Nota prévia:
O caso Epstein nos EUA é bem ilustrativo não só da postura arrogante, manipuladora e desonesta do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como também do mau estado em que se encontra a democracia estado-unidense
Jeffrey Epstein, bilionário, pelo menos durante quinze anos amigo íntimo de Donald Trump, acabou por ser condenado por pedofilia e tráfico de menores. A morte de Epstein em 10 de Agosto de 2019, quando estava preso no Centro Correcional Metropolitano de Nova Iorque a aguardar julgamento, continua rodeada de polémica entre suicídio ou assassinato. Durante anos, Trump alimentou uma teoria da conspiração (tipicamente do agrado do grande público) em torno de uma eventual lista de clientes de Epstein que poderia ser utilizada como arma de chantagem sobre gente poderosa. Em 17 de Julho último, Trump determinou que o Departamento de Justiça divulgasse o depoimento do grande júri que investigou Epstein e a sua cúmplice Mazwell. Este anúncio mais não fez do que aumentar as especulações em torno do assunto, incluindo dentro das próprias bases de apoio de Trump.
Naturalmente, mais do que paródia ou teoria da conspiração, o que parece é que este caso pode arrastar consequências políticas. Resta saber se favoráveis a Trump ou não. Todavia, independentemente, do que possa vir a ser deslindado como sendo a realidade, é uma situação à qual se poderá vir a aplicar o ditado: ”virou-se o feitiço contra o feiticeiro”.
A polémica sobre o caso veio para ficar. Assim, para além dos cinco textos já publicados entre 25 e 29 de Julho, iremos divulgando outros com o evoluir de um caso que não deixará de fazer mossa em Donald Trump, e na sua posição de presidente dos EUA.
Hoje publicamos “O escândalo Epstein-Trump vai em aumento”, de David Dayen.
FT, 30/07/2025
Seleção e tradução de Francisco Tavares
3 min de leitura
O escândalo Epstein-Trump vai em aumento
Publicado por
em 24 de Julho de 2025 (original aqui)
Os republicanos bem podem tentar, mas não vão conseguir fugir e esconder-se deste escândalo.
A Câmara dos Deputados está vazia hoje e amanhã e durante as próximas seis semanas. Os democratas literalmente expulsaram o Presidente Mike Johnson e seu grupo para fora de Washington, ao pedirem um pouco de transparência quando se trata de Jeffrey Epstein e Donald Trump. Os Republicanos da Câmara não queriam continuar a ser escudos humanos para o seu presidente, votando repetidamente para bloquear a divulgação de ficheiros de Epstein. Bem feito pelos Democratas por forçarem os Republicanos a fugirem.
O Partido Republicano da Câmara não fugiu a tempo de evitar uma votação numa subcomissão de Supervisão para intimar o Departamento de Justiça quanto aos arquivos de Epstein. Isso foi aprovado por 8-2, com três republicanos juntando-se a todos os Democratas no painel. O presidente da Subcomissão, o deputado Clay Higgins (R-LA), está “a começar a redigir a intimação” sem um cronograma para sua emissão. Assim, presumivelmente, isso será outra tentativa de obstaculizar.
O deputado Tom Massie (R-KY) ainda tem um projeto de lei bipartidário separado para divulgação dos arquivos de Epstein sujeitos a uma petição de aprovação, com apoio Republicano suficiente para forçá-lo a ir a plenário. Essa petição de aprovação, que exige uma votação da Câmara sobre qualquer projeto de lei quando a maioria dos membros pede um, amadurece após as férias grandes.
Tudo isso garante que o escândalo Epstein-Trump permaneça nas notícias durante as próximas seis semanas, uma prolongada semana do tubarão durante as lentas férias de agosto. Isso dá tempo aos jornalistas para reunir mais informações. E o Wall Street Journal, na estranha posição de liderar a acusação, ligou a mangueira de incêndio ontem, confirmando que Trump está nos arquivos de Epstein, que o diretor do FBI Kash Patel disse a outros que Trump estava nos arquivos de Epstein, e que Trump foi informado disso em Maio, apenas um mês ou mais antes de o Departamento de Justiça (DOJ) decidir não divulgar os arquivos. O DOJ já havia concordado em manter os arquivos trancados até ao momento dessa reunião, de acordo com o relatório.
O Journal é rápido em apontar que “ser mencionado nos registos não é um sinal de irregularidade”. Você não saberia disso vista a reação de Trump nas últimas semanas. De facto, Trump mentiu sobre saber que o seu nome estava lá em resposta à pergunta de um jornalista na semana passada. “Não, Não … [o DOJ] deu-nos apenas um briefing muito rápido”, disse Trump.
Entretanto, aqueles (relativamente minúsculos) registos do grande júri que o DOJ pediu a um juiz para liberar não estão a ser liberados, um resultado óbvio, dado que esses tipos de arquivos são protegidos por regras de sigilo e precedentes judiciais. É provavelmente por isso que Trump instruiu o DOJ a fazer o pedido: forneceu uma maneira fácil de desviar a culpa da falta de liberação para o sistema judicial.
Ainda outra informação gota a gota: o famigerado livro de aniversário de Epstein, que o Journal relatou incluir uma conhecida mensagem de Trump, está em mãos do espólio de Epstein, de acordo com um advogado das vítimas de Epstein, e pode ser intimado a qualquer momento.
Aqueles que poderiam lançar luz sobre estes acontecimentos recentes tornaram-se subitamente incapacitados ou indisponíveis. A procuradora-geral Pam Bondi anunciou que uma córnea rasgada a impedia de participar, em algo tão evidente que seria expulso de um filme sobre esta situação, uma cimeira sobre tráfico de seres humanos. A propósito, Bondi foi procuradora-geral da Flórida durante todos os oito anos entre o tempo que Epstein esteve numa prisão da Flórida por incitamento à prostituição e a sua prisão por tráfico sexual em 2019, sem fazer nada legalmente sobre o residente da Flórida.
Nos bastidores, o DOJ de Bondi está a trabalhar para se encontrar com Ghislaine Maxwell, atualmente na prisão por ajudar e encorajar o tráfico sexual de Epstein. De alguma forma, isto supõe-se que seria consistente com a afirmação inicial do DOJ de que não havia nada no caso Epstein para investigar, como observa Marcy Wheeler. Maxwell está claramente a procurar uma maneira de sair da prisão, e se ela disser aos promotores que Trump é totalmente exonerado, ela poderá obter clemência. Isto é tão óbvio que até os Republicanos da Câmara estão a admitir isso perante os repórteres.
Chegámos à fase em que o encobrimento é tão proeminente como a coisa que está a ser encoberta. Uns meios de comunicação tão rápidos em pronunciar que Trump havia superado o obstáculo Epstein deveriam reavaliar a situação. A Trump espera-o um verão longo e quente.
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O autor: David Dayen é o editor executivo do American Prospect. Os seus trabalhos apareceram em The Intercept, The New Republic, HuffPost, The Washington Post, The Los Angeles Times e muito mais. Entre outros é autor do livro Chain of Title: How Three Ordinary Americans Uncovered Wall Street’s Great Foreclosure Fraud, sobre as práticas ilegais de execulões hipotecárias nos grandes bancos. (ed. 2016). O seu livro mais recente (2020) é ‘Monopolized: Life in the Age of Corporate Power’, que incide sobre a forma como os monopólios definem a vida quotidiana das pessoas. É licenciado em Língua Inglesa pela universidade de Michigan.


