
A beleza que nos estupidifica
Corpo bonito, alma feia e mente vazia
Crónica de um tempo que se esqueceu de sentir
Há dias em que caminho pelas ruas do Porto e sinto que o mundo se tornou um espelho partido. As montras devolvem-me reflexos estudados, como se cada rosto que vislumbro tivesse ensaiado a pose para uma máquina fotográfica invisível. É no quotidiano mais banal que se percebe o triunfo da aparência. Os semblantes que passam por mim brilham com filtros invisíveis, os corpos desenhados como esculturas gregas, mas os olhos… os olhos, esses, já não contam histórias. Olham sem ver, sorriem sem sentir, vivem sem estar.
Vivemos tempos em que o corpo é tratado como templo, mas a alma é deixada à porta; como um mendigo que incomoda. É como se vivêssemos num teatro onde a fachada é luxuosa, mas o palco está vazio e as cortinas fechadas. A mente, essa que outrora sonhava, questionava e criava, parece agora ocupada com notificações, vídeos curtos e frases feitas. A tragédia dos nossos dias não é o excesso de beleza, mas a escassez de profundidade.
O corpo bonito tornou-se passaporte social. Quem o tem, entra. Quem o não tem, espera. Mas o que acontece quando o corpo é tudo o que nos resta? Quando a alma se torna feia por falta de uso, ou por uso errado, e a mente se esvazia por falta de alimento?
Não é uma epidemia nova, mas é uma que se alastra com velocidade. Os Gen X ainda se lembram de cartas escritas à mão, de silêncios que não eram desconforto, de conversas sem ecrãs. Os Millennials tentam equilibrar o idealismo com o algoritmo. Os Gen Z e os Alpha, esses, sem terem quem lhes ensine a parar, já nascem com o dedo pronto para deslizar, treinados para coreografias de quinze segundos que valem mais do que conversas de uma hora. Influencers fazem da banalidade uma profissão, e a dieta da moda substitui a refeição partilhada. Entretanto os Boomers tudo vêm e sofrem com a gritante decadência. Mas será que esta tragédia é de hoje, ou é apenas a continuação de uma velha superficialidade, agora amplificada por ecrãs? Já no século XIX se ironizava sobre o dandismo, já se confundia, nos salões barrocos, brilho com profundidade. O que muda agora é a escala, e a aceleração do vazio.
Portugal, com a sua saudade crónica e alma poética, ainda resiste em cantos e recantos. Há cafés onde se lê, há grisalhos que contam histórias, há jovens que escrevem versos em cadernos gastos. Como no fado, onde a beleza se mistura com a dor, ainda encontramos vozes que lembram que sentir é mais do que aparecer. Mas não passam de ilhas isoladas num mar de pressa.
A alma feia não nasce feia. Torna-se feia quando deixamos de cuidar dela. Quando trocamos o silêncio pelo ruído, a introspecção pela distracção, o afecto pela performance. A mente vazia não o é por falta de inteligência, é-o por falta de pausa, de escuta, de espaço para pensar.
E então, pergunto-me se será que ainda sabemos ser, ou se já só nos limitamos a parecer.
A narrativa dos nossos dias não passa de corpos belos, almas esquecidas, mentes em modo avião. No entanto, a história não se escreve apenas com sombras. Há esperança. Há sempre esperança! Vive nos que ainda choram com um poema, nos que se perdem num livro, nos que olham nos olhos e dizem “estou aqui”.
Porque no fim, o corpo envelhece, a mente muda, mas a alma… a alma só morre se a deixarmos morrer. E a questão coloca-se-me: teremos nós ainda tempo de a ressuscitar, ou já nos basta contentarmo-nos em dançar sobre o vazio?

Esta também dá que pensar, embora não seja tão pessimista na minha observação do que se passa. Vivemos ou parecemos ? … velhas inquietações pessoanas, tão atuais!…
Parabéns Zé Fernando!
Um abraço
Obrigado Balbina. Realmente estou em fase pessimista.
Este mundo não serve para os optimistas. Fá-los mornos, frouxos, tíbios, remissos, sem energia ou vivacidade. E com isso, não conseguem ver a calamidade em que vivemos e não lutam, nem ajudam a melhorar a vida e como ela se transformou nos últimos anos, porque se tornaram apáticos e indiferentes.
Ui… estou pior do que pensava. :=)
Um abraço