Uma pesquisa do IUAV – Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, no âmbito de um projeto denominado Looking Into the Dark. For a new epistemology and public action on territorial inequalities, acaba de desvelar na sua crueza a alarmante desertificação demográfica nas ilhas que compõem o centro histórico de Veneza.
O tipo de fenómeno observado costuma associar-se a áreas do interior ou a aldeias nas montanhas; mas, pelo contrário, ao comparar os dados disponíveis sobre o Município de Veneza com outros a nível regional e nacional, a pesquisa destaca que o despovoamento da área veneziana insular é muito mais rápido do que o das áreas do interior. Em particular, entre 2011 e 2020, os residentes no centro histórico de Veneza diminuíram -13,21%, face à média nacional de -0,33% e à média regional, que registou um crescimento de 0,29%.
Em geral, no seu todo o município de Veneza perdeu 13,13% dos seus residentes nas últimas três décadas. Entre 1994 e 2024, a área insular constituída por Veneza, Murano e Burano perdeu quase um terço (32,78%) da população residente, arrastando o declínio demográfico de todo o município, incluindo a chamada “terra-firme” (a Veneza não insular). O colapso demográfico parece estar intimamente ligado à indústria do turismo e ao fenómeno da turistificação.
A quebra no número de residentes tem graves consequências nos serviços essenciais. Assim, as escolas têm turmas cada vez mais pequenas; por outro lado, o corte nos serviços de saúde vai de encontro à forte tendência de envelhecimento da população. A população residente, de facto, é bastante idosa: em 2020, 31,83% dos residentes tinham mais de 65 anos (face a um média nacional de 23,24%), enquanto a população jovem (com menos de 15 anos) representava em 2020 apenas 9,81%, com uma redução adicional para 8,63% em 2024.
O estudo realizado sugere que todos os lugares tocados pela turistificação se expõem ao risco de desertificação e propõe-se a fornecer ferramentas aos decisores políticos, alertando que, a este ritmo, uma cidade como Veneza corre o risco de extinção, não por catástrofes naturais, mas por êxodo demográfico.