CARTA DE BRAGA – “algumas reflexões racionais para políticos desocupados” por António Oliveira

 

Antes de tudo, devo pedir que não me levem a mal, se alguém se sentir maltratado por o ter tratado como tal (político ou desocupado!), mas creio que devo começar pelo início de todas as coisas, seguindo o pensamento do poeta e jornalista australiano John William Wilkinson, tal como ele o descreveu no ‘La Vanguardia’ em Julho passado, ‘Os seres humanos nascem indefesos. Saem da placenta com um disco rígido em branco. Os primeiros anos são um processo de aprendizagem do constante, baseado na observação e na imitação. Tanto, que passam boa parte do dia dormindo e levam tempo para aprender a falar ou a andar’.

Depois aprendem a pensar por si próprios, a fazer perguntas intermináveis, aprendem a ler, a escrever e a sonhar… A educação obrigatória dura anos e, para os mais felizes e persistentes, pode durar a vida inteira. E Wilkinson acrescenta, ‘O sistema educativo actual não garante nada, e os números deploráveis de desempenho dos alunos em quase todas as disciplinas, estão a tornar-se cada vez mais alarmantes e, assim, muitos jovens terminam os estudos frente a uma vida cada vez mais complexa e competitiva, tão desamparados como quando nasceram’.

Não adianta referir aqui, as intervenções políticas, mais ou menos governamentais, por esses resultados arrasadores, a ponto de a ignorância até ser motivo de orgulho, levar fácil e despudoradamente a um ódio desaforido contra ‘o outro’ e contra  tudo o que seja diferente, na cultura, no modo de estar, na dignidade e, como somos infelizes por tudo isto, buscamos amparo e conforto em lugares artificiais, viciantes e que até podemos encaixar na mão, sem nunca conseguirmos perceber a diferença entre a verdade e mentira, nem dar atenção aos problemas humanos desta Terra, com mais de cinquenta conflitos activos, onde são arrasadas habitações, aldeias e comunidades inteiras, chacinando tudo o que mexe, humano ou não, atrás de sonhos imperiais, em pleno século vinte e um!

Lopez de Mántaras, investigador no Instituto de Pesquisa em IA, afirma a propósito disto tudo, ‘Sem humanidades nos desumanizamos: é o risco de idolatrar a tecnologia’, por vivermos numa época que desvaloriza e despreza as humanidades, pelo que também despreza, no seu cerne, a própria sociedade.

E lembra uma frase imortalizada em ‘Clube dos Poetas Mortos’, pela actualidade e alcance das suas palavras, ‘Lemos e escrevemos poesia porque pertencemos à raça humana, e a raça humana é cheia de paixão. Medicina, direito, comércio e engenharia são profissões nobres e necessárias que dignificam a vida. Mas poesia, beleza, arte e amor são as coisas que nos mantêm vivos’, mas sempre actualidade, por parecer que a Humanidade se rendeu a uma fé cega na tecnologia.

Não há qualquer dúvida que a tecnologia está a ganhar com muita vantagem, sobre a lentidão dos avanços nos domínios da biologia, pelos ‘pormaiores’ e especificidades da pesquisa, no que parece a criação de um fosso enorme entre os dois, mas não esqueço (eu que sou só um ‘agricultor’ quando se fala em tecnologia, até no uso do telemóvel!), que é a mente do homem a estar por detrás disto tudo, desde a criação ao uso de qualquer ferramenta, da artesanal ao digital e da que o futuro nos reserva!

Mas não escondo a minha preocupação pela presença dos ‘senhores’ da tecnologia, na posse e ‘consagração’ do autarca trumpa, e do reforço que ele deu às estratégias económicas que o veio (e também os veio) a favorecer internamente, pelos lucros, e internacionalmente pelo domínio hierárquico e global, de acordo com o potencial financeiro de cada país.

Beneficiam do facto de o bem-estar social de qualquer estado, ser apresentado como o adversário a abater pelo seu wokismo, através de uma enorme pressão neoliberal, privatizações e segmentações, em benefício das grandes potências financeiras, para se conseguir o abandono das maiorias populares e subordinação às minorias e elites dominantes.

Exploram também e a seu modo, o rancor e a mágoa de algumas camadas da população, sobre a queda de alguns privilégios ou posições de domínio, para acusar grupos sociais mais desfavorecidos social, étnica ou culturalmente, à procura de sobrevivência ou integração, principalmente nas cidades maiores ou mais importantes, política e financeiramente. Uma situação paradoxal e contraditória, resultante apenas dos ganhos e perdas em áreas determinadas e específicas.

O sociólogo e filósofo Daniel Innerarity, escreveu já em Maio passado, ‘Na diversidade imprevisível de uma sociedade democrática, não há acção sem resistência, nem iniciativa sem oposição. O princípio de freios e contrapesos baseia-se na apreciação positiva da experiência de reciprocidade, dependências, equilíbrios e da pressão organizada para alcançar compromissos, dentro da qual vivemos. A democracia é a institucionalização produtiva deste princípio, que deixa de ser um inconveniente para se torna um recurso’.

Na realidade, há governos em todos os lugares do mundo, mas só as democracias permitem a organização de uma oposição alternativa e legitimada pelo voto de todos, o que até levou alguém a escrever um dia, ‘A democracia acontece quando se perdem eleições’, sem manipulações nem truques mais ou menos tecnológicos, acrescento eu, tendo em conta o que se vai passando por este mundo.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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