O 25 DE NOVEMBRO NÃO CHEIRA BEM
por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
O 25 de Novembro cheira mal. Cheira a PIDE.
Muitos dos filhos do fascismo resolveram exumar o pai e o cheiro é insuportável. Cheira a morte, a violência, a ódio e a vingança. As pessoas desconhecem a onda de ódio e vingança anti-Abril a seguir ao 25 de Novembro, e deixam-se facilmente enganar. Fica-se com a impressão de uma violação do cemitério onde se enterrou o fascismo, trazendo para a luz o que às trevas pertence. Os filhos do fascismo querem compará-lo ao 25 de Abril, que é como comparar o cheiro a fossa com o perfume dos cravos.
As comemorações do 25 de Novembro, visando a sua promoção mediática e a sua implantação como revolução libertadora, a par de encrencadas conversas e reservas sobre o 25 de Abril, criam uma sensação de que o canceroso 24 de abril, ao fim de muitos anos, apresenta metástases por todo o lado.
Sente-se o poder da indignação, quando as grosseiras vozes da mentira pretendem reescrever a História, comparando o seu dissonante palavreado com a voz doce e poética do 25 de Abril.
Sente-se a nobreza do carácter, da dignidade e da verdadeira democracia perderem-se em notas roufenhas de uma desconjuntada sinfonia de um velho mundo fantasmático.
O 25 de Novembro não cheira bem, talvez porque o clister tenha deixado Portugal com os canais pouco limpos, talvez porque as digestões foram difíceis, os sais de frutos insuficientes e o fedor das eructações e flatulências tenham envolvido a comunicação social na permanente tarefa de ajudar a criar e promover pessoas sem formação e sem estrutura política, destinadas à antipedagógica função do esvaziamento constante e progressivo da mentalidade popular.
O 25 de Novembro cheira mal, ao tentar comemorar, com eufemística intenção, a negação de profundos fenómenos históricos, de vincado carácter sociocultural, metendo no mesmo saco toda a espécie de sujos interesses individuais e conjunturas grupais escandalosas. Com apoio externo, financiou a desordem com uma das mãos, proclamando a ordem com a outra. O 25 de Novembro não cheira bem ao conviver e convidar para a sua festa inúmeros seropositivos do vírus fascista e alguns cadáveres políticos putrefactos. Tudo devemos fazer para combater o branqueamento do fascismo no seu traje moderno e engravatado, denunciando por todos os meios possíveis a poderosa, vergonhosa e escandalosa desinformação.
A democracia e a liberdade cheiram a perfumados cravos vermelhos. A despeito da democracia se encontrar internada e doente, tudo devemos fazer para a resguardar das infecções e para a salvar. Há pessoas que têm dentro de si uma constante sensação de paisagem, seja ela o universo, a terra, uma floresta, um rio ou a humanidade justa e pacífica.
Outras há que limitam seus horizontes a pequenos mundos de execrável cosmética, tentando de todas as formas roubar o sol que é de todos e apagar a luz que troca a indigência mental pela inteligência.
Se não somos capazes de dimensionar a existência à escala da vida, a vida à escala do mundo, o mundo à escala da História, a História à escala da paz e da justiça, não podemos viver à escala da Verdade. E teremos o direito de pensar que o ser humano pode ter sido a pior coisa que apareceu no planeta.
Sem Educação e Cultura nada pode haver que mereça a vida. Com Educação e Cultura tudo é possível, desde paz, saúde, ausência de fome e crueldade no mundo. Só a Educação e Cultura podem gerar governações honrosas e uma tenaz resistência ao revivalismo neofascista.
O 25 de Novembro cheira mal, mas está longe de abafar o perfume dos cravos.



Extraordinário e tempestivo texto!