COM A PAZ EM RISTE
No capim, os malmequeres são da cor
Mais parecida com os brinquedos da infância.
Basta sonhá-los com a nitidez das ondas da Foz.
Mas não, não há malmequeres. Apenas uma vontade
a vestir de jardim o suor armado das saudades da casa.
O medo faz emboscadas ao sossego e a música
Sai de instrumentos com gatilho.
Um gato procura o dono nas estepes da sala,
mas só encontra uns chinelos vazios
e restos de um relógio branco.
Um ruído ensurdeceu as paredes e mutilou a liberdade
Sob uma bandeira insana que sobrevoa o planalto.
As nuvens são repetidamente violadas pelo último grito
Das mais inteligentes armas disponíveis
Para que as mais estúpidas criaturas
Produzam as mais estúpidas tragédias.
A loucura tem asas que são sismos
E também aparece, de repente, nos primeiros céus
Dos primeiros anos de uma infância que não vai ser.
A criança fica um deserto sem pontos cardeais
E a sua escola exibe, sílaba a sílaba, um monte de tijolos
e corpos pequenos que não irão envelhecer.
Longe, demasiado longe, onde o calor e o gelo não têm gumes,
E onde alguma tranquilidade permite juntar a indignação que cresce
Alguém se ergue, com a paz em riste, nos joelhos dos arbustos
Tentando impedir a crucificação do Amor
E acenando com nascentes claras e pedras sem sangue.
São homens, com pássaros dentro dos olhos,
Poetas e artistas anónimos que não calam a revolta
Que não aceitam o silêncio doente das circunstâncias
E que estilhaçam os vértices quadrados da guerra,
E que procuram saídas, e que procuram a paz,
E que procuram a liberdade que sufoca
Nos penhascos da indiferença que é hoje.



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