As sílabas marginais/COM A PAZ EM RISTE/Nelson Ferraz

 

COM A PAZ EM RISTE

 

 

 

No capim, os malmequeres são da cor

Mais parecida com os brinquedos da infância.

Basta sonhá-los com a nitidez das ondas da Foz.

 

Mas não, não há malmequeres. Apenas uma vontade

a vestir de jardim o suor armado das saudades da casa.

O medo faz emboscadas ao sossego e a música

Sai de instrumentos com gatilho.

 

Um gato procura o dono nas estepes da sala,

mas só encontra uns chinelos vazios

e restos de um relógio branco.

Um ruído ensurdeceu as paredes e mutilou a liberdade

Sob uma bandeira insana que sobrevoa o planalto.

 

As nuvens são repetidamente violadas pelo último grito

Das mais inteligentes armas disponíveis

Para que as mais estúpidas criaturas

Produzam as mais estúpidas tragédias.

 

A loucura tem asas que são sismos

E também aparece, de repente, nos primeiros céus

Dos primeiros anos de uma infância que não vai ser.

 

A criança fica um deserto sem pontos cardeais

E a sua escola exibe, sílaba a sílaba, um monte de tijolos

e corpos pequenos que não irão envelhecer.

 

Longe, demasiado longe, onde o calor e o gelo não têm gumes,

E onde alguma tranquilidade permite juntar a indignação que cresce

Alguém se ergue, com a paz em riste, nos joelhos dos arbustos

Tentando impedir a crucificação do Amor

E acenando com nascentes claras e pedras sem sangue.

 

São homens, com pássaros dentro dos olhos,

Poetas e artistas anónimos que não calam a revolta

Que não aceitam o silêncio doente das circunstâncias

E que estilhaçam os vértices quadrados da guerra,

E que procuram saídas, e que procuram a paz,

E que procuram a liberdade que sufoca

Nos penhascos da indiferença que é hoje.

 

 

 

 

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