QUEM DESEJA VOLTAR ATRÁS? por Luísa Lobão Moniz

 

Antes do 25 de Abril, a realidade da infância em Portugal era marcada por grandes dificuldades no crescimento das crianças como seres humanos abrangidos pela Declaração dos Direitos das Crianças.

A mortalidade das crianças atingia valores muito altos…por falta de cuidados médicos adequados ou pela fome.

Portugal, um país pobre, antes de 1974, empurrava as suas crianças para o trabalho para ajudar no sustento familiar.

As que iam para a escola, iam diretamente para o 1º ano (então 1ª classe), não havia educação pré-escolar.

 O seu vocabulário era bastante reduzido porque muitas famílias eram analfabetas. Não havia motivação para o aumentarem, pois sempre viveram assim, os filhos seguiam as profissões dos pais, profissões ou trabalhos herdados dos seus antecessores para os quais não precisavam de saber ler nem escrever.

Nada na vida destas crianças era confortável senão o tempo livre em que brincavam com outras crianças e construíam os seus próprios brinquedos.

A sua relação com o mundo que lhes estava próximo era inexistente e o seu sentimento era a vergonha por serem tão diferentes das crianças da cidade… apesar de as verem também a trabalhar, ou sentadas nas ruas com o sentimento de serem dispensáveis no mundo em que viviam.

A organização social das sociedades é ditada pelo voto popular ou pela ocupação violenta do poder.

Instaladas no poder, as classes sociais dominantes criam as representações sociais, negativas ou positivas de determinados grupos como “pobres”, “gentes do campo”, “analfabetos” “criadas de servir”, “porteiros”, “professoras”, “mulheres mais ousadas no seu vestuário e comportamentos como o fumar” e um nunca mais acabar de grupos sociais, para as classes sociais dominantes e poderosas, ricas…para estas eram construídas representações sociais de sucesso,

de uma boa vida, de felicidade, de acesso ao conhecimento que sustentava esta representação, ao conhecimento que os ensinavam a manipular o povo para o conformismo, para a aceitação da injustiça…

“Não sei para que nasci, trabalho desde os 9 anos, casei e o meu homem batia-me por qualquer coisa, só me batia quando estava bêbado… Morreu, agora quem me bate é o meu filho! Nasci para me baterem?” Esta mulher tinha vergonha de dizer que levava pancada, mas depressa percebeu que muitas outras também eram batidas pelos maridos. Viviam conformadas com esta realidade “quanto mais me bates, mais gosto de ti”, como se se pudesse acreditar que a vida é violenta.

A jovem rapariga prostituía-se porque tinha de dar comida ao seu filho pequenino porque o pai da criança tinha-a abandonado.

Os patrões exploravam os trabalhadores não só no horário de trabalho, como no salário que lhes pagavam, não lhes reconheciam o direito a ter férias.

Como era a escola no meio de toda esta realidade?

” Deus , Pátria e Autoridade” era o sustentáculo de uma ditadura que prendia, torturava e matava em nome de uma disciplina social.

As representações sociais são complexas, mas não são imutáveis, há sempre quem consiga, pela luta, modificá-las…e assim foi acontecendo à custa de muito sofrimento de quem lutava ativamente contra a ditadura.

Como conseguem os governos sustentar as suas ideologias? Através da Escola.

As crianças, para além de conhecerem uma escola repressiva, eram filiadas obrigatoriamente na Mocidade Portuguesa que lhes incutia os “nobres valores da Nação, da Família, da Religião, de comportamentos dignos de dignificar o País .

“Nos anos 30, a população escolar apresentava as seguintes percentagens: 8% eram “ineducáveis” – isto é, não se podia fazer nada por eles – 15% eram “normais estúpidos” – é preciso muito trabalho para conseguir deles alguma coisa de vez em quando – 60% tinham inteligência média e só 2% é que eram “notáveis”… Portanto, à partida, 23% dos alunos eram para pôr fora do sistema.” (documento da FENPROF)

Após o 25 de Abril a Escola começa a ocupar um tema central da Democracia, porque acolheu todas as crianças em idade escolar, o que veio mostrar diferenças culturais, comportamentos legítimos nas famílias, mas incompatíveis na escola, veio demostrar que não existe o aluno médio, que a aprendizagem não é feita com o mesmo fato para todos.

Chegaram à escola crianças que conviviam diariamente com a violência dentro de casa contra as mães, contra elas, contra os idosos…

A Escola foi-se adaptando aos novos alunos e hoje tem meios para colmatar esta nova realidade. Em 1974 os professores empenharam-se em mudar a escola e conseguiram.

Mas temos de estar alerta às consequências das democracias que vão enfraquecendo, porque o povo pensou que o que estava adquirido como direitos afinal tinha as suas fragilidades.

Começaram a aparecer movimentos de extrema-direita que anseiam por uma disciplina repressiva, por uma segurança policial forte, por dificultar a imigração com regras que vão contra os Direitos Humanos.

Não podemos permitir que retirem ou adulterem a disciplina de Cidadania da Escola, a cidadania faz despertar nas crianças e nos jovens o que é viver em liberdade, e que a liberdade é o melhor bem na vida de todos e de cada um.

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