CARTA DE BRAGA – “de cultura e brutalismo” por António Oliveira

O sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm, analisou bem na sua obra ‘A Análise do Homem’, que entender as questões políticas e as sociais que se lhes seguem apenas sob o ponto de vista pessoal, afasta de nós todas as bases históricas, culturais e mesmo económicas que as motivaram, levando também a pôr de lado todas as estruturas dos sistemas onde elas nasceram e se desenvolveram.

A análise individual, também está sujeita à ausência do contraditório, à falta de informação diversa e qualificada, a limitar tal análise a um conjunto mais ou menos sério de suspeitas onde têm parte importante as convicções, mas onde também aparece o repetitório dos ecrãs e afins, aquela espécie de encenação –maioritariamente política– com motivações bem distintas da análise individual. Não pode deixar de se considerar que essa encenação serve a potencia o discurso político, devido à importância das imagens, que acaba sempre por estragar as regras simbólicas, tradicionais e interpretativas de qualquer espaço deliberativo, institucional ou não.

Um dos problemas a merecer e requerer hoje a atenção de todos, dos maiores aos mais pequenos, é o dos novos bairros de lata, que por aí estão a aparecer (exactamente iguais àqueles que plantámos em terras de França), depois de os termos visto partir com malas de cartão, ou mochilas e sacos agarrados às costas quando a viagem era ‘a salto’, esquivando os republicanos ou a Guardia Civil do lado de lá da raia. Foram muitos milhares, foram também muitos os que lá ficaram ou deixaram, mas não tantos os que regressaram, a não ser nos Agostos de todas as festas, foguetes e saudades, para voltar a partir nos primeiros de Setembro, que as casas já são agora nas cidades, longe das latas que os abrigaram à chegada.

Por cá, a desertificação do interior, dos bancos, dos correios e os parcos serviços de saúde a quilómetros de distância, os nascimentos ao domicílio, nas ambulâncias, mesmo em táxis e até na rua (como aconteceu no Carregado), a que se junta o preço estratosférico da habitação, mais a aportação da emigração, transforma num drama imenso a luta das pessoas humildes para conseguir um tecto decente, distante dos lugares que os levaram a esta aventura, para comer e dar de comer aos seus.

Note-se que, de acordo com a investigadora Pestana Lage, citada pelo ‘La Vanguardia’, ‘Esta é a “tempestade perfeita” sofrida por Portugal, o país da OCDE com maior diferença entre preços de casa e salários”. O aluguer turístico, a alta demanda por casas de luxo e a escassa construção, nas últimas décadas, de apartamentos acessíveis, criam uma espiral que está atacando os mais desfavorecidos, como os imigrantes’.

Seguindo o jornalista e cronista Anxo Lugilde, do mesmo jornal e no dia primeiro deste mês, ‘É alarmante que entre os habitantes dos “bairros de lata” haja muitos que têm um emprego estável. “Não sou mendigo, trabalho”, explicou uma agente de segurança, mãe de uma filha, vinda de São Tomé em 2019 e que vivia numa das favelas recentemente demolidas. Com um salário de 900 euros, não consegue encontrar nada melhor. É a bucha de canhão do caldeirão social português’.

Talvez o professor, poeta e crítico António Carlos Cortez, tenha dado uma resposta a todas estas questões, na crónica ‘A cultura desmantelada ou a ascensão do brutalismo’, publicada no ‘Diário de Notícias’ do dia 5, ‘Como explicar, pois, perante a verdade de uns poucos e a falsidade de uma maioria, a brutalidade dos discursos que, aqui e ali, vão semeando na sociedade civil a mais irrespirável das atmosferas? Há um outro dado essencial: a formação deficiente da maioria dos nossos políticos e empresários, a deficiente consciência cultural de muita classe docente, de muitos que deveriam, até para seu bem, serem acusados do tal “bolchevismo cultural”.

E Carlos Cortez explica esta afirmação de uma maneira bem simples, ‘O brutalismo detesta a citação culta, o argumento válido e verdadeiro, detesta o homem e a mulher de cultura que, por o serem, sabem que fazer cidadania é estudar as ideias, a história das ideias’, a que eu acrescento, história bem distante do entendimento individual de uma qualquer questão que envolva ‘o outro’ e a comunidade, por só neles residir a palavra dignidade.

 António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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