Espuma dos dias — Os cristãos da Síria voltaram a ser o alvo, desta vez por aqueles que afirmam protegê-los. Por correspondente do The Cradle

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

Os cristãos da Síria voltaram a ser o alvo, desta vez por aqueles que afirmam protegê-los

Por correspondente do The Cradle na Síria

Publicado por  em 27 de Junho de 2025 (original aqui)

 

 

Sob o governo de uma administração rebatizada da Al-Qaeda, a minoria cristã da Síria enfrenta o terror sancionado pelo estado – desta vez dentro das suas próprias igrejas

 

O atentado de 22 de junho na Igreja Ortodoxa Grega de Mar Elias, em Damasco, não só deixou 25 fiéis mortos e 52 feridos, mas também destruiu o frágil sentido de proteção a que os cristãos da Síria se apegavam. O ataque é emblemático do governo cada vez mais sectário imposto pela nova liderança da Síria – enraizada na ideologia da Al-Qaeda e liderada por Ahmad Al-Sharaa, anteriormente conhecido como Abu Mohammad Al-Julani.

Em tempos enviado pelo líder do ISIS Abu Bakr Al-Baghdadi para estabelecer a frente Nusra, Sharaa agora governa Damasco através do aparelho Hayat Tahrir al-Sham (HTS), cuja ascensão foi ajudada por uma década de operações ocidentais de mudança de regime. Sob esta autoridade extremista salafista rebatizada, a minoria cristã – já dizimada pela guerra e pelo deslocamento – enfrenta uma onda renovada de violência direcionada contra si e a indiferença oficial.

 

Massacre em Damasco

Durante a missa de domingo na Igreja Mar Elias, no bairro de Duweila, o atacante abriu fogo contra os fiéis com uma arma automática antes de detonar o seu colete explosivo. Imagens das consequências mostraram chãos encharcados de sangue, bancos quebrados e alvenaria pulverizada. Em 15 minutos, o Ministério do interior da Síria culpou o ISIS e nomeou o perpetrador como um homem-bomba suicida.

“Ele abriu fogo contra a congregação antes de se fazer explodir usando um colete explosivo”, disse um comunicado do Ministério.

Mas muitos consideraram suspeito que o Ministro do Interior, Anas Khattab, um co-fundador da Frente Nusra, outrora colocado na lista negra como terrorista pelo Conselho de segurança da ONU (CSNU), pudesse alegar conhecer a identidade do autor e da organização por trás dele, tão rapidamente.

“O que é estranho é: como pode o Ministério do Interior anunciar, logo após 15 minutos, a identidade do assassino que se fez explodir na Igreja”, perguntou um comentarista no Facebook, “mas depois de seis meses supostamente perseguindo os assassinos que fizeram o massacre [de Alauítas] na costa, eles não encontraram nenhum. Como souberam eles imediatamente que este era do ISIS?”

No dia seguinte, Khattab alegou que as suas forças haviam descoberto a célula do ISIS responsável pelo ataque e realizado um ataque contra os seus membros nos subúrbios de Damasco, levando a confrontos, várias prisões e duas mortes.

No entanto, as imagens deste ataque mostraram que era claramente falso, sugerindo que tais confrontos não ocorreram e que a operação foi uma foto encenada.

As forças de segurança lideradas pelo HTS realizaram um ataque igualmente falso em janeiro, alegando na época impedir um ataque do ISIS ao Santuário Sayyeda Zaynab – um local sagrado para os muçulmanos xiitas nos subúrbios do sul de Damasco.

A lógica por trás de atacar os cristãos e culpar o ISIS pelo ataque foi explicada por um ex‑fundador da Frente Nusra, Saleh Al-Hamwi. Ao promover essa narrativa de que o ISIS foi responsável pelo ataque de Mar Elias, ele afirmou no site de media social X que, como resultado, “a comunidade internacional se reunirá em torno [do governo sírio], receberá apoio significativo e juntar-se-á à coligação internacional contra o ISIS”. Ele acrescentou que o governo estava a libertar líderes do ISIS das prisões em Idlib e a aprovaitar “o arquivo do ISIS internacionalmente em troca do levantamento das sanções.”

No entanto, nos dias que se seguiram ao atentado de Mar Elias, a narrativa sugerindo que o ISIS era responsável pelo ataque começou a desmoronar-se, com relatos de que os agressores não eram membros do ISIS, mas do próprio Ministério da Defesa e Segurança Geral do governo.

O jornalista Aws Nizar Darwish informou que o autor do atentado suicida na Igreja de Mar Elias era um membro das forças de segurança gerais de Khattab.

Darwish disse que, de acordo com uma pessoa próxima do evento, o homem que detonou o cinturão suicida foi Zyad Anwar Al-Idlibi, de 18 anos, membro da Segurança Geral.

Darwish informou que Idlibi era a mesma pessoa que, há duas semanas, veio ao bairro de Duweila e andou pelas ruas ameaçando os cristãos e pedindo-lhes que se convertessem ao Islamismo. Idlibi era de uma pequena aldeia em Idlib e ofereceu-se para se juntar à Segurança Geral em janeiro deste ano.

“Se você perguntar a qualquer pessoa em Duweila sobre Zyad Anwar Al-Idlibi, eles conhecê-lo-ão. E ele é um voluntário na Segurança Geral e a pessoa que realizou o atentado suicida”, afirmou Darwish.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR), com sede no Reino Unido, informou que, de acordo com fontes confiáveis, um membro do Ministério da Defesa sírio da província de Deir Ezzor participou no atentado e e estava entre os feridos levados para o hospital depois.

