Espuma dos dias — O Acordo comercial da UE é uma capitulação perante a América. Por Thomas Fazi

Seleção e tradução de Francisco Tavares

3 min de leitura

O Acordo comercial da UE é uma capitulação perante a América

 Por Thomas Fazi

Publicado por  em 28 de Julho de 2025 (original aqui)

 

Lá se vai a alavancagem europeia. Crédito: Getty

 

Ontem, a União Europeia e os Estados Unidos concluíram um acordo comercial que impõe uma tarifa de 15% sobre a maioria das exportações da UE para a América — um acordo que o Presidente dos EUA, Donald Trump, saudou triunfantemente como “o maior de todos”. Embora o acordo tenha evitado uma tarifa ainda mais dura de 30% ameaçada por Washington, muitos na Europa estão classificar o acordo como uma derrota retumbante — ou mesmo uma rendição incondicional — para Bruxelas.

É fácil perceber porquê. A tarifa de 15% sobre as mercadorias da UE que entram nos EUA é significativamente superior aos 10% que Bruxelas esperava negociar. Entretanto, como o próprio Trump se gabava, a UE “abriu [os seus] países com tarifa zero” às exportações americanas. Crucialmente, o aço e o alumínio da UE continuarão a enfrentar uma tarifa esmagadora de 50% quando vendidos no mercado dos EUA.

Esta assimetria coloca os produtores europeus numa grave desvantagem, aumentando os custos para indústrias estratégicas como a automóvel, a farmacêutica e a indústria transformadora avançada — sectores que sustentam a relação comercial transatlântica de 1,97 milhões de milhões de dólares da UE. As chamadas medidas de “reequilíbrio” inclinam claramente o campo de jogo a favor dos EUA, forçando as economias europeias a absorver custos mais elevados simplesmente para preservar o acesso aos mercados americanos.

Pior ainda, a UE comprometeu-se a investir 600 mil milhões de dólares em novos investimentos dos EUA, bem como 750 mil milhões de dólares em compras de energia a longo prazo e a um aumento da aquisição de equipamento militar americano. Isto aprofunda ainda mais a dependência estrutural do continente em relação ao aprovisionamento energético e aos recursos militares dos EUA.

A reacção política na Europa tem sido contundente, com o ministro francês Benjamin Haddad a rotular o Acordo de “desequilibrado”. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tentou apresentar o acordo como um compromisso pragmático para evitar uma guerra comercial total, mas poucos ficaram convencidos. Como o comentarista geopolítico Arnaud Bertrand observou em X: “em troca de todas essas concessões e extração da sua riqueza, a UE recebe… nada. Isto não se assemelha nem remotamente ao tipo de acordos feitos por duas potências soberanas iguais. Antes se parece com o tipo de tratados desiguais que as potências coloniais costumavam impor no século 19 — exceto que desta vez, a Europa é a destinatária do tratado desigual imposto”.

Podemos tirar algumas lições. Em primeiro lugar, o Acordo deveria finalmente quebrar o mito de longa data de que a UE reforça os seus Estados-Membros, aumentando o seu poder de negociação. Durante décadas, foi dito aos europeus que apenas unindo a soberania num bloco supranacional poderiam exercer influência colectiva suficiente para enfrentar as potências globais. Esta foi sempre uma ficção conveniente. Na realidade, o oposto é que é verdadeiro: a UE corrói sistematicamente a capacidade de cada nação responder com flexibilidade aos desafios internos e externos com base nas suas próprias prioridades económicas e políticas. O quadro rígido do bloco — a sua estrutura de tomada de decisões multicamadas e burocrática, a falta crónica de responsabilização democrática e o excesso de regulamentação sufocante — apenas agrava estas fraquezas.

Ao bloquear as nações europeias numa camisa de força supranacional, Bruxelas privou-as dos instrumentos soberanos — política industrial, flexibilidade comercial e independência energética — necessários para defender os seus próprios interesses. Além disso, a UE esteve sempre ideológica e estrategicamente ligada ao Atlantismo — e a sua integração progressiva com a NATO nos últimos anos apenas aprofundou a sua subordinação aos EUA. Este alinhamento tornou-se embaraçosamente evidente sob von der Leyen.

Como resultado, longe de tornar a Europa “mais forte em conjunto”, a UE gerou uma perda de influência e autonomia sem precedentes. O bloco assemelha-se agora àquilo que era suposto dever superar: um conjunto de estados vassalos, incapazes de traçar um rumo independente e cada vez mais reduzidos ao papel de protectorado económico de Washington.

Trump não está totalmente errado quando acusa a UE de aplicar práticas comerciais desleais. Ao longo das últimas duas décadas, Bruxelas adoptou um modelo de crescimento hiper-mercantilista, orientado para as exportações, que suprime sistematicamente a procura interna, a fim de reforçar a competitividade dos preços no cenário global, mantendo as importações baixas. Por outras palavras, priorizou consistentemente os excedentes comerciais em detrimento do desenvolvimento económico interno.

Este modelo teve um custo elevado. Os cidadãos europeus pagaram o preço através de salários estagnados, emprego precário e serviços públicos cronicamente subfinanciados. Entretanto, os parceiros comerciais da UE — sobretudo os EUA — foram forçados a absorver os excedentes de exportação cada vez maiores da Europa, alimentando uma relação económica global cada vez mais desequilibrada.

Um reequilíbrio era, de facto, há muito necessário. Mas este Acordo representa o pior reequilíbrio possível. Em vez de utilizar este momento como uma oportunidade para repensar a sua estratégia económica fundamentalmente errada — aumentando os salários europeus, aumentando a procura interna e aceitando que como resultado as exportações possam tornar-se menos competitivas —, a UE dobrou a aposta sobre o modelo que esvaziou a sua própria resiliência económica. Em vez de mudar para um caminho de crescimento mais saudável e mais orientado para o mercado interno, Bruxelas optou por preservar o seu paradigma orientado para as exportações a todo o custo. Isso significa agora expor a base industrial da Europa a uma enxurrada de importações, acelerando a desindustrialização e aprofundando a sua dependência dos mercados externos.

 

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.

 

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