Seleção e tradução de Francisco Tavares
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O Prémio Nobel da Paz convertido em Prémio Nobel da Guerra
Publicado por
em 10 de Outubro de 2025 (original aqui)
O Prémio Nobel da Paz não foi atribuído a Trump, nem foi possível apesar de muitos terem encantado o seu narcisismo que o levou a ter pretensões a ele pela trégua em Gaza. Desde o genocida Netanyahu (Timesofisrael), passando por Zelensky, que afirmou estar pronto a apoiar essa candidatura se fossem fornecidos mísseis Tomahawk à Ucrânia (Politico) – o que significaria aumentar a probabilidade de uma guerra nuclear.
Mas, de alguma forma, ele ganhou por interposta pessoa, uma vez que foi atribuído a Maria Corina Machado, líder da oposição venezuelanaisto que deste modo foi coroada rainhazinha do seu país. Ou seja, preparada para ser a nova face da mudança de regime que a administração Trump pretende realizar em Caracas.
Assim, o Prémio Nobel da Paz foi militarizado para apoiar uma guerra que parece cada vez mais próxima. Há algum tempo, de facto, a administração Trump, sob a pressão de Marco Rubio, está a acumular forças contra a Venezuela, oficialmente para combater o tráfico de droga.
Os primeiros navios de guerra foram gradualmente somando-se a outros, incluindo um submarino, e ontem chegou um navio de operações especiais, enquanto um esquadrão de F-35 foi enviado para uma base em Porto Rico.
As forças estado-unidenses já afundaram alguns barcos venezuelanos que teriam sido utilizados para o tráfico de droga, uma acusação que não está verificada e que não justifica tal crime, que é também um acto de guerra.
Há dois dias, então, o afundamento de um navio da Colômbia, que deveria estar fora da mira dos Estados Unidos, mas que parece ter entrado devido ao apoio concedido pelo presidente Gustavo Petro à Venezuela (aliás, o navio colombiano foi afundado pouco depois da decisão de Petro de expulsar a delegação israelita do seu país em reacção à apreensão da flotilha Samud, uma decisão que certamente não passou despercebida em Washington).
Ontem, então, a indiscrição de que a administração Trump tencionaria atingir alvos já não só no mar, mas em território venezuelano. Ameaças que vêm depois das anteriores, incluindo a explícita ameaça de se referir a um golpe contra Nicolás Maduro, e que se seguem à decisão de interromper as negociações iniciadas com a Venezuela para abrandar as tensões em curso.
Curiosamente, um dia antes da interrupção das negociações, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional venezuelana e da delegação encarregada das negociações, tinha comunicado numa nota que “através de ‘três canais diferentes’, os Estados Unidos tinham sido avisados ‘de uma séria ameaça’ por grupos de direita que se faziam passar por seguidores do presidente venezuelano Nicolás Maduro”.
Tratava-se de um plano para realizar um ataque à Embaixada dos EUA na Venezuela que, após a cessação da actividade diplomática, abriga pessoal responsável pela manutenção e segurança do edifício. Teria sido a faísca para desencadear um ataque.
Se estamos no momento certo, parece que o alarme público do chefe da delegação venezuelana irritou a administração dos EUA, que se viu privada de um casus belli, que decidiu evitar novas relações com o homólogo venezuelano.
Agora chegou, bem a propósito, a figura que tem o papel de substituir Maduro, assente num apoio mais que autorizado: o prémio Nobel da Paz. [Corina] Machado tomou, assim, o lugar de Juan Guaidó como figura de imagem para promover a mudança de regime em Caracas, com o Nobel conferindo-lhe a visibilidade necessária para se tornar a serva da mudança.
O único país, além do seu, em que tinha alguma notoriedade antes de ontem eram os Estados Unidos, tanto que participou nas reuniões da Americas Society/Council of Americas (AS/COA), um centro de interesses fundado por David Rokefeller. Nesse local, em junho passado, ela falava abertamente sobre a maravilhosa oportunidade que o seu país oferecia assim que Maduro fosse removido e iniciasse “uma mudança estrutural”.
A Venezuela não possui apenas as “maiores reservas de petróleo do mundo”, mas “também abundantes recursos de ferro, ouro e minerais” e uma superabundância de “terras férteis não desenvolvidas”. Se o actual governo tivesse terminado, acrescentou, em “apenas 100 dias” tudo isto estaria disponível para “investidores estrangeiros, que disso beneficiarão, desde o primeiro dia, utilizando condições sem precedentes”… um plano que levará à criação de riqueza de “1000 mil milhões de dólares” em poucos anos, de acordo com o título do relatório da reunião na AS/COA.
Um plano de privatização ultraliberal, à semelhança do aplicado pelos Chicago Boys no Chile de Pinochet. Numa nota anterior, explicámos que, como dizem documentos oficiais da ONU e dos EUA, as drogas que chegam aos Estados Unidos não vêm da Venezuela. O interesse da administração Trump em Caracas é completamente diferente. [Corina] Machado explicou isso muito bem.
Assim que ganhou o Nobel, [Corina] Machado chamou o seu aliado político Edmundo González Urrutia, que em janeiro de 2025 desafiou e perdeu as eleições presidenciais contra Maduro, acusando-o em seguida de fraude que lhe teria retirado a sua vitória.
Na ocasião, Urrutia e Machado receberam um telefonema do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, com o genocídio palestiniano em curso, elogiando a sua suposta vitória eleitoral, tendo Corina Machado felicitado o governo de Israel pelo “apoio ao povo venezuelano”.
Por outro lado, as relações entre Machado e Israel estão consolidadas: em 2020 assinou em nome do seu partido, Vente Venezuela, uma aliança estratégica com o Likud enquanto, numa entrevista posterior a uma TV israelita, declarou que se ganhasse as eleições transferiria a embaixada venezuelana para Jerusalém.
Ver aqui
Neste ano, o Prémio Nobel da Paz poderia ser atribuído a alguém que se distinguisse por trazer alívio aos palestinianos. Escolheu-se outra coisa.
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O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole Note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.” Piccole Note está ligado por afinidades eletivas ao InsideOver.





Esse perverso capitalismo estraga tudo…
O que eu penso está nessa publicacao:
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/10/depois-que-barack-obama-o-maior-bombardeador-de-todos-os-tempos-recebeu-o-premio-nobel-da-paz-esse-premio-perdeu-o-sentido-original/
O que vemos é o “inferno” cada vez mais proximo:
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/16/desta-vez-com-o-silencio-cumplice-e-conivente-dos-branqu/
O que eu sinto? Sinto muito. 🤢🤢
Abuso, canalhice, ditadura imperialista estadunidense e dos brancos cúmplices do hemisfério norte, como já fizeram no Vietam, na Coreia, no Afeganistão, na Síria, na Líbia, no Iraque, … contra os palestinos, na Ucrânia… quantos mais queira. No Panamá, na Nicarágua, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Chile… e na subserviente, conivente e cúmplice comunidade europeia.
É isso que eu realmente sinto. Sinto muito.
Esse capitalismo perverso está, a cada dia, mais nos aproximando de um “inferno” qualquer.
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/11/falencia-moral-do-ocidente-%f0%9f%92%a9%f0%9f%a4%a2/
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/10/depois-que-barack-obama-o-maior-bombardeador-de-todos-os-tempos-recebeu-o-premio-nobel-da-paz-esse-premio-perdeu-o-sentido-original/
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/16/desta-vez-com-o-silencio-cumplice-e-conivente-dos-branqu/
Republicando…
https://gustavohorta.wordpress.com/2025/10/17/o-que-eu-sinto-sinto-muito-a-viagem-dos-argonautasgustavo-horta/