CARTA DE BRAGA – “de um ex-amigo que já nem está” por António Oliveira

Amanhã é dia recordar, de lembrar passos e atitudes que nos ‘levaram’, (a cada um de nós), a tomar consciência de fazermos parte de uma comunidade e de uma sociedade em que ‘o bem de um é o bem de todos’, coisa que só aprendemos (não todos!), depois de cinquenta anos de uma selvajaria institucional, dependente da autoridade de um homem só, que vivia mergulhado nessa solidão, e para quem o mal dos outros seria refresco! Valeu-nos uma cadeira de praia avariada, ou com um parafuso já partido!

Mas essa recordação arrasta outras, as que não queremos largar, como a da D. Narcisa, por ser uma senhora linda, sorriso bonito e olhos vivos, a fazer o encanto de um rosto onde mal se notavam os mais de noventa anos que fazia questão de afirmar!

Não lhe conhecia família, (sabia que tinha tido uma mancheia de filhos, mas a sua casa era um quarto que tinha alugado num lar de idosos), ‘Vivo numa casa onde nada me falta, tratam-me muito bem e nem me deixam sair se está frio ou chuva, tudo o que me possa fazer mal!

O quarto era bem perto da pastelaria onde sempre tomo café e, às vezes, até almoço, e o dono considera-me um amigo, um estabelecimento próximo também dos lugares que frequento para fazer compras para mim e para casa.

Um dia fui ter com ela na rua, atraído por aquele sorriso que já me andava a fascinar havia tempos e o carinho que encontrei e punha em tudo o que dizia, levaram-me depois a olhar sempre em volta a ver se a via.

E encontrava-a com o mesmo sorriso com que a tinha deixado, muito carinho no reencontro e muitas encomendações na abalada, sempre depois de um pouco de conversa! Passou a ser um sorriso importante para me alindar o dia!

E um dia 2 de Novembro, quando fez 94 anos, oferecemos-lhe, eu e minha esposa, uma carteirinha preta, com um pompom de pele, pendurado numa das asas, que ela passou a usar na voltinha diária que dava no Braga Parque.

E quando eu entrava na pastelaria para o meu café, já lá estava o Senhor João a ler o jornal diário, debruçado sobre a mesa. Também para lá me dirigia antes de me sentar, cumprimentávamo-nos com a estima ganha nos contactos já havidos antes. Andaria pelos setenta e alguns anos, estava já reformado da oficina onde me cuidavam e ainda cuidam do carro.

Mais outro rosto onde o sorriso ainda é permanente, tão grande como a delicadeza e a simpatia e, às vezes, depois da sua leitura das notícias, ainda conversámos sobre a vida e quefazeres, por nos conhecermos e respeitarmos.

A Dona Narcisa e o Senhor João faziam e fazem parte da minha vida –mesmo depois de ela já ter partido– pela maneira como estavam na deles e serem, então, também vivas lições para mim.

A viver por ali, nas redondezas do café em que o dono me tratava e trata como um amigo, vivia ainda uma pessoa que acreditei também o ser. Culto, artista, vindo de boas famílias que citava em todas as ocasiões, assim como a ligação ou amizade com as mais conhecidas da cidade, mantinha sempre distância quando me dirigia à D. Narcisa e ao Senhor João, principalmente depois de lhe ter dito o que ele fazia antes.

Culto e artista, a quem até ofereci os meus livros já editados naquela altura, mas um dia, e pelo telefone, salientou uma vez mais uma afirmação com que me vinha massacrando havia já uns tempos, ‘Tem de saber que eu sou um aristocrata!’ Acrescenta depois, com a intenção nítida de magoar ‘É por isso que até nem leio os seus livros!’ e dispara a justificação logo a seguir, ‘É só gentinha, à maneira do Raul Brandão, mas sem o dramatismo dele!

E sem dramatismo, por a crítica ser também de cunho pessoal e livre, disse-lhe calmamente das minhas origens, tão próximas eram das daquelas duas pessoas, a D. Narcisa e o Senhor João e, por isso, ainda acrescentei que nunca mais o queria ouvir, nem saber dele! Uma história banal, com um vaidoso amigo que até já nem é, e tão pouco está, por também já ter partido. Talvez por lá encontre a D. Narcisa! Nunca é tarde para aprender!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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