MENSAGEM DE ANO NOVO por Eva Cruz

MENSAGEM DE ANO NOVO

por Eva Cruz

Pintura de Adão Cruz

Nasce Janeiro e com ele o Novo Ano. Mês de iniciação, de renovação, de promessa e de esperança. O sol começa a subir o céu com mais ânimo, os dias a abrir os braços, os bolbos a inchar entumecidos de seiva, os rebentos a espreitar à tona da terra, os fetos a desenrolar, os primeiros pios dos pássaros a saudar as madrugadas ou a adivinhar o entardecer. Gosto muito do mês de Janeiro, talvez por ter sido no começo de Janeiro que o meu sangue iniciou a viagem no carrocel da vida ao som do ar que pela primeira vez me enchia o peito e me abria o caminho plano e agreste, amargo e doce que o meu futuro determinaria.

Cheguei até aqui dando à vida o melhor que ela me foi ensinando. Uma retribuição tão rica quanto possível, sempre equilibrada pelo fio-de-prumo que me penduraram no berço. Uma vida de procura do caminho dos Valores e da Verdade, da Paz e da Harmonia que só o pensamento livre, o diálogo aberto e a razão conseguem abrir. Um caminho nem sempre fácil, em que procurei fugir de cruzamentos incertos mais ou menos enviesados.

Esta é a mensagem que gostaria de deixar para o Novo Ano. Vivemos tempos muito difíceis, obscuros e bárbaros. Mesmo de olhos bem abertos, tudo à nossa volta pretende arranjar formas de os fechar. Há vendas e obscurantismos por todos os lados e em todas as esquinas. Disfarces e máscaras de todas as cores, encenando o Bem e praticando o Mal. A censura de hoje é mais perigosa do que a de outrora porque é mais subtil, mais engenhosa e enganosa. A informação praticamente não existe e tudo é tendencialmente desinformativo. Nunca podemos esquecer que a maior arma do poder é a ignorância. É preciso estar atento e ter uma ânsia muito grande e uma exigência muito séria e lúcida na procura da Verdade, porque só a Verdade pode levar à Paz e a tudo o que ela conduz. Não nos podemos deixar levar por falsos profetas, promessas vãs e perversas ilusões. É muito importante saber crivar a dita informação, nunca esquecendo que os buraquinhos do crivo devem ser muito finos. A História repete-se, mas não é sempre igual e é muito importante saber interpretar os seus sinais. Arnold Toynbee dizia que estamos condenados a fazer a História repetir-se, cabendo a nós, por meio dos nossos próprios esforços, dar-lhe uma reviravolta nova, sem precedentes. Cabe a nós, seres humanos, dotados de liberdade de escolha, assumir a consciente responsabilidade das decisões. Penso que um Vinte e Cinco de Abril não se repetirá, pelo menos com a Grandeza, a Beleza, a Justiça com que amanheceu e o seu alcance histórico e social. Só o sente no fundo da alma quem o viveu e quem conheceu o antes e o depois. Por mais erros, desvios e traições que possa ter havido de então até hoje, nada ofusca o brilho do sol que o viu nascer. Tantas razões para a vingança, e em vez de balas, explodiram cravos vermelhos. Foi a maior lição de amor e humanismo de que pode orgulhar-se a nossa História recente.

Que neste Novo Ano continuem a florescer em todos nós os cravos vermelhos da Consciência, da Verdade, da Paz e da Justiça. “Não é Livre o pássaro que vive em gaiola. Só o pássaro silveiro conhece a Liberdade.”

 

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