Às vezes ainda penso no que poderia dizer aos meus alunos, se ainda fosse professor, uma vida e um trabalho que abracei com empenho e carinho, desde Angola até ao ISLA, quando o passar dos tempos me impôs o seu irrecusável ‘andar’.
Na verdade, a actual conjuntura política, sempre histórica, impõe também a chamada de atenção para o desvio autoritário com o cheiro a bafio com mais de oitenta anos, mas que arrasta muita gente em que o peso do populismo, dos slogans e da exploração imagética e desordenada, tem mais valor do que o saber histórico e social das comunidades e da sociedade, com ou sem os ‘hambúrgueres’ e outras imposturas do senhor Ventura.
Por isso mesmo, lembro o filósofo, historiador e ensaísta Bertrand Russel, que no ensaio ‘As funções de um professor’, defende que, antes de tudo, o professor deve fazer um esforço continuado e assertivo junto dos alunos, para lhes mostrar como a democracia só poderá sobreviver, quando houver a tentativa de perceber que apenas a tolerância e o respeito para com os que são diferentes de nós, for uma norma social seguida por todos.
É uma atitude cultural absolutamente compatível com a convivência social, bem como com qualquer código ético e político, elaborado ou estatuído pelo interesse comum das comunidades e sociedades, acima dos dogmas e rituais internos e particulares, de uma qualquer denominação social ou religiosa, o que quer dizer, a única maneira de escolher entre o universal e o uniforme, de que até estamos hoje a penar hoje, as agruras dos confrontos.
Também o pedagogo e filósofo Jesus Parra Montero é taxativo, ‘Se queremos que a humanidade alcance a unidade, devemos parar de construir impérios, eliminando tantos egos pessoais e políticos, e caminhar juntos, unindo forças. Uma democracia sem acesso a informação transparente e verdadeira, com interpretação tendenciosa da lei, e tentativas de usar a acção judicial para causar problemas a qualquer oponente, não é democracia, mas um substituto a prazo que leva ao fracasso’, e a Polónia, a Hungria e alguns mais marcam presença nos desmandos.
Basta olhar o que se passa nos states, onde a desordem e o caos aumentaram no segundo mandato do senhor trumpa, com a sobrevalorização de qualquer estratégia intencional e definida para o achincalhamento e derrube dos seus oponentes políticos, ou com ideias diferentes das dele, as que também transmite aos seus protegidos, apaniguados e outros, aliás bem mais ‘rasteiros’, como agora ele mesmo infelizmente confirmou.
Vejam-se, a esse propósito, as afirmações de Casas-Zamora, o secretário geral do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (International IDEA), com sede em Estocolmo, ao falar de Gaza, ‘A liberdade de imprensa atinge seu nível mais baixo em 50 anos, e Gaza é um inferno jornalístico’, para acrescentar de seguida, ‘O cerco à profissão jornalística em Gaza é brutal. Estão a matar jornalistas como moscas. Por um lado, a deterioração da liberdade de imprensa contribui para a deterioração da democracia em geral; por outro, a deterioração das instituições democráticas, afecta inevitavelmente a liberdade de imprensa’.
Mas vai mais longe e salienta ainda, ‘O estudo que efectuámos, também registou declínios nos resultados da liberdade de imprensa em países como Finlândia, Suécia, Portugal, Uruguai, Itália e Coreia do Sul’, onde, de acordo com o chefe da IDEA International, ‘os resultados do desempenho democrático são bons e até altos’.
O mundialmente conhecido sociólogo e filósofo Noam Chomsky, afirmou recentemente, ‘A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões das massas, é um elemento importante numa sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo, constituem o governo invisível que detém o real poder que rege o destino de um país. Aqueles que governam ou controlam os media, tentam moldar nossas mentes, definir nossos gostos ou impor-nos as suas ideias, além de utilizar as emoções em vez da reflexão’.
O pedagogo José Antonio Marina, garantiu ao ‘La Vanguardia’ de 26 de Junho passado, ‘Um vírus mental com a mensagem de não termos hipóteses de alcançar a verdade, ou concordar com valores universais, está a espalhar-se se pelas universidades. Chegámos a um ponto de relativismo tal, que «todos os gatos são pardos», e não importa quem sejam. Os estudantes concluíram que não vale a pena aprender o que se encontra na internet, vítimas de uma conspiração estúpida contra a memória. A memória é o eixo da inteligência; não há inteligência sem memória. Sem memória e sem conhecimento, estaremos sempre nas mãos de manipuladores experientes’.
E o pedagogo Parra Montero ainda acrescenta, ‘Poucas pessoas duvidam hoje, como nesta frase, atribuída a Eurípides, «Enlouquecem primeiro, aqueles que os deuses querem destruir», que muitos líderes no poder, por sua maneira de falar, de se comportar e governar, denotam um certo grau de loucura e falta de inteligência responsável’. Junte-se a isto o que um comentador escreveu há já algum tempo, ‘O narcisismo deixou de ser um conceito limitado ao campo da psicologia clínica, para se tornar uma característica destes tempos. O narcisismo, o interesse exclusivo de um indivíduo por si mesmo, pode levá-lo a deixar-se absorver pela importância que dá a si próprio’, que a ‘mistela’ está pronta, e alguns já a começaram a emborcar.
Mas, e a terminar, recordo um costume tirado da leitura dos clássicos e já nem lembro exactamente qual: qualquer general romano vitorioso, recebia uma coroa de louros, quando entrava em Roma, mas era sempre acompanhado por um escravo que, no meio dos aplausos do povo lhe ia dizendo, em voz baixa, ‘Lembre-se que é mortal!’, para o lembrar do pecado do orgulho e das limitações da natureza humana.
Sei de tantos, (cá dentro e lá fora) que também precisariam de ter, atrás ou ao lado, um ‘funcionário’ com boa voz, para poder ser ouvido!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor