As sílabas marginais/DOS PORMENORES/Nelson Ferraz

 

DOS PORMENORES

 

 

o mar do tempo está ao fundo

da rua.

o quarto, vestido de noite, abraça a noite

nua.

sou um pássaro dentro de um livro, sou um ninho

vazio.

e no peito, uma árvore sem roupa, sozinha, treme

de frio.

sei que o vento da manhã passará

por cima

de um muro onde o musgo me serve

de rima.

por aqui, já não há crianças a jogar

à bola.

já ninguém escreve, já ninguém liga, já não há

escola.

isto aqui é agora um outro sítio, onde, as portas perderam

os batentes

e as cores das casas têm o cunho de pincéis, às memórias,

indiferentes.

 

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