CARTA DE BRAGA -“plutocracia e tolerância” por António Oliveira

Os últimos tempos têm-nos arrastado para consequências dramáticas das atitudes de uns plutocratas, da política ou da moeda, a afectar gentes de todos os continentes, por quererem construir impérios, sem se lembrarem da importância dos voos das andorinhas e do cantar dos outros pássaros, de que já nem sabem os nomes, nem entendem a possibilidade de um mundo de pessoas, para quem todo o ouro do mundo, não paga a simplicidade e a grandeza de «Eu sou tu, e tu és eu!», que uma qualquer pessoa disse e outra, sem gravata até aos joelhos, nem cabelo pintado de loiro!

 Nem dão qualquer valor às imagens diárias de crianças a mendigarem sopa, correndo o risco de serem abatidas a tiro, enquanto outras vão morrendo de fome, de terem também já desaparecido os sorrisos de um velho, quando as últimas notícias (20.09), ‘Trump busca apoio do Congresso para uma venda de armas de 6,4 bilhões de US$, para Israel, que inclui 3,8 bilhões para 30 helicópteros de ataque AH-64 Apache e 1,9 bilhões para 3.250 veículos de assalto para o Exército israelita’.

 Por outro lado (19.09), ‘Três caças russos, MIG-31, invadem o espaço aéreo estoniano, forçando a patrulha aérea da NATO a intervir, dez dias depois de quase vinte drones russos violarem o espaço aéreo polaco, forçando a NATO a abater, pela primeira vez, veículos aéreos não tripulados numa zona aliada’.

Mais acrescenta a notícia, ‘As aeronaves não tinham plano de voo, os seus transponders estavam desligados e, no momento da invasão do espaço aéreo estoniano, os aviões também não mantinham comunicação de rádio bidireccional, com os serviços de tráfego aéreo da Estónia’.

E para terminar esta série de citações, aqui deixo, em tradução minha do castelhano, uns parágrafos do livro de um jurista polaco de família judaica, Raphael Lemkin, com um título enorme, ‘O governo do Eixo na Europa ocupada: leis da ocupação, análise da governação, proposta de reparação’, publicado em Washington, no ano de 1944, onde, e pela primeira vez, aparecia na imprensa a palavra ‘genocídio’.

No capítulo IX, Lemkin escreve, ‘Novas concepções, requerem novos termos. Por «genocídio» referimos a destruição de uma nação ou de um grupo étnico. (…) Em termos gerais, não significa necessariamente a destruição imediata de uma nação, a não ser que se consiga fazer pelo assassinato em massa de todos os seus membros. Pretende-se, sim, simbolizar um plano coordenado de diferentes acções, que apontam para a destruição dos fundamentos essenciais da vida dos grupos nacionais, para os aniquilar.

Os objectivos do plano referido seriam a desintegração das instituições políticas e sociais, da cultura, idioma, sentimentos nacionais, religião e da existência económica dos grupos nacionais, e a destruição da segurança pessoal, liberdade, saúde, dignidade e, incluindo mesmo a vida dos membros dos mesmos grupos. O genocídio dirige-se contra um grupo nacional como entidade, as acções envolvidas dirigidas contra indivíduos, não como tal, mas como membros do grupo nacional’.

Devem-se estas últimas linhas, ao facto de (19.09), ‘Netanyahu, decretou o silêncio total em Gaza, cortando os serviços de internet e telefonia’, isto enquanto os tanques se aproximavam, e acabava o prazo de 24 horas que o exército tinha dado a meio milhão de palestinos, para abandonar a cidade.

E por cá, por esta Europa a que só falta a gravata comprida até ao baixo-ventre e colorir-se de loiro, há um retrato perfeito feito pela professora de Ciência Política Ruth Ferrero-Turrión (19.09), ‘A mesma UE que se autoproclama guardiã dos valores universais, mantém um vigoroso comércio de armas e tecnologia com Israel, que não está disposta a sacrificar. Este Estado é apontado pelas Nações Unidas e organizações de direitos humanos, por crimes de guerra e violações sistemáticas do direito internacional. O contraste é obsceno: a Rússia é obrigada a cumprir regras que Bruxelas não aplica, mesmo que o parceiro inconveniente seja Tel Aviv’.

Talvez seja bom deixar aqui um paradoxo, o da tolerância, da autoria de Karl Popper, um dos maiores filósofos do passado século. E escreveu ele um dia, ‘A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles’.

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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