Lucílio
(passos arrastados
e nariz no telemóvel)
chega junto dos semáforos.
Olha de soslaio: Vermelho.
O ruído intenso do trânsito
contrasta com o brilho silencioso do ecrã
nas mãos de Lucílio.
Subitamente:
– ESTÁ VERDE! – diz, em voz alta, o senhor Lopes.
E Lucílio
(de olhos ocupados)
ouve a dica
e com a velocidade de um like
avança para a passadeira.
Mas
“Skreeech!”
uma carrinha funerária não consegue travar a tempo.
“Bum!”, “Pam!”.
Lucílio e telemóvel partem-se.
O condutor, aflito, sai para avaliar os danos.
E acercando-se de Lucílio:
– Nada a fazer, está vivo! – conclui, antes de seguir para o cemitério.
– Coitado! – exclama o povo.
E
(no meio de toda aquela gente)
alguém lamenta:
– Porra, Lucílio, quem te mandou atravessar? Estava vermelho!
Ainda no passeio
o senhor Lopes
(amarelo de assustado)
deita fora a sua maçã.
– Estava verde, estava mesmo verde! – diz, baixinho.
Na mesma altura, uma velhota tropeça
e deixa cair os dentes no meio da multidão.
Mas, isso foi noutra rua e é uma outra história.


