CARTA DE BRAGA – “das cidades pequenas à barbárie” por António Oliveira

Houve um tempo em que, nas cidades e vilas mais pequenas, a gente da direita tinha algumas vacas sagradas, o padre, o gerente do banco ou o doutor da farmácia e o comandante da Guarda Republicana; naquela altura, tudo estava onde devia estar, Cristo e a sua Mãe nas alturas, os registos das conservatórias fechados à chave na primeira gaveta da cómoda e, ao domingo, as pessoas até evitavam entrar na farmácia, onde era a do encontro daqueles senhores; havia outra ao pé do jardim!

Nem sequer havia direita, (que é isso?), só havia gente ‘à antiga’, que gostava da ordem, que saía naquele dia para a missa das onze ou do meio dia, que se cumprimentava de chapéu e, às vezes, mas à saída, ainda passava pela padaria, à procura do ‘pão espanhol’ branquinho, ‘não gosto dele muito cozido!’, ou de uns ‘beijinhos para os garotos!’.

Também não havia gente da esquerda, os ‘comunas’, e alguém adiantava ‘só aquele médico do Montepio, mas está bem vigiado’, mais um advogado e uns professores que toda a gente conhecia; o perigo estará na capital, mas lá nem se atrevem a mexer-se, pois há muita gente a ver por onde é que eles andam e, ‘se põem um pé fora do passeio, sabemos logo e até para onde havemos de os mandar’, dizia o comandante da Guarda Republicana que, também ao domingo, abrilhantava a farda nova e botas altas bem luzidias.

Era assim, quando comecei a olhar-me nos vidros das montras, a falar de outras coisas com alguns mais velhos, lá no liceu onde andava, quando se escondiam para fumar um cigarro, daqueles feitos à mão e a lamber a beira do papel para os fechar, mas ardia e eles falavam de outras coisas, com dois a olhar para todos os lados a ver se passava alguém que conhecessem, ou os conhecia, para não irem contar lá em casa, ou algum que nem era habitual naqueles lados, para alguém puxar logo de uma baralho e distribuir cartas, ou puxar de uma sebenta e ler alguma coisa em voz alta para todos falarem, rirem, ou falar das manias do professor que, quase sempre era o de ginástica, muito grande para o pequeno Renault cinzento onde andava, e o tal fulano desandava como tinha chegado.

Às vezes dá-me para isto, se calhar sonho, mas hoje, despois do almoço, sozinho em frente do computador, começo a escrever o que vem à cabeça, e lembrei-me de quão pequena era aquela cidade, de como a atravessávamos mesmo a passear, de dar uma volta agarrado à mão do meu avô, de o cumprimentarem a levantar o chapéu, alguns mesmo quando passavam de carro; e vi as minhas idas para o liceu, mais tarde para o colégio externo, onde iam parar todos os que vinham de fora e outros, mais velhos, mais ‘vividos’ e mais sábios, com quem aprendi quem eram uns tipos sempre de chapéu preto, e se trocavam policopiados de letras de canções que nem se ouviam; era o conhecimento que não se aprendia nas aulas, mas o ‘modo de ensinar a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes’, nas palavras do filósofo e sociólogo Edgar Morin.

É verdade que informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações. Por isso estamos imersos em informações e como elas se sucedem dia a dia, de certa forma, não temos como ter consciência disso. De outra parte, os conhecimentos estão dispersos. Mas é preciso uni-los, e faz falta esse pensamento complexo’ acrescenta ainda Morin e, foi ao ler isto que percebi como tive sorte em tudo o que me coube, da família aos caminhos por onde andei porque, de algum modo, algo me ensinaram deste viver.

E volto a Edgar Morin, para terminar esta minha redacção (como antigamente se chamava a isto), ‘A esperança é a ideia que o futuro, já que é incerto e desconhecido, pode ser melhor e, no fundo, sou um pedacinho temporário numa gigantesca aventura, que é a da humanidade. Mas, sinto que faço parte dessa totalidade, querendo ou não. Isso também me leva para frente. Não renuncio. Sem querer, sou animado por esse sentimento de estar na aventura e quero também dar, mesmo que seja pequena, minha contribuição a isso. É isso que também me encoraja, mesmo sabendo que a vida é, ao mesmo tempo, magnífica e trágica’.

Mas nada está estabelecido para sempre:Se você tem a democracia, não é para sempre, pode degenerar. Se acabou com a tortura, não é para sempre, pode voltar’. Termina assim a entrevista a um homem sábio que, há uns meses, cumpriu 104 anos. Convém dar atenção a esta última asserção, por se estarem a viver tempos de retorno à barbárie, aquela que vem desde os primórdios da história, a do domínio, da subserviência e da crueldade, e uma outra barbárie, a fria e gelada do cálculo económico, pois quando só se vêm contas e números, logo se arredam e esquecem os seres humanos.

E estão aí as eleições, não as daqueles tempos em que toda a gente votava no mesmo, ou naquela ordem e seus representantes, onde tudo estava onde devia estar, onde os esquisitos estavam devidamente controlados por uns tipos com ouvidos de sacristia, e chapéu preto, mas onde agora se escolhem uns senhores para as ‘realezas’ das freguesias ou das edilidades, com acesso directo ao chefe de turno que, com outros de igual grandeza, se vão encarregando das melhores sinecuras, sempre a condizer com o andar dos dias e das suas necessidades.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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