As sílabas marginais/A MAÇÃ/Nelson Ferraz

 

Lucílio

(passos arrastados

e nariz no telemóvel)

chega junto dos semáforos.

 

 

Olha de soslaio: Vermelho.

 

 

O ruído intenso do trânsito

contrasta com o brilho silencioso do ecrã

nas mãos de Lucílio.

 

 

Subitamente:

– ESTÁ VERDE! – diz, em voz alta, o senhor Lopes.

 

 

E Lucílio

(de olhos ocupados)

ouve a dica

e com a velocidade de um like

avança para a passadeira.

 

 

Mas

“Skreeech!”

uma carrinha funerária não consegue travar a tempo.

“Bum!”, “Pam!”.

Lucílio e telemóvel partem-se.

 

 

 

O condutor, aflito, sai para avaliar os danos.

 

 

E acercando-se de Lucílio:

– Nada a fazer, está vivo! – conclui, antes de seguir para o cemitério.

 

 

– Coitado! – exclama o povo.

 

 

E

(no meio de toda aquela gente)

alguém lamenta:

– Porra, Lucílio, quem te mandou atravessar? Estava vermelho!

 

 

Ainda no passeio

o senhor Lopes

(amarelo de assustado)

deita fora a sua maçã.

– Estava verde, estava mesmo verde! – diz, baixinho.

 

 

Na mesma altura, uma velhota tropeça

e deixa cair os dentes no meio da multidão.

 

 

Mas, isso foi noutra rua e é uma outra história.

 

 

 

 

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