 

Extremismo apoiado pelo Estado

Enquanto o estado se esforçava por controlar a narrativa, um grupo anteriormente obscuro, Saraya Ansar Al-Sunnah – um ramo do HTS – assumiu a responsabilidade. Como o Observador Sírio notou, o governo sírio nunca emitiu um aviso sobre o grupo, inclusive depois de ter assumido a responsabilidade por alguns dos massacres perpetrados contra Alauítas na costa em março, nos quais pelo menos 1.700 pessoas foram assassinadas.

Ao mesmo tempo, os cristãos foram lembrados, após o ataque, da hostilidade que os membros do governo sírio mantêm em relação à sua fé.

As declarações do governo que condenam o atentado à Igreja de Mar Elias irritaram os cristãos, pois não conseguem chamar os mortos nos atentados de mártires, simplesmente chamando-os de vítimas.

Imagens de vídeo antigas circularam online entre a comunidade cristã que mostram o Ministro da Defesa da Síria, Major-General Murhaf Abu Qasra, a destruir uma estátua da Virgem Maria. O vídeo foi filmado quando Abu Qasra era comandante do HTS, antigo afiliado da Al-Qaeda, durante a guerra apoiada pela CIA contra o governo do ex-presidente sírio, Bashar al-Assad.

A maioria dos massacres de Alauítas em Março foram realizados por facções filiadas no Ministério da Defesa. Os cristãos não foram alvejados nos massacres, mas alguns foram informados, enquanto fugiam da costa, de que, embora estivessem a ser poupados agora, seriam os seguintes a serem alvejados.

Isto recorda a palavra de ordem sectária, uma vez proclamada pelos rebeldes sírios: “os alauitas para a sepultura, os cristãos para Beirute.”

Nos últimos dias, vários observadores notaram que Khattab falou dos cristãos em termos depreciativos nos seus escritos anteriores. Depois de a coligação dos EUA ter bombardeado a Síria no final de 2014, Khattab escreveu um livro alegando que os “mujahideen” estavam a enfrentar uma coligação de “cruzados”, “adoradores da Cruz” e “Nusayris” (um termo depreciativo para Alauítas) lutando contra os Mujahideen na Síria e que os muçulmanos eram obrigados a lutar uma guerra santa contra eles.

 

De Bucca a Damasco

Sharaa – agora presidente de facto da Síria – não está menos comprometido. Como comandante sénior do ISIS, ele supervisionou atentados suicidas contra comunidades cristãs e xiitas no Iraque antes de ser enviado pelo autoproclamado Califa Abu Bakr Al-Baghdadi para a Síria para estabelecer a frente Nusra. Em 2010, o seu associado, um operacional do ISIS, Haitham Balawi, planeou o ataque do ISIS à Catedral de Sayidat al-Nejat, em Bagdade. O ataque sangrento deixou 70 mortos e 75 feridos, incluindo 51 fiéis e dois sacerdotes.

Balawi foi detido na famigerada prisão dos EUA em Bucca, no Iraque, juntamente com Sharaa e o líder do ISIS, Baghdadi. Todos foram posteriormente libertados de Bucca por funcionários dos EUA– conhecida como “Universidade jihadista” pelo general dos EUA que dirigia o campo.

Por causa deste histórico, Sharaa foi preparado para o poder pelo ex-embaixador dos EUA na Síria Robert Ford, que se encontrou com ele em Idlib durante a ascensão do HTS.

Ford, uma figura central na operação Timber Sycamore da CIA, ajudou a armar e apoiar grupos ligados à Al-Qaeda na Síria sob o pretexto de mudança de regime. Nas suas próprias palavras, Sharaa “nunca se desculpou” pelo seu passado. No entanto, Ford e a inteligência britânica viam-no como o futuro líder de uma Síria pós-Assad.

Em dezembro de 2024, essa visão foi concretizada. Assad fugiu para Moscovo, o exército sírio entrou em colapso e o HTS assumiu o controle da capital. Damasco caiu sob a autoridade de uma coligação de militantes extremistas sunitas rebatizados e colaboradores ocidentais.

 

Futuro dos cristãos em perigo

Desde que Sharaa e o HTS chegaram ao poder em Damasco, os cristãos têm estado preocupados com o seu futuro na Síria. Outrora considerado como um berço da herança cristã – onde se diz que São Paulo experimentou a sua conversão – Damasco tornou-se cada vez mais sinónimo de insegurança e de violência sectária.

Com o atentado de Mar Elias, a ameaça de que os cristãos seriam os próximos tornou-se realidade.

Como observou o analista político Sírio Kevork Almassian:

“Noventa por cento dos cristãos da Síria já fugiram, expulsos pela guerra de mudança de regime liderada pela CIA. Ainda mais depois de o regime da Al-Qaeda ter assumido o poder em Damasco. Agora, os homens-bomba suicidas têm como alvo os poucos que permanecem, atacando dentro das igrejas. Os cristãos da Síria não têm mais ninguém do seu lado. Ninguém.”

A sua eliminação já não é um dano colateral – é o resultado inevitável de um estado agora governado pelas próprias forças que uma vez se comprometeram a destruí-los.

 

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