AGORA, O ENTRETEMPO ENTRE O PASSADO E O FUTURO por Luísa Lobão Moniz

 

No agora vivemos em democracia, podemos alterar e rever as decisões tomadas pelo poder. O alimento da democracia é o diálogo, as tomadas de decisões e a defesa dos Direitos Humanos (Daniel Ineraritty).

No agora vivemos o passado e o futuro e o presente que juntos fazem o tempo que não é uma linha contínua por onde se sucedem acontecimentos.

O tempo não é o que está no calendário, não é os ponteiros do relógio, mas sim o que vive na memória dos seres humanos.

O tempo não é uma sucessão de agoras, é como uma linha contínua, onde o passado e o futuro se estendem a partir do presente.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.

Manuel Alegre
Praça da Canção, 1965

Os seres humanos são dotados de memória, de comunicação, de criatividade e do relacionamento entre emoções e racionalidade.

Para António Damásio as emoções influenciam os sentimentos, são fundamentais para as tomadas de decisões que moldam o comportamento humano.

“A história da nossa civilização é, de certo modo, a história de uma tentativa persuasiva de oferecer os melhores de entre os nossos sentimentos morais a círculos cada vez mais largos da humanidade… Está bem de ver que estamos muito longe de atingir esse ideal”. António Damásio.

O tempo, esse grande escultor, diz-nos que apesar de estarmos todos vivos, na mesma altura, isso não significa que o agora, nascido do passado e do devir, seja o mesmo para todos.

Os povos indígenas têm o seu agora e anseiam um futuro outro.

Os países dos vários continentes estão separados por fronteiras impostas pela Natureza pelo Ser Humano e, assim, foram construindo a sua realidade, por vezes extremamente violenta como a aceitação da pena de morte, outros reconhecem o Direito à Interrupção Voluntária da Gravidez e outros não

Os portugueses ciganos aceitam o casamento, ainda na adolescência.

Povos de todos os cantos do mundo desaguam em sociedades com regras e sanções sociais que não entendem, não entendem a língua dos países que os acolhem ou que os expulsam…

Outros constroem realidades em que o belicismo e a exploração nos postos de trabalho são o sustento de falsas democracias.

Drones sobrevoam países para mostrarem o seu poder.

O agora é ainda o tempo feito de guerras passadas. De bombas atómicas.

Agora é o tempo de corpos queimados, de barbaridades tão violentas como as do passado e as do futuro. O agora é feito de subvidas e de vidas opulentas, de novas formas de matar e de fazer a guerra.

As amarras a um passado que desliza para um devir dentro deste agora irá permitir que o Ser Humano, movido pelas emoções, tome decisões de paz?

E o agora dos povos da Amazónia o que desejam, e os índios que vivem em reservas, e os prisioneiros e o meu vizinho que veio de uma pequena aldeia para viver no meio do cimento de torres altas! Que tempo é este? È o passado, o futuro e o presente.

O futuro está em cima do futuro e por baixo do passado. E o presente são as diversas conexões que se estabelecem entre eles e fazem o agora.

Estamos neste agora.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia, Inéditos,1985/1990

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