Desculpem -me a franqueza, sinto o dever de não me acobardar
por Carlos Pereira Martins
Desculpem a franqueza, mas as coisas são mesmo assim. Depois de alguma contenção emocional até se apurarem os factos, só me restava aceitar e concordar, por escrito ou da boca para fora. Assim o fiz.
Mas não podia revelar nem pôr em causa quem me deu a informação — informação que hoje posso comentar abertamente, porque já está publicada no jornal Público.
A senhora estava mesmo a ser acompanhada medicamente; não era uma “paraquedista” desconhecida no sector da saúde português. Por isso, compreendi os comentários que me fizeram, embora, na verdade, tenham sido irrelevantes e, em certa medida, reveladores do muito corporativismo que sempre grassou nas classes profissionais, neste caso, nos médicos.
Vieram, inclusive, de alguns médicos meus amigos. Ainda assim, eu tinha outras informações, das quais cheguei a duvidar, antes de se tornarem públicas. Fui prudente, assumi o politicamente correcto, e calei-me. Mas agora, com os factos confirmados, não há mais reservas emocionais possíveis: isto é desumano.
A verdade é que, durante grande parte da minha vida, sempre vi os médicos ajudarem quem estava doente, sofredor ou em aflição, sem se perguntarem primeiro de onde vinha ou quem era. Ajudava-se. Depois tratava-se do resto.
Hoje, parece que isso acabou. A frieza instalou-se — talvez pelo “climate change” dos valores, ou por outro tipo de gelo que se espalhou nas consciências. O médico, em muitos casos, felizmente ainda há os “bons”, deixou de ver o doente como pessoa e passou a vê-lo como um caso, um número, uma peça a reparar — e só se tiver seguro de saúde, ADSE, SAMS, ou se o SNS ainda o conseguir suportar, o tratam adequadamente como um paciente.
É por isso mesmo que reafirmo: os valores da Fraternidade e do Humanismo são essenciais. Precisamos urgentemente de os reintroduzir em todas as profissões, na sociedade, e sobretudo no poder político.
Que bem me fez escrever isto!
Mas, como sempre, é o lado mais fraco que se demite, ou é empurrado a fazê-lo. A ministra da Saúde, mais uma vez, sacudiu a água do capote. Disse, com a frieza habitual, que “lamenta profundamente” o sucedido e que “a minha equipa falhou”.
Lamento, mas isto já não chega.
Não é de lamentos que o país precisa, é de responsabilidade, de humanidade e de decência política.
A ministra fala como se nada tivesse a ver com o sistema que dirige, como se o desastre tivesse acontecido num outro país. Mas foi sob a sua tutela, nas estruturas que gere, que uma mulher grávida de 38 semanas morreu, e com ela a filha que poderia ter vivido. Foi neste mesmo sistema, que ela defende cegamente, que alguém com sintomas claros foi mandado para casa, e acabou por voltar em paragem cardiorrespiratória.
Há limites para a negação e para o cinismo. Quando a morte bate à porta de um hospital público, duas vidas se perdem, e a resposta do poder é apenas um comunicado e umas palavras eivadas de cinismo e argumentos xenófobos de circunstância, então algo está profundamente errado.
Falta humanidade, falta humildade, falta coragem para assumir responsabilidades.
Durante décadas acusámos outros de se agarrarem ao poder. Hoje, vemos o mesmo, uma ministra agarrada ao cargo como uma lapa à rocha, incapaz de olhar nos olhos do país e dizer: “falhámos, e eu também falhei.”
Em Portugal, continua a ser mais fácil mudar directores e culpar equipas do que ter a dignidade de se retirar quando a confiança se perde. É sempre o outro que cai, nunca o poder que falhou.
Este caso não é apenas um acidente clínico: é um espelho cruel da forma como o Estado trata quem mais precisa, com frieza, com distância, e com discursos vazios.
Duas vidas se perderam. Mas também perdemos todos um pouco da nossa humanidade.
Epílogo: o problema maior — a cultura de impunidade
Vivemos num país onde a responsabilidade política foi substituída por gestão de imagem, e onde a moral pública cedeu lugar à sobrevivência partidária.
Quando um ministro falha, não cai — reorganiza-se a narrativa. Quando uma tragédia acontece, não se pede desculpa, emite-se um comunicado e aceita-se a demissão dos mais fracos.
E quando a confiança do povo se esgota, não se usa reflectir, culpam-se “as equipas”, “os serviços”, “os outros”.
Esta cultura de impunidade e desresponsabilização é a verdadeira doença do nosso sistema.
A ministra da Saúde é apenas o rosto mais recente de uma prática antiga: a de que o poder nunca responde, nunca sente, nunca abdica.
Enquanto não houver quem tenha a coragem moral de dizer “basta” — de assumir que a função pública é, antes de tudo, um serviço à vida e não um exercício de vaidade, tragédias como esta continuarão a repetir-se, com novos nomes, novas desculpas e o mesmo frio silêncio institucional.
E, nesse dia, quando mais uma vida se perder, voltaremos a ouvir as mesmas palavras de circunstância, os mesmos comunicados redigidos por assessores, e o mesmo vazio político de sempre.
Mas nós, cidadãos, não podemos calar-nos.
Porque a indiferença é a última fronteira antes da barbárie.

