CARTA DE BRAGA – “das últimas de Dezembro e da Primavera” por António Oliveira

Os últimos dias de Dezembro, independentemente das prendas de Natal em cada casa e em cada país, ‘A União Europeia mantém-se hoje como um queijo suíço cheio de buracos feitos por mil ratos, e os pais fundadores da democracia americana, na perspectiva actual, eram apenas um punhado de pessoas bem-intencionadas, mas incapazes de imaginar os riscos para a liberdade nas mãos de um líder que não acredita na democracia’, afirma Carlos Fortea, no ‘Nueva Tribuna’, nos idos de 28.

Vive ali, na Casa Branca, ‘Um indivíduo que se dedica a dar seu próprio nome a navios, edifícios e instituições públicas, enquanto conduz seus negócios numa posição de poder sem sequer o tentar disfarçar, e a receber os aplausos de quase metade de todos os americanos’, mas tendo o cuidado de acrescentar a seguir, ‘A grande novidade é que as vítimas de tudo isso também aplaudem, evocando momentos de profunda escuridão que o cinema talvez tenha banalizado, quando o que fazia era alertar para o perigo que representavam para o futuro’.

Timothy A. Clary, ‘À saída do tribunal

Último Segundo’, 24.05.30

Mas, por lá, também tem seguidores de peso como José Antonio Kast, filho de um oficial ligado ao partido nazista que apoiou Pinochet no golpe de 1973 e que aboliu a democracia; mas Kast venceu as eleições no Chile, no passado dia 14. Convém lembrar ainda, ‘Com Pinochet, mais de três mil chilenos foram executados, e outros trinta mil penaram a tortura e a prisão por defenderem a liberdade; e enquanto tais crimes estão ainda a ser investigados, Kast alardeia admiração por Pinochet e as pessoas votam nele!

Mas cá, deste lado charco, a que ele não tardará em querer chamar ‘Oceano Trumpico’ as coisas não vão melhores: transcrevo só uma pequena parte de um texto do editor do internacional da ‘Cadena Ser’ António Martín, datado de 27, ‘Este mês demonstrou, mais uma vez, a dificuldade em chegar a um consenso entre os 27 países da União Europeia, neste caso relativamente à utilização de fundos russos congelados; em Bruxelas já se acostumaram às críticas constantes de Orbán da Hungria, às mensagens de extrema-direita de Meloni da Itália, de Fico da Eslováquia, ou, cada vez mais, de partidos extremistas na Alemanha, na Holanda ou na Polónia. Agora esse clube tem mais um voto, o da República Checa. O populista conservador Andrej Babis, lidera um novo governo de coligação com outros três partidos que já expressaram seu eurocepticismo’.

Um outro comentador político referiu recentemente, ‘O cordão sanitário está desaparecendo em muitos países com a aprovação de Trump, que não esconde sua cumplicidade com Orbán e com Meloni’. E no ‘Publico.es’ do dia 25, escreve Ruth Ferrero-Turrion, professora de Ciência Política e Estudos Europeus em Madrid, ‘Durante décadas, a relação transatlântica foi sustentada por uma ficção cuidadosamente construída: valores compartilhados, ameaças comuns e um destino histórico entrelaçado. Essa narrativa ruiu, não por os EUA terem mudado, mas porque não precisam mais fingir’.

Referindo especificamente a Europa, Ruth Ferrero-Turrion acrescenta ‘A Europa é tratada como um apêndice operacional da NATO, não como uma entidade política com interesses próprios. Não há consulta, responsabilidade compartilhada ou simetria. E, no entanto, em Bruxelas, continuam a falar em fortalecer os laços, como se o problema fosse de comunicação e não de poder’.

E aqui a oposição a este tratamento não parece erguer-se da posição ‘Atenta, Veneradora e Obrigada’ a que que tem sido remetida nos últimos tempos.

Sigo, mais uma vez, um dos meus comentadores preferidos, Lluís Uría, que escreve no ‘La Vanguardia’ de hoje, 27, ‘O fervor belicoso de Mark Rutte, antigo ministro e primeiro ministro dos Países Baixos, e profeta da austeridade, é agora um dos mais fervorosos defensores do aumento dos gastos militares para 5% do PIB, como exigiu Trump, e uma das vozes que mais alimentam a atmosfera pré-guerra na Europa’.

Talvez esteja de acordo com as movimentações políticas que agora se verificam em todo este planeta, como se afirma no mesmo jornal, na crónica de ontem do ex-director Márius Carol, ‘Este ano, o mundo testemunhou o aumento de autocracias (91) a ultrapassar as democracias (88). As democracias liberais são agora minoria. A extrema-direita tomou o controle do discurso e ousa afirmar que a civilização europeia corre o risco de desaparecer, quando o que está em perigo é o sistema de liberdades’.

Termino com uma frase de só onze palavras, escrita pelo poeta chileno Pablo Neruda, ‘Podem cortar todas as flores, mas não podem impedir a Primavera!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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