Li, há algum tempo, uma crónica de um dos meus comentaristas de todos os dias –já nem me lembro quem, nem a propósito do que seria o tema– que começava por uma citação bíblica atribuída a José de Arimateia, um homem rico e pertencente ao Sinédrio da Judeia, que cedeu o túmulo que tinha mandado construir para si próprio, a fim de acolher o corpo de Jesus Cristo. E diz tal citação, ‘Pelos seus frutos os conhecereis’, que veio a converter-se em preceito bíblico, e me pareceu, a primeira vez que o ouvi, que as ‘colheitas’ até deveriam ser rápidas naquele tempo, fosse qual fosse o fruto e a ‘árvore’, física ou espiritual.
Lembrei-me depois estarmos já a mais de 2.000 anos de distância, e pensei no peso das engrenagens, nos pedidos e requisições a usar até nessas coisas, nas burocracias e nos interesses que haverá nos proprietários dos terrenos, dos plantios e dos trabalhadores, e entendi como o tal conhecimento poderia mesmo demorar anos, ou mesmo nunca chegar, por ter prescrito ou ter caído o armário onde estavam arrumados.
E lembrei-me também de ver e ouvir, nestes dias, um ministro de um país da Europa lamentar o uso que os estudantes (das classes mais vulneráveis), fazem das residências que o governo lhes concede, ‘É por isso também, já agora, que elas depois se degradam, por isso é que elas depois não são cuidadas’, acrescentando ainda ‘é assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas’.
E, com mais esta, temos já uma enorme quantidade de coisas, desde os processos que envolvam juízes e tribunais (por esta ordem ou pela inversa), forças mais ou menos policiais, políticas a até religiosas, para nos instalarmos em qualquer biblioteca ou hemeroteca, sem acesso reservado, e passar uns tempos ‘só para tirar apontamentos’; as mesas dos cafés e os balcões dos bares ‘mais melhor’ frequentados, também poderão dar pistas actualizadas (coisa que pratiquei também há alguns anos), com os cuidados devidos aos nomes e datas dos factos a investigar.
Mas, ao que parece, isto estará a atingir uma dimensão global e vou servir-me uma vez mais dos apontamentos que fui tirando da leitura diária de jornais e outras fontes que a internet me proporciona, para acabar de encher o espaço que aqui me concedem, e justificar o preceito com que comecei esta Carta; não estarão ligados entre si, nem referem um só tema, mas referem a imponderabilidade que nos comanda a vida de cada dia, que merece páginas e tempos nos media, e até cria ou afasta amigos e relações cordiais.
E começo por um artigo de Lluís Uría, subdirector de o ‘La Vanguardia’, cujo título que logo me atraiu, ‘O advento dos cavaleiros’. Principiava com uma afirmação já do conhecimento comum, sobre o crescimento e adopção do digital, ‘Não eliminaram o emprego humano; destruíram alguns empregos, mas criaram outros’. Cita depois o inevitável Musk, ‘Em vinte anos, o trabalho poderá tornar se opcional’ e Sam Altman, a força motriz por trás da OpenAI e do ChatGPT porque, são dele estas palavras, ‘A curto prazo, a IA ‘destruirá muitos empregos, mas, e ao mesmo tempo, gerará um crescimento significativo e criará novos tipos de emprego’.
Mas Lluís Uría deixa uma interrogação interessante para meditação geral, sobre o que será o futuro da IA, ‘Estaremos nós, humanos, fadados a terminar como cavalos, como força de trabalho descartável? Mudanças sociais drásticas estão no horizonte!’. E acrescenta mais um apontamento que nos conduz ao título: há dez anos, os economistas Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, autores de ‘A Segunda Era das Máquinas’, publicaram um artigo intitulado ‘Será que os Humanos Seguirão os Cavalos?’, pergunta a que também respondem, ao expressar confiança na capacidade da humanidade em corrigir tal tendência através do voto ou de protestos porque, ao contrário dos cavalos, ‘os humanos podem revoltar-se’.
Vamos agora para outro campo, que me foi ‘levantado’ por Carlos Fortea, colunista do ‘Nueva Tribuna’ um dos diários daqui ao lado, e onde este professor, escritor e tradutor, vai deixando as suas reflexões sobre o mundo agora, como neste breve apontamento, ‘O mal-estar provocado tanto dos casos de corrupção, como por comportamentos intoleráveis, leva-nos a questionar as muitas causas subjacentes a todo esse problema’.
Exemplo maior é o do proprietário da X, o tal Musk, ainda ajudante do trumpa, por ter pedido a ‘abolição’ da União Europeia depois de Bruxelas lhe ter aplicado a multa de 120 milhões de euros, pelo ‘design enganoso’ do selo azul de verificação de contas, por razões que vão desde a marca de verificação à falta de transparência, de uma maneira tal que, acrescenta a EU, ‘A desfaçatez com que Trump mistura negócios pessoais com assuntos de Estado não tem precedentes entre os presidentes anteriores’. E Bruxelas aperta mais o cerco às plataformas digitais, pois no passado dia 15, impôs multas que rondam os 4.000 milhões no último ano, diz o ‘El País’ da última terça feira.
E tenho mesmo de voltar ao gordo laranja de Washington, por ter lançado novos vistos para super-ricos enquanto fecha o país para o resto dos imigrantes, e por ter lançado já o site onde podem ser feitas as solicitações para o ‘Trump Gold Card’ que, pelo preço de um milhão de dólares, promete residência nos states em tempo recorde, ‘Um caminho directo para a cidadania para todos os indivíduos qualificados e verificados’.
Mas o mesmo sujeito, descobre o verdadeiro inimigo, o ‘Calibri’, escreve ironicamente também no ‘Nueva Tribuna’, González Montadas, que foi o secretário geral da Federação da Indústria Têxtil, Couro, Química e Afins – ‘Há dias em que se suspeita que a política americana tenha entrado numa fase teológica. E não teologia séria, mas aquela versão caseira em que o sagrado se confunde com o ridículo. A mais recente revelação divina vem do Departamento de Estado, cujo chefe, Marc Rubio, decidiu que o verdadeiro inimigo da democracia não é a fome, nem as guerras intermináveis, nem a negação das mudanças climáticas. Não. O problema, ao que parece, era o ‘Calibri’!
Sim, um tipo de letra digital. A mesma tipografia que você e eu usamos para escrever relatórios, anotações ou e-mails, sem suspeitar que poderíamos estar a participar numa conspiração global. Porque, para o tal Rubio e companhia, a ‘Calibri’ não é apenas ‘progressista’, como também carece de ‘decoro institucional’. Uma acusação muito séria, digna de um ‘tribunal tipográfico internacional’.
Carlos Fortea não deixa de apontar algumas das coisas que na sua opinião têm uma enorme importância, ‘O desprezo generalizado pela educação, agora agravado pelo prestígio atribuído à ignorância, é sem dúvida o mais importante. Triunfam os modelos de comportamento baseados na arrogância e no desrespeito às regras, modelos antes ouvidos em bares, mas agora ecoando nas câmaras parlamentares. A arrogância é normalizada e os insultos até são aplaudidos’.
Ainda no ‘Nueva Tribuna’, o historiador Pedro Luis Angosto, acrescenta, ‘Uma sociedade onde prevalece o mais forte, o mais animalesco, o mais rude, o mais inculto, o mais cruel, floresce em todos os cantos do planeta, com quase nenhuma reacção daqueles que não são assim, mas que rejeitam esse vestígio selvagem do passado que está retornando’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor