CARTA DE VENEZA – CONVIVER COM AS GAIVOTAS por Vanessa Castagna

 

O gaivotão-real (Larus marinus), considerado a espécie maior de gaivota na Europa, tornou-se um animal dominante e problemático em Veneza, causando transtornos para turistas e residentes, tanto que o consórcio de investigação sobre a laguna véneta CORILA, que inclui as Universidades de Veneza e de Pádua, começou a estudar os efeitos da sua presença na cidade.

Os gaivotões-reais são conhecidos pelo seu cleptoparasitismo, um comportamento que consiste em roubar comida das mãos dos transeuntes. Muitas vezes atacam de surpresa, pelas costas, para roubar sandes, fatias de pizza ou outros alimentos. Os turistas costumam ser apanhados desprevenidos; já os moradores estão acostumados e deixaram de comer despreocupadamente enquanto passeiam. Durante décadas, o grande problema em Veneza foi a sobrepopulação de pombos; mas os gaivotões-reais são seus predadores, contribuindo assim para o declínio da sua população de uma forma inesperada e acabando por ganhar protagonismo.

No passado, a presença das gaivotas na cidade estava ligada ao sistema de recolha de lixo: até 2016, em Veneza o lixo doméstico era deixado na rua, à porta de casa, à espera de ser recolhido, e as gaivotas rasgavam os sacos para vasculhar o conteúdo, espalhando o lixo pelas ruas e canais. A introdução de um novo sistema de recolha, pelo que o lixo deve ser entregue à porta de casa diretamente ao operador de resíduos, reduziu significativamente o acesso das gaivotas a esta fonte de alimento.

De acordo com os estudos realizados, a partir de 2000, os gaivotões-reais foram deixando as áreas marinhas para nidificar nos telhados das cidades, encontrando um local protegido de predadores. No entanto, na Itália o número de casais que nidificam em áreas urbanas diminuiu consideravelmente: de 500 em 2021 para cerca de 330, com uma queda de 34%. Esse declínio está provavelmente relacionado com as obras de renovação dos telhados, incentivada pelo Estado nessa mesma época.

 

Para lidar com a presença das gaivotas, o consórcio CORILA propõe várias soluções, tais como: a remoção dos ninhos, que só pode ser feita com autorização prévia do ISPRA, o Instituto Italiano de Proteção e Pesquisa Ambiental; a utilização de dissuasores mecânicos para impedir as gaivotas de pousarem em determinadas áreas; campanhas educativas para sensibilizar residentes e turistas sobre comportamentos a adotar. Fica também, evidentemente, mais um alerta sobre como, a partir dos comportamentos humanos, a relação e o equilíbrio com o mundo animal podem alterar-se e produzir situações imprevistas e complexas.

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