suma. Exceto pelo caos criativo, uma receita com a qual os neocons americanos há muito esperam remodelar o Médio Oriente, pouco funciona quando aplicado à realidade, pois o caos, por sua própria natureza, é destrutivo.
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Nem as convergências paralelas entre Netanyahu e Erdogan, evidentes em tantos dossiers do médio oriente não obstante o antagonismo público, podem progredir segundo as vias não conflitivas de outras parcerias remotas. O expansionismo israelita, de facto, não pode senão entrar em conflito com o sonho neo-otomano de Erdogan.
Se o actual frágil cessar-fogo, já quebrado por confrontos localizados, corre o risco de novos incêndios, foi um pequeno sucesso de Washington, que mediava entre as partes tranquilizando a Turquia que via vacilar a sua influência sobre o país vizinho, é certo que esta vez a Rússia e a China se puseram ao lado dos Estado Unidos, interessados em preservar um mínimo de ordem na região.
Isto também porque estão bem conscientes de que o objectivo de Israel é sempre o mesmo, trazer o caos às portas do Irão: se a Síria se afundar no caos, de facto, isso espalhar-se-á para o vizinho Iraque, que há muito teme esta possibilidade, tanto que reforçou as fronteiras.
Sem mencionar que a situação corre o risco de esmagar até mesmo o frágil Líbano, já lutando com as contínuas e ilegítimas incursões israelitas e as pressões do enviado dos EUA para o Líbano e a Turquia, o fatal Tom Barrak, que se move na política do país dos cedros como uma espécie de governador colonial.
A sua missão é eliminar o Hezbollah do Líbano, começando pelo seu desarmamento, e depois entregá-lo a Israel. Uma missão à qual se dedica com certa agressividade, a ponto de ameaçar que, se a milícia xiita não aceitar os ditames de Washington o país regressará aos tempos de Bilad Al-Sham, quando fazia parte da Grande Síria.
Um projecto que, embora negado, continua a ser apreciado pelos neoconservadores e Ancara, como assinala um artigo no The Cradle sobre a crescente influência turca, através de um gabinete especial de Damasco na cidade libanesa de Trípoli, cujo porto representa uma infra-estrutura mais do que estratégica. Manobras a que se somam os rumores recolhidos pela i24NEWS sobre o pedido das autoridades sírias aos Estados Unidos para obter o controlo da cidade em troca da adesão aos Acordos de Abraão. Tal é a natureza funesta do caos criativo, que já trouxe tanto sofrimento à região.
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O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”






