NATAL – por Adão Cruz

NATAL

poema de Adão Cruz

Pintura de Adão Cruz

Por este mundo tão bárbaro

não vale a pena lutar

eles o fazem e refazem

e o desfazem a matar.

 

O Natal é uma farsa

feita de olhos e de fome

Troca-se a fome por olhos

quem nada tem nada come.

 

Luzinhas de tantas cores

Santo Natal das canções

como é lindo ver morrer

tantos natais aos milhões.

 

Gente a sério só a deles

nas vidas há contas certas

vale mais uma das suas

do que mil vidas desertas.

 

É linda a democracia

de uma pureza castiça

o voto para a pilhagem

o veto para a justiça.

 

Natal meu Santo Natal

de plástico e de ilusões

abre os olhos duma vez

entre os anjos e ladrões.

 

Entre as balas e as pedras

a morte não é que mata

mata a sério e muito mais

a desvergonha e a lata.

 

O Natal é um embuste

uma constante mentira

põe à venda a hipocrisia

pouco dá e tudo tira.

 

Diz o rico para o pobre

que ele tem o céu à nascença

mas trocar é que não troca

não embarca nessa crença.

 

P’rás crianças deste mundo

eles já têm solução

uma granada na boca

a fazer de biberão.

 

Toda a festa do Natal

é folclore e fantasia

não dá nas vistas matar

entre paz e harmonia.

 

Como barris de petróleo

as crianças são milhões

alguma forma há-de haver

de fazer delas cifrões.

 

Para toldar as pessoas

vem o Natal a calhar

é triste a fome dos outros

nada há como rezar.

 

A podridão do planeta

não vem da merda do pobre

vem da cloaca dos grandes

muito maior e mais nobre.

 

Pela justiça infinita

matam-se homens e natais

e pela paz duradoura

nenhuma guerra é demais.

 

Morrem tantos que só o dizem

os olhos da lua cheia

a verdade não interessa

eles não valem tuta e meia.

 

O Natal está patente

neste mundo assassino

cada bala é uma estrelinha

cada rajada o seu hino.

 

Dou mil voltas ao miolo

no meio de tudo isto

e pergunto meio tolo

onde é que está Jesus Cristo.

 

 

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