O preço da palavra e o custo do silêncio – por Carlos Pereira Martins

O preço da palavra e o custo do silêncio

por Carlos Pereira Martins

 

Por tudo e por nada, por dá cá aquela palha, dou comigo a pensar no que se poderia fazer, ou, melhor dizendo, no que eu faria, se acaso tivesse poder para “fazer”. Digo isto com plena consciência da minha própria vaidade e do meu pretensiosismo, mas também com o desconto que sempre aplico às minhas reflexões: não me coloco em bicos de pés, nem as tomo por verdades absolutas. São apenas pensamentos, racionais quanto possível, sobre um mundo que nos desafia a pensar, mesmo quando gostaríamos de não o fazer.

Vivemos num tempo em que a informação, ou o que dela resta, nos entra pela casa dentro a cada minuto, como um enxame de abelhas furiosas. O horror é constante, insistente, invasivo, e parece querer formatar-nos o espírito.

Muitos dos meus amigos aconselham-me: “Não vejas, não ligues a televisão, o mal é veres”.

E, no entanto, a minha razão responde-lhes — quase por instinto — que é precisamente isso que o poder quer: que nos calemos, que desviemos o olhar, que deixemos de ver. Ora, eu acredito que é essencial ouvir, mesmo o que nos repugna; ver, mesmo o que nos fere; saber, para poder resistir. Porque só o conhecimento, mesmo do que é feio, nos dá instrumentos para lutar contra o horror.

E é então que me ocorre, se tivesse eu poder para mudar o que nos aflige, o primeiro decreto que assinaria: acabaria, de uma vez por todas, com a praga dos “comentadores”. Sim, esses falsos especialistas em tudo e em nada, pseudojornalistas travestidos de analistas, fabricantes de opinião instantânea e criadores de conteúdo que pouco ou nada criam. O país, e talvez o mundo, ganhariam logo uma nesga de saúde mental. Os olhares cansados talvez readquirissem um brilho perdido, e os sorrisos, hoje rarefeitos, voltariam a insinuar-se nos rostos das pessoas comuns.

A liberdade de imprensa é, sem dúvida, uma das mais belas conquistas da democracia — uma pérola, frágil e luminosa. Mas essa liberdade exige responsabilidade. Os artigos deviam ser assinados, as opiniões assumidas e os editoriais redigidos com transparência e coragem moral. O circo mediático que hoje domina o espaço público, corroendo a confiança e o Estado de Direito, não é liberdade: é ruído, é manipulação travestida de debate.

Há uma legião de pessoas a quem pagamos, directa ou indirectamente, para nos destruírem o sossego, para nos toldarem o pensamento, para nos minarem a esperança. Dir-me-ão: “Mas são empresas privadas, pagas pelos seus accionistas”. Engano profundo. Nenhum privado renuncia à sua margem de lucro; e se paga a preço de ouro o seu exército de comentadores e marionetas, fá-lo à custa dos consumidores, isto é, de nós todos. A farsa é cara, e só há palhaços porque há quem pague o circo.

E a verdade é que, neste país, poucas empresas podem dizer-se verdadeiramente privadas. Todas, de uma forma ou de outra, bebem da mesma fonte: o Estado. Recorrem a subsídios, a fundos públicos, à publicidade institucional, a incentivos e “mecanismos de apoio” que se multiplicam como cogumelos após a chuva. E, quando os lucros aparecem, às vezes obscenos, corre-se logo a engendrar “engenharias fiscais”, habilidosas e disfarçadas, para pagar menos impostos. Mas se o negócio dá para o torto, então já se exige que o Estado intervenha, salve, nacionalize.

Não é uma acusação, é uma constatação: o sistema está montado assim, e assim se perpetua.

A BANCA, OUTRO EXEMPLO ACTUAL

Poderia continuar a enumerar desmandos e contradições, mas detenho-me na Banca, esse poder quase místico que tudo atravessa. Tive o privilégio de trabalhar, nos anos 90, ao lado do Dr. José Luís Sapateiro, que daria nome a uma lei fundamental sobre a publicidade bancária e o mercado de capitais. Recordo ainda a fusão das Bolsas de Lisboa e do Porto, conduzida pelo malogrado Presidente Veiga Anjos, e a criação da Central de Valores Mobiliários em que participei, que pôs fim aos títulos físicos, em papel. Uma revolução, quase tão profunda quanto a invenção da máquina a vapor.

Na altura, legislou-se para uma Banca regulada, transparente, proibida de iludir o cliente com promessas fáceis e anúncios cor-de-rosa. Era o tempo em que se exigia rigor nos balanços, verdade na publicidade e seriedade nos produtos financeiros. Com um código de publicidade financeira incluído na lei.

Hoje, tudo isso parece um sonho antigo. Vende-se um produto bancário como quem vende um gelado. Prometem-se rendibilidades, “segurança”, “simplicidade”, mas omitem-se as perdas possíveis, os riscos, a verdadeira situação das instituições emissoras. Os anúncios televisivos são uma sucessão de sorrisos falsos e slogans ocos, e o consumidor, ingénuo ou cansado, acaba por acreditar. “Faça como cinco milhões de europeus que já aderiram ao XPTO!”, dizem-nos. E lá vai o cidadão comum, confiado, até ao dia em que percebe, tarde demais, que foi enganado.

Se me fosse concedido algum poder sobre este sector, começaria por impor transparência e moralização. Reduziria de imediato os prémios e ordenados obscenos dos administradores — esses salários pornográficos que insultam os que realmente trabalham. Porque, mais uma vez, quem paga tudo isto não são os bancos, nem os accionistas: somos nós, os clientes, os contribuintes, os trabalhadores de vencimentos modestos.

Há os que entram numa instituição para servir, e há os que entram para se servir dela. Uns trabalham; outros, manobram. Uns ascendem pelo mérito; outros, pelos cartões partidários.

Tomemos o exemplo recente de um grande banco nacional que se orgulha de bater recordes de lucros, semestre após semestre. Não há milagre: o segredo está nas comissões absurdas, cobradas por tudo e por nada, e no encerramento contínuo de balcões, condenando idosos e pessoas vulneráveis a fazer quilómetros para receber uma reforma que mal lhes chega para viver. É a vitória do lucro sobre o respeito, da eficiência sobre a dignidade.

Não tenho ilusões: sei que não posso salvar o mundo, nem “ir a todas”, como se costuma dizer. Mas, se tivesse poder, por um breve instante, tentaria apenas restituir alguma decência ao espaço público, alguma verdade à palavra dita, algum equilíbrio ao que hoje é uma pantomina.

Porque, no fim de contas, o que verdadeiramente nos falta não é informação — é serenidade, justiça e humanidade.

 

 

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