A DANÇA – por Adão Cruz

 A DANÇA

por Adão Cruz

Ao fim de uma longa vida como a minha, não posso esperar que a memória me proporcione o que dela eu gostaria de esperar. No entanto, felizmente, ainda que não em termos de pormenor, ela permite-me avivar recordações que há muito se encontram no fundo do esquecimento.

Há largos anos, um amigo, Professor ou Director de uma escola de dança situada num edifício da Avenida dos Aliados no Porto, disse-me que gostaria de criar um espectáculo de dança inspirado na minha pintura, pela qual nutria admiração e que, segundo ele, tinha muito a ver com o que ele sonhava. Fiquei de boca aberta, pois não via na minha pintura qualquer tipo de relação com a dança, mas disse-lhe que tinha toda a minha autorização para fazer o que quisesse. Estas são algumas das fotografias da sua criação artística (1), na qual estive presente como “convidado de honra”. Como se não fosse suficiente e, digo-o com humildade, imerecido, alguém me pediu para escrever um texto sobre A DANÇA. Não percebendo rigorosamente nada, do ponto de vista técnico-científico, sobre Dança, tentei entendê-la e transmiti-la animicamente como forma de expressão artística. Aqui vai, para quem tiver qualquer interesse em ler.

A Dança

A dança é uma arte. A arte é uma relação de vida. A montante e a jusante existem emoções que conduzem a sentimentos e reflexões quer do artista quer daqueles a quem ela é dirigida. Portanto, a dança como forma de expressão artística tem um papel educativo de relevo na estruturação do indivíduo, no seu desenvolvimento físico, estético, emocional e sentimental. Com origens ancestrais, a dança, através da expressão e formação motora tem necessidade da sua intrínseca expressão corporal para gerar e transmitir toda a espécie de emoções geradoras dos mais diversos sentimentos.

A emoção, o sentimento e a razão andam de mãos dadas na formação e desenvolvimento da personalidade. As grandes ideias, filhas dilectas da razão, são o fruto de grandes emoções e sentimentos. A dança é reflexo e resultado de um todo neuronal que impulsiona o comportamento humano. Toda a reacção do organismo é comandada por neurónios, numa admirável cadeia que vai da emoção à cognição. A dança, sobretudo através de emoções e sentimentos de natureza estética, educa a razão, e com ela todo o comportamento na sua globalidade. Daí, ser um complemento educativo de alto valor. Vivendo essencialmente da linguagem corporal, gestual e mímica torna-se universal no movimento e na simbologia que transmite. Esse movimento tem de ser interiorizado, sentido e vivido por quem o executa, e elevado ao expoente máximo da expressividade para ser transmitido aos outros e também por eles vivenciado. É esta construção interior do dançarino a alma que o forma e enriquece. O artista tem de ser dotado da energia, sensibilidade, rigor, capacidade de entrega e de reciprocidade, de modo a viver como sua a fruição estética que cria nos outros. A dança é uma arte por excelência, e como arte que é, cria um indefinível prazer interior na reciprocidade das sensações que é capaz de gerar. O corpo, na sua expressividade artística, dialoga consigo próprio e com os outros, criando beleza e harmonia entre o pensamento e a razão. Daí, a dança ser, para além de um fenómeno artístico e estético, um fenómeno cultural, social e educativo, e também uma espécie de catarse libertadora de energias e tensões. A dança e a música completam-se, numa simbiose de gestos e sons, contribuindo assim para a harmonia e equilíbrio total do ser humano. Como toda a arte, é dinâmica e integracionista. Daí a sua importância na Educação, ao ser capaz de demolir barreiras, preconceitos, inibições e constrangimentos. Qualquer criança se manifesta desde muito cedo por movimentos corporais mais ou menos rítmicos ou expressivos. Pena é que nem sempre sejam devidamente aproveitados e conduzidos, muitas vezes devido a preconceitos sexistas em relação a esta forma de arte, especialmente em certas sociedades. Penso que há sempre uma predisposição natural, diria mesmo genética, para qualquer manifestação precoce de arte, particularmente nesta. Uma predisposição corporal que pode facilitar a aprendizagem. Contudo, o corpo pode e deve ser educado, moldado, criar adaptações ao movimento de modo a transformá-lo em arte. Aqui é fundamental o papel do professor na orientação e interiorização da actividade criadora. Conhecendo melhor o seu corpo e a capacidade de vivenciar as emoções e os sentimentos, mais segura e criativa se tornará a pessoa no difícil caminho da arte. Pela sua importância na formação do indivíduo e da sociedade em geral, a dança devia ser uma disciplina curricular obrigatória, não só pelo inquestionável valor artístico e estético, mas também pelo seu poder relaxante e gerador de saúde física e mental. Segundo a ciência que hoje se conhece por psiconeuroimunologia, a dança tem um papel importante no combate à vulnerabilidade à doença. Está provado que situações de stress, de desemprego, de guerra, de pandemia, de conflitos conjugais, de luto, de fortes estados emocionais põem em causa o equilíbrio do organismo, aumentando o risco de doença. A criação de estratégias para lidar com estes traumas e procurar evitar os seus efeitos nefastos pode passar por esta forma de arte. Na escola, a dança pode ajudar à concentração, ao método, à auto-estima e autoconfiança, podendo mesmo ajudar a resolver muitos dos problemas disciplinares com que a Escola hoje se depara. Seria um meio de criar sensações positivas, veiculando valores e sentimentos de solidariedade, de fraternidade, de respeito mútuo, ajudando a construir um ambiente mais saudável nas escolas e um mundo bem melhor do que aquele em que vivemos.

 

NOTA

  1. O autor juntou ao seu texto 23 fotografias. A selecção das 4 fotografias que se publicam é da inteira responsabilidade do editor. AGM

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