Vieram há uns dias ter comigo uns textos de Wade Davis, um escritor canadiano, mas também antropólogo cultural, etnobotânico e escritor. Não deve dizer muito a grande parte de todos os que fazem o favor de ler estas ‘Cartas de Braga’, mas talvez sejam atraídos pelo título, como eu fiquei. Um título simples na escrita, mas complicado pelo que poderá querer dizer, ‘O que significa ser humano?’
É um texto longo do qual não posso, nem devo, fazer aqui uma resenha, mas não sou capaz de a partir dele chamar a atenção para uma série de factos do momento presente, em diversos lugares do mundo, começando por uma pequena frase que ali li, ‘A crise da biodiversidade e as mudanças climáticas, não foram causadas pela humanidade como um todo. Elas surgiram como consequência de uma visão de mundo específica, relativamente nova na experiência humana, e não compartilhada pela maioria das culturas do mundo’.
E parte depois para uma série de considerações –que vão pôr os cabelos em pé a muita gente– como ‘Os últimos estudos sobre o genoma humano, não deixam dúvidas de que a herança genética da Humanidade é um único continuum, e raça é uma ficção absoluta’. Mas Davis não se fica por aqui, ‘Somos todos irmãos e irmãs, todos descendentes de ancestrais comuns, todos filhos de África. A cor da pele «explorada por gerações como a mais cruel das presunções humanas» nada mais é do que uma adaptação básica; pessoas em climas tropicais precisam de protecção solar, ou melanina, e aquelas que vivem longos Invernos no hemisfério norte, precisam maximizar a exposição ao sol, para absorver vitamina D; no fim das contas, preto e branco só se resumem à protecção solar e à vitamina D, nada mais’.
E, por tudo o que li, àquela pergunta pode responder-se em 7.000 línguas diferentes o que significa que cada cultura tem alguma coisa a dizer, porque afirma também Wade Davis, ‘Cada cultura realmente tem algo a dizer, e cada uma merece ser ouvida, assim como nenhuma detém o monopólio do caminho para o divino’. Deduzo por isso que nenhuma delas. está incluída nos parâmetros da meritocracia e outras afins.
Arend van Dam, ‘COP-30’
‘Le Monde’, 25.11.11
Seguindo agora ‘Le Monde’, mas ainda deste tema, Roque Yaxikma, presidente dos Povos Wai Wai, da Amazónia brasileira até ao Guiana, pediu à COP 30 para serem feitas as demarcações das terras indígenas, o processo administrativo para reconhecer e garantir essas terras aos seus povos, que passa por diversas etapas até o registro, mas salientando, ‘Somos pouco ouvidos dentro da COP 30, o mesmo que com outros representantes e federações’, e aproveitou para falar das más condições do alojamento cedido aos povos indígenas, ‘Eu sou floresta, somos todos floresta, é nossa casa, nosso prédio, nossa vestimenta’.
Este é o melhor exemplo das contradições da COP 30, a acontecer na Amazónia pela primeira vez, mas onde as empresas, governos e a mesma COP, não abrem espaço para dialogarem com as comunidades que ali vivem, que são sempre as mais afectadas pelas decisões da Conferência. Convém lembrar o Acordo de Paris, o tratado internacional aprovado por 195 estados-membros das Nações Unidas já durante a COP 21, que visava diminuir os impactos causados pelas mudanças climáticas.
Dez anos depois, uma boa parte desta COP, é sobre o Artigo 6 por estarem em questão os ‘mecanismos de acreditação dos países’, acções, projectos e políticas públicas, relacionadas com o movimento sustentável, que podem ser contabilizadas e medidas a partir da relação da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) dos diferentes países. ‘Esse artigo parece ser já uma falsa solução. É um artigo complicado por não lidar com processos reais de transformação, nem com mecanismos de financiamento público. É um artigo resultante do lobby das indústrias de combustível fóssil, e reflecte interesses muito específicos’, afirma uma das investigadoras convidadas para a COP 30.
Aliás e baseando-me em Pierre-Etienne Franc, colunista do ‘Grand Continent’, no passado dia 12, salientando a visão do Secretário da Energia, Chris Wright, a quem chama ironicamente ‘o czar dos fósseis’, e ‘orientador técnico’ do senhor do mundo que vive na Casa Branca; traz também à colação um artigo deste no “The Economist”, onde o primeiro ponto de análise de Chris Wright é considerar a energia como o combustível fundamental e essencial da ambição humana, ontem, hoje e, ainda mais, amanhã. Como tal, ela deve ser liberada em todas as suas formas, para permitir à humanidade realizar todos os seus projectos, sejam eles virtuosos ou não.
Mais acrescenta o tal ‘czar’, que não devem ser impostos limites ao consumo e ao gasto de energia, desde que isso permita à humanidade continuar sua busca insaciável por todos os superlativos prometidos pela imaginação. Na visão de Wright, isso tudo se aplica, antes do mais, ao povo e ao território americano, a terra da iniciativa, e, incidentalmente, talvez, ao resto do mundo.
Mas outro problema nasce desta lógica colonialista da COP 30, a ver por este título ‘O Norte paga ao Sul em troca de poder poluir mais’. Na verdade, ‘Os mercados de carbono permitem que os países comprem direitos de emissão de terceiros, para cumprir seus compromissos de redução, transferindo assim a dívida de carbono. Este instrumento está a ganhar destaque na cimeira do clima. Ambientalistas e especialistas alertam que poderá violar os direitos fundamentais, das comunidades locais, no Sul Global’.
O especialista ambiental e professor universitário Marcel Llavero, afirma ao ‘Publico.es’ do dia 15, que tudo se baseia nos créditos de carbono, dando origem a dois tipos de mercado: os de conformidade e os voluntários. O primeiro envolve licenças de emissão que empresas ou estados devem comprar, quando ultrapassam os limites definidos por governos ou tratados internacionais. O segundo, envolve a compra e venda de créditos para cumprir compromissos individuais. Assim, empresas ou estados podem optar por reduzir suas emissões, gerando, créditos que podem ser comprados por terceiros, ou comprar essas licenças para assim, de jure, poderem reduzir a sua poluição.
Apesar de tudo, e dos czares e senhores envolvidos em todas estas contradições, compras, vendas, povos e comunidades, fronteiras e regiões de que quase nunca nos lembramos, acrescento ainda a opinião de Pierre Jérémie, outro colunista do ‘Grand Continent’ na edição do dia 10, ‘No entanto, a Europa tem um papel especial a desempenhar para fazer desta COP uma ‘COP do povo’; é a forma de impedir que os opositores reaccionários do processo climático, a possam caricaturar como um objecto ‘isolado’ da diplomacia multilateral, desconectado das realidades concretas e da experiência das populações’.
E quem aqui, neste Europa, poderá ‘manter a espinha direita’ frente a tais czares e senhores, com ou sem gravata até aos joelhos?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor



