Começo esta Carta com um pedaço de texto de Bernardo Soares, (para os que pensam que poderá jogar num qualquer clube dos futebóis, é um dos heterónimos de Fernando Pessoa), e consta sob o nº 4520, no Arquivo do poeta – e diz o texto, ‘Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar; as palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas’ [ ]Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida’.
Só falta dizer que o texto pertence ao ‘Livro do Desassossego’, a obra maior de Fernando Pessoa, onde se acrescenta ainda, como que a justificar tais palavras, ‘A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade’ e, algumas linhas depois, mais uma frase que até se pode adaptar e este Blog, ‘Diziam os argonautas que “navegar é preciso, mas que viver não é preciso”. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver’.
No entanto, estas palavras parecem ter uma importância fundamental nos tempos que agora vivemos, de tal maneira que até levaram o filósofo e pedagogo José António Marina, a afirmar já em Maio do ano passado ao ‘La Vanguardia’, ‘Um vírus mental está a alastrar nas universidades, disseminando a ideia de que não temos chance de alcançar a verdade, ou de concordar com valores universais. Chegámos a um ponto de relativismo tão extremo que todos os gatos são cinzentos, sem querer saber qual a cor do pelo. Para os estudantes não vale a pena aprender o que está na internet, vítimas de uma conspiração estúpida contra a memória. A memória é a base da inteligência; não há inteligência sem memória. Sem memória e sem conhecimento, estaremos sempre à mercê de manipuladores experientes. Só que o pensamento crítico é a supervacina para nos imunizar contra esse vírus’.
E, referindo muitos dos ‘mandadores’ deste baile que somos obrigados a bailar, ‘Acho que não temos levado suficientemente a sério a tarefa de explicar por que as verdades científicas são confiáveis. Muitas pessoas pensam que as verdades científicas não passam de opiniões de cientistas e que as opiniões de quem não sabe absolutamente nada sobre o assunto têm exactamente o mesmo valor’. Isto é o que se passa nesta Europa, ‘velha’ de séculos, cada vez mais conservadora e, aparentemente a adaptar-se a tais ‘mandadores’.
E como se fosse de propósito, nas palavras do historiador Pedro Luis Angosto, ao ‘Nueva Tribuna’, ‘Implementou medidas que atacam directamente a liberdade de expressão, os direitos de reunião e manifestação, e restringiu seriamente os direitos dos trabalhadores. O quietismo é a resposta predominante dos cidadãos, já que a maioria das pessoas pouco se importa com o que acontece nos assuntos públicos. Nem os escândalos, nem a subserviência flagrante a Trump, nem a perda de influência no cenário internacional, nem o dano das condições de trabalho, são razões suficientes para protestar contra um governo que legisla a mando dos mais poderosos’.
Mas o pior veio no ‘Página Um’ de 25 de Setembro passado, ‘99% dos adolescentes não querem ler jornais portugueses… nem de borla’. O programa de ofertas digitais de jornais para jovens entre os 15 e os 18 anos está a revelar-se um rotundo fracasso, de contornos pouco abonatórios tanto para o Governo, que o concebeu, como para as empresas de comunicação social. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, existiam 418.682 adolescentes na faixa etária abrangida, significa que apenas 1,06% aderiu ao programa – ou seja, menos de 11 por cada mil potenciais beneficiários. A esmagadora maioria ignorou a oferta, mesmo gratuita, o que levanta sérias dúvidas sobre a eficácia das políticas públicas de incentivo à leitura mediática.
E à outra, a da cultura? A resposta está na crónica do poeta e crítico literário António Carlos Cortez, no DN do dia 22 de Dezembro, ‘Sem utopia de uma geração que queremos curiosa, que país teremos? Que literatura? Que justiça? Que ensino? Que liberdade? Que república? Como voltaremos a cantar “Acordai” se não soubermos quem foram José Gomes Ferreira e Lopes-Graça? Se não soubermos já dos nossos heróis contra os corvos, cobras e chacais desta época?’
Ámen!!!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
O que pode dar direito aos filhos-de-cu estadunidenses invadirem a Venezuela?
*…”Democracias ocidentais que podem invadir outros países livres. Democracias ocidentais que podem assassinar pessoas mais diversas, e ainda se vangloriar por seus feitos facínoras, ao redor de todo o mundo. Matam na América do Sul e na Latina, matam e assassinam na África, na Ásia, na Europa, na Oceania. Matam na América do Norte. Matam e assassinam onde lhes convier.”…*
O que pode dar direito aos filhos-de-cu estadunidenses invadirem a Venezuela?
*…”Democracias ocidentais que podem invadir outros países livres. Democracias ocidentais que podem assassinar pessoas mais diversas, e ainda se vangloriar por seus feitos facínoras, ao redor de todo o mundo. Matam na América do Sul e na Latina, matam e assassinam na África, na Ásia, na Europa, na Oceania. Matam na América do Norte. Matam e assassinam onde lhes convier.”…*
https://gustavohorta.wordpress.com/2026/01/02/arrependimento-nenhum-nunca-ou-sempre-jun-2013/
Estou consigo, mas esta Carta é sobre outros e candentes assuntos, pelo menos para nós
Um abraço
A.O